A compreensão de um gesto. Há um passado.
Semelhança.
Não há necessidade de compreendermos um significado singular acerca de nós mesmos. É necessário permitirmos sempre a nossa amplitude.
Encontro.
Notei o quanto a distância se firmou pela consciência. Havia sonâmbulos por todos os lados, o sono tranquilo se tornava uma dádiva. O afastamento se tornou irremediável.
14 maio 2011
24 abril 2011
Continuar viva
Era o seu filho que estava caído embaixo de uma bicicleta do outro lado da rua. Ela correu e chegou até ele. O joelho do menino estava bastante machucado e o sangue escorria pelas finas pernas. Foi um susto e o menino sobreviveu.
Dois dias depois um amigo de seu filho lhe procurou, disse a ela que na queda da bicicleta o menino havia perdido uma sacola que alguém levou embora se aproveitando da situação. A mãe ficou confusa e queria saber que sacola era essa e o que havia dentro. O amigo de seu filho apenas falou: - Tudo que a senhora precisa para continuar viva.
A mãe não levou a sério, acreditou que era uma brincadeira.
Uma semana depois do incidente com a bicicleta, o filho cai de cama e uma forte pneumonia obrigou a internação em um hospital da cidade. Ele piorou muito rápido e após três dias de internação os médicos não tinham mais esperanças, apenas aguardavam pelo pior. A mãe chorava, os exames indicavam uma bactéria fatal.
A bicicleta foi destruída e queimada num terreno perto do prédio onde moravam, exatamente vinte dias depois da queda que ralou o joelho do garoto, que agora estava morto e enterrado. A mãe enlouqueceu e precisou de auxílio psiquiátrico.
Um dia ela foi uma mãe, hoje ela apenas costura sacolas imaginárias.
Dois dias depois um amigo de seu filho lhe procurou, disse a ela que na queda da bicicleta o menino havia perdido uma sacola que alguém levou embora se aproveitando da situação. A mãe ficou confusa e queria saber que sacola era essa e o que havia dentro. O amigo de seu filho apenas falou: - Tudo que a senhora precisa para continuar viva.
A mãe não levou a sério, acreditou que era uma brincadeira.
Uma semana depois do incidente com a bicicleta, o filho cai de cama e uma forte pneumonia obrigou a internação em um hospital da cidade. Ele piorou muito rápido e após três dias de internação os médicos não tinham mais esperanças, apenas aguardavam pelo pior. A mãe chorava, os exames indicavam uma bactéria fatal.
A bicicleta foi destruída e queimada num terreno perto do prédio onde moravam, exatamente vinte dias depois da queda que ralou o joelho do garoto, que agora estava morto e enterrado. A mãe enlouqueceu e precisou de auxílio psiquiátrico.
Um dia ela foi uma mãe, hoje ela apenas costura sacolas imaginárias.
21 abril 2011
A estrada da felicidade
Germana dirigia seu carro numa estrada de terra. O sol brilhava forte e tudo era muito quente.
Se existisse um conceito de felicidade, ele estaria presente no coração de Germana, pois seus 25 anos não eram decepcionantes, não conquistou tudo que queria, mas tinha a certeza de que seu automóvel chegaria ao destino mais certo de sua vida.
Um homem muito velho estava parado na estrada. O carro de Germana passou por ele e logo depois freou. Ela virou o pescoço e ficou olhando para aquele homem, imóvel debaixo de seu boné surrado. Com muita calma, Germana encontrou sua máquina fotográfica na confusão de coisas que era a sua mochila.
Germana desceu do carro e caminhou até o velho.
Os olhos do homem se viraram para ela e com uma voz cansada ele disse "bom dia".
A moça respondeu com um sorriso e os olhos daquele solitário idoso se voltaram para a terra seca da estrada. Germana ensaiou preparar a câmera e antes do visor chegar em seus olhos, ela desistiu. Sentiu, por alguma inexplicável sensação, que aquilo deveria pertencer somente à sua memória.
O suor escorria pela testa de Germana.
O velho homem ajustou o boné na cabeça e em seguida cutucou uma das unhas de sua mão. Germana estava a menos de um metro deste homem e sentiu que na verdade havia uma distância muito maior. Tentou medi-la com a felicidade de seu coração e sentiu o pior sentimento de egoísmo e arrogância, por que ela deveria se julgar muito mais feliz que aquele homem? Percebeu que a foto que ela não tirou buscaria demonstrar isso, uma falácia sem tamanho. Lembrou do filme macedônio "Antes da Chuva".
Germana disse "foi um prazer conhecê-lo", o velho levantou o rosto e retribui com um sorriso aconchegante de poucos dentes.
Um blues em alto volume explodia no interior do carro de Germana enquanto ela dirigia para o seu verdadeiro destino, pelo menos até aquele momento ele era realmente verdadeiro.
Se existisse um conceito de felicidade, ele estaria presente no coração de Germana, pois seus 25 anos não eram decepcionantes, não conquistou tudo que queria, mas tinha a certeza de que seu automóvel chegaria ao destino mais certo de sua vida.
Um homem muito velho estava parado na estrada. O carro de Germana passou por ele e logo depois freou. Ela virou o pescoço e ficou olhando para aquele homem, imóvel debaixo de seu boné surrado. Com muita calma, Germana encontrou sua máquina fotográfica na confusão de coisas que era a sua mochila.
Germana desceu do carro e caminhou até o velho.
Os olhos do homem se viraram para ela e com uma voz cansada ele disse "bom dia".
A moça respondeu com um sorriso e os olhos daquele solitário idoso se voltaram para a terra seca da estrada. Germana ensaiou preparar a câmera e antes do visor chegar em seus olhos, ela desistiu. Sentiu, por alguma inexplicável sensação, que aquilo deveria pertencer somente à sua memória.
O suor escorria pela testa de Germana.
O velho homem ajustou o boné na cabeça e em seguida cutucou uma das unhas de sua mão. Germana estava a menos de um metro deste homem e sentiu que na verdade havia uma distância muito maior. Tentou medi-la com a felicidade de seu coração e sentiu o pior sentimento de egoísmo e arrogância, por que ela deveria se julgar muito mais feliz que aquele homem? Percebeu que a foto que ela não tirou buscaria demonstrar isso, uma falácia sem tamanho. Lembrou do filme macedônio "Antes da Chuva".
Germana disse "foi um prazer conhecê-lo", o velho levantou o rosto e retribui com um sorriso aconchegante de poucos dentes.
Um blues em alto volume explodia no interior do carro de Germana enquanto ela dirigia para o seu verdadeiro destino, pelo menos até aquele momento ele era realmente verdadeiro.
12 março 2011
A conversa do xará
Na piscina, durante as três aulas semanais de natação, procuro sempre manter a respiração adequadamente. É importante para que o nado tenha uma boa eficiência e também evita um maior esforço e cansaço. Mas independentemente do esporte, é bom sabermos respirar, isso muitas vezes influencia inclusive a nossa postura. É uma pena que se ensine muito pouco às crianças sobre o valor da respiração.
Respirar também pode siginificar sentimento, algo interno que molda nossas aspirações, ansiedades e estado de espírito. Minha respiração em jogos do Mengão é uma verdadeira montanha russa de emoções. E quem nunca ficou apaixonado e sentiu a respiração mudar?
Era um dia normal de uma semana de trabalho e eu voltava para casa de ônibus. Atrás de mim estavam sentados um rapaz e uma moça, que pela conversa de ambos pude perceber que eram colegas de trabalho. O papo era de trabalho e eles estavam crucificando um terceiro colega que tinha a incomoda mania de se meter na vida alheia. Peguei minha Piauí e segui a viagem lendo.
Lá na frente, quase perto de casa, paro a leitura e volto a escutar a conversa do casal atrás de mim. A moça dizia que havia ido ao médico, pois não se sentia bem, se sentia fraca e sem vontade de fazer as coisas. Lá chegando, o doutor lhe disse que ela não tinha nada, tudo era estresse e cansaço, ela precisava de férias e que se ela descansasse devidamente, até o namorado ia sentir a diferença. Percebi então que o xará, sim ele se chamava William, alterou a respiração e perguntou em voz mansa: "e aí, ele sentiu?"
A moça riu discretamente e disse que isso era brincadeira do médico, pois ela não tem namorado, saiu de um relacionamento há pouco tempo e não quer se envolver com ninguém, pois tem medo de sofrer novamente. Nova manifestação na respiração do xará, ele comenta em voz doce: "mas você está ótima, é uma pessoa bonita". Ela ri e agradece. O xará emenda, com uma respiração mais relaxada: "você é uma pessoa legal, atenciosa, divertida". A moça segura a respiração por um breve tempo e depois diz "obrigada".
Chegou a minha parada. Levantei e ao passar pelos dois a vi encolhida de cabeça baixa, rindo e com as mãos entre as coxas. O xará estava com o corpo virado pra ela contando algo que devia ser engraçado.
Desci do ônibus e voltei pra casa, na manhã seguinte eu tinha piscina marcada para exercitar a minha respiração.
Respirar também pode siginificar sentimento, algo interno que molda nossas aspirações, ansiedades e estado de espírito. Minha respiração em jogos do Mengão é uma verdadeira montanha russa de emoções. E quem nunca ficou apaixonado e sentiu a respiração mudar?
Era um dia normal de uma semana de trabalho e eu voltava para casa de ônibus. Atrás de mim estavam sentados um rapaz e uma moça, que pela conversa de ambos pude perceber que eram colegas de trabalho. O papo era de trabalho e eles estavam crucificando um terceiro colega que tinha a incomoda mania de se meter na vida alheia. Peguei minha Piauí e segui a viagem lendo.
Lá na frente, quase perto de casa, paro a leitura e volto a escutar a conversa do casal atrás de mim. A moça dizia que havia ido ao médico, pois não se sentia bem, se sentia fraca e sem vontade de fazer as coisas. Lá chegando, o doutor lhe disse que ela não tinha nada, tudo era estresse e cansaço, ela precisava de férias e que se ela descansasse devidamente, até o namorado ia sentir a diferença. Percebi então que o xará, sim ele se chamava William, alterou a respiração e perguntou em voz mansa: "e aí, ele sentiu?"
A moça riu discretamente e disse que isso era brincadeira do médico, pois ela não tem namorado, saiu de um relacionamento há pouco tempo e não quer se envolver com ninguém, pois tem medo de sofrer novamente. Nova manifestação na respiração do xará, ele comenta em voz doce: "mas você está ótima, é uma pessoa bonita". Ela ri e agradece. O xará emenda, com uma respiração mais relaxada: "você é uma pessoa legal, atenciosa, divertida". A moça segura a respiração por um breve tempo e depois diz "obrigada".
Chegou a minha parada. Levantei e ao passar pelos dois a vi encolhida de cabeça baixa, rindo e com as mãos entre as coxas. O xará estava com o corpo virado pra ela contando algo que devia ser engraçado.
Desci do ônibus e voltei pra casa, na manhã seguinte eu tinha piscina marcada para exercitar a minha respiração.
20 fevereiro 2011
Perseguição
A calçada estava molhada, à sua frente um idoso em passos lentos com a coluna devidamente ereta e firme. Aquele homem possuía uma elegância.
Talvez sendo uns 50 anos mais nova que esse homem, ela resolveu segui-lo, pelo menos até o final da rua. Gostou da idéia de poder observar cada movimento do corpo do ancião.
Os dedos dele faziam leves gestos no ar, como se tocassem em algo muito macio. A jovem seguidora de velhinhos tentou imaginar quantas peles não haviam sido tocadas por ele. Mas ao mesmo tempo pensou por que sempre imaginamos que todos os anciãos possuem uma experiência muito maior que a nossa. Os anos de vida são a baliza?
Agora fixou seus olhos nos ombros, que estavam alinhados. Uma postura invejável. Veio à mente dela pesos, aqueles usados em balanças de antigamente. Mas nem sempre os pesos estão somente sobre os ombros. Uma vida custa outras sensações, sem dúvida.
O homem parou.
Ela sentiu um frio dentro de si. O que fazer? Ela precisava decidir rápido. Por algum motivo ela não compreendia como aquilo não fazia parte do seu plano. Mas que plano? A sua mente parecia ferver.
Resolveu ultrapassar o velho homem e foi embora sem olhar para trás.
Talvez um rosto jamais desse conta de explicar toda aquela confusão de pensamentos.
Talvez sendo uns 50 anos mais nova que esse homem, ela resolveu segui-lo, pelo menos até o final da rua. Gostou da idéia de poder observar cada movimento do corpo do ancião.
Os dedos dele faziam leves gestos no ar, como se tocassem em algo muito macio. A jovem seguidora de velhinhos tentou imaginar quantas peles não haviam sido tocadas por ele. Mas ao mesmo tempo pensou por que sempre imaginamos que todos os anciãos possuem uma experiência muito maior que a nossa. Os anos de vida são a baliza?
Agora fixou seus olhos nos ombros, que estavam alinhados. Uma postura invejável. Veio à mente dela pesos, aqueles usados em balanças de antigamente. Mas nem sempre os pesos estão somente sobre os ombros. Uma vida custa outras sensações, sem dúvida.
O homem parou.
Ela sentiu um frio dentro de si. O que fazer? Ela precisava decidir rápido. Por algum motivo ela não compreendia como aquilo não fazia parte do seu plano. Mas que plano? A sua mente parecia ferver.
Resolveu ultrapassar o velho homem e foi embora sem olhar para trás.
Talvez um rosto jamais desse conta de explicar toda aquela confusão de pensamentos.
16 fevereiro 2011
Energias
Sim, era uma lanterna que ela tinha em suas mãos. O escuro a absorvia por todos os lados. E tudo que lhe restava era a duração das pilhas daquela lanterna.
Sem parar um instante sequer, ela continuou caminhando pelos indecisos caminhos da escuridão. A todo momento se perguntava por que tanta desconfiança em si mesma. Não conseguia ter resposta nenhuma, no fundo ela não se conhecia. Uma vida inteira longe de sua própria alma.
Ela começou a cantarolar uma bonita música. Gostou de pensar na possibilidade de forçar uma beleza mínima naquele caos em que vivia.
As pilhas chegaram ao fim de suas vidas úteis.
Não havia mais nada para ver. A cegueira forçada lhe impedia de caminhar. Muitos sinos tocaram e ela retomou a canção. Sua voz exprimia tristeza.
Sim, somos tristes.
Ela cantarolava a canção com uma voz miúda. Deixou os braços abertos para sentir o vazio em sua volta. Ela desistiu.
A consciência de sua distância perante tudo e todos lhe apertou o peito.
Sim, te desejo perto de mim, não me deixe na escuridão. Minha alma se iluminará ao seu lado.
Sem parar um instante sequer, ela continuou caminhando pelos indecisos caminhos da escuridão. A todo momento se perguntava por que tanta desconfiança em si mesma. Não conseguia ter resposta nenhuma, no fundo ela não se conhecia. Uma vida inteira longe de sua própria alma.
Ela começou a cantarolar uma bonita música. Gostou de pensar na possibilidade de forçar uma beleza mínima naquele caos em que vivia.
As pilhas chegaram ao fim de suas vidas úteis.
Não havia mais nada para ver. A cegueira forçada lhe impedia de caminhar. Muitos sinos tocaram e ela retomou a canção. Sua voz exprimia tristeza.
Sim, somos tristes.
Ela cantarolava a canção com uma voz miúda. Deixou os braços abertos para sentir o vazio em sua volta. Ela desistiu.
A consciência de sua distância perante tudo e todos lhe apertou o peito.
Sim, te desejo perto de mim, não me deixe na escuridão. Minha alma se iluminará ao seu lado.
08 fevereiro 2011
Nas entranhas da mente no balé e na piscina
Não foi dessa vez que Natalie Portman me fez ir ao psicólogo.
Em duas ocasiões anteriores ("O Profissional" e "Star Wars"), essa israelense, nascida em Jerusalem e criada em New York, me deixou pensando em coisas além filme e que são capazes de levar muita gente a buscar ajuda psiquiátrica. Em "Cisne Negro" fiquei preocupado, um amigo gay assistiu ao filme e se apaixonou por Portman, logo imaginei que ela havia preparado também algo para mim. Mas nada aconteceu.
Reconheço que Portman está muito bem no filme, mas para não fazer meus holofotes caírem somente nela, gostaria de comentar acerca de um dos pilares fundamentais de "Cisne Negro": a perfeição. A força do filme está na concepção visual dos emblemáticos distúrbios manifestados na mente debilitada de uma bailarina que busca a perfeição plena.
Compartilhar a trajetória da personagem de Portman no filme é muitas vezes sufocante. Como já feito anteriormente em suas obras, o diretor Darren Aronofsky nos coloca num desgovernado carrinho de montanha russa. A impressão que dá é que no início do filme estamos à beira de um precipício e logo alguém nos empurra ladeira abaixo e o abismo parece sem fim.
Hoje vivemos num mundo inteiramente midiático. O que vale no entretenimento é o espetáculo, é a possibilidade visual de vivermos uma experiência intensa. Ser aplaudida de pé com todas os louvores possíveis é um reconhecimento que faz valer todo e qualquer, mas qualquer mesmo, esforço de uma bailarina que busca a excelência. Sinto que o filme explora uma reflexão mais profunda sobre esses valores atuais do preciosismo perfeito na arte, no entretenimento e por que não, no esporte.
Pequim, Olímpiadas de 2008. Michael Phelps já era a lenda viva no Cubo D'água e na História dos jogos olímpicos. O mundo inteiro assistia à sua perfeita performance na piscina com as melhores imagens geradas para uma competição de natação, um espetáculo, sem dúvida. Quando ele disputou os 200m nado borboleta, chegou em primeiro, ganhou sua terceira ou quarta medalha e bateu recorde. Porém, assim que encostou a mão na borda da piscina, ele tirou seus óculos com toda a força, os arremessou na água e a sua expressão era de revolta em alto grau. Havia entrado água em seus óculos.
Phelps terminou a prova com o tempo de 1min52seg03 (recorde mundial), mas se não fosse a falha em seus óculos, ele teria atingido o que buscava, que era a marca de 1min51seg. Não é difícil imaginar que nos últimos 50 metros de piscina sua mente deveria estar produzindo tantos distúrbios quanto aqueles em volta de Natalie Portman durante sua apresentação final. A perfeição estava em jogo.
A partir dessa característica de "Cisne Negro", acredito que a arte, assim como o esporte, esteja superando algumas barreiras delicadas. A exigência de superação parece desumanizar e destruir bases emocionais necessárias para uma existência pacífica de um ser humano consigo mesmo. Talvez esse seja o caminho natural e pouco se possa fazer para evitá-lo, mas atenção e cuidado nunca são demais.
Em duas ocasiões anteriores ("O Profissional" e "Star Wars"), essa israelense, nascida em Jerusalem e criada em New York, me deixou pensando em coisas além filme e que são capazes de levar muita gente a buscar ajuda psiquiátrica. Em "Cisne Negro" fiquei preocupado, um amigo gay assistiu ao filme e se apaixonou por Portman, logo imaginei que ela havia preparado também algo para mim. Mas nada aconteceu.
Reconheço que Portman está muito bem no filme, mas para não fazer meus holofotes caírem somente nela, gostaria de comentar acerca de um dos pilares fundamentais de "Cisne Negro": a perfeição. A força do filme está na concepção visual dos emblemáticos distúrbios manifestados na mente debilitada de uma bailarina que busca a perfeição plena.
Compartilhar a trajetória da personagem de Portman no filme é muitas vezes sufocante. Como já feito anteriormente em suas obras, o diretor Darren Aronofsky nos coloca num desgovernado carrinho de montanha russa. A impressão que dá é que no início do filme estamos à beira de um precipício e logo alguém nos empurra ladeira abaixo e o abismo parece sem fim.
Hoje vivemos num mundo inteiramente midiático. O que vale no entretenimento é o espetáculo, é a possibilidade visual de vivermos uma experiência intensa. Ser aplaudida de pé com todas os louvores possíveis é um reconhecimento que faz valer todo e qualquer, mas qualquer mesmo, esforço de uma bailarina que busca a excelência. Sinto que o filme explora uma reflexão mais profunda sobre esses valores atuais do preciosismo perfeito na arte, no entretenimento e por que não, no esporte.
Pequim, Olímpiadas de 2008. Michael Phelps já era a lenda viva no Cubo D'água e na História dos jogos olímpicos. O mundo inteiro assistia à sua perfeita performance na piscina com as melhores imagens geradas para uma competição de natação, um espetáculo, sem dúvida. Quando ele disputou os 200m nado borboleta, chegou em primeiro, ganhou sua terceira ou quarta medalha e bateu recorde. Porém, assim que encostou a mão na borda da piscina, ele tirou seus óculos com toda a força, os arremessou na água e a sua expressão era de revolta em alto grau. Havia entrado água em seus óculos.
Phelps terminou a prova com o tempo de 1min52seg03 (recorde mundial), mas se não fosse a falha em seus óculos, ele teria atingido o que buscava, que era a marca de 1min51seg. Não é difícil imaginar que nos últimos 50 metros de piscina sua mente deveria estar produzindo tantos distúrbios quanto aqueles em volta de Natalie Portman durante sua apresentação final. A perfeição estava em jogo.
A partir dessa característica de "Cisne Negro", acredito que a arte, assim como o esporte, esteja superando algumas barreiras delicadas. A exigência de superação parece desumanizar e destruir bases emocionais necessárias para uma existência pacífica de um ser humano consigo mesmo. Talvez esse seja o caminho natural e pouco se possa fazer para evitá-lo, mas atenção e cuidado nunca são demais.
05 fevereiro 2011
Os gritos de uma mulher
Kika está no interior de seu quarto, o único de uma casa em um bairro distante. É uma madrugada fria, e deitada com os olhos bem abertos ela escuta os gritos de uma mulher. Esses gritos às vezes se misturam com um choro desesperador.
Na impossibilidade de adormecer, Kika se levanta e caminha em círculos pelo seu quarto. As frieiras de seus pés coçam ardidamente e seus olhos parecem carregar pesos insuportáveis. Mas ela está decidida a andar até cansar.
Kika foi uma criança com alguns problemas estranhos para enfrentar. Seus pais costumavam rezar muito e logicamente a obrigavam fazer isso também. Em uma de suas orações desconcentradas, ela sentiu um sussurro em seu ouvido, não conseguia entender muita coisa, apenas que a palavra 'sangue' se repetia várias vezes. A partir desse dia, todos os dias ela via alguém ensanguentado, era comum na escola, na rua e na TV. Até que uma vez seu pai matou um homem dentro de casa. Foi a última pessoa ensanguentada que ela viu.
Nunca saberemos se ver sangue é ou não um trauma para Kika, que parou de rezar aos quinze anos de idade.
O dia amanhece. Kika está estirada em sua cama. Os gritos e choros continuam. Com os olhos fixos no teto, Kika sente o desespero em seu coração.
Na impossibilidade de adormecer, Kika se levanta e caminha em círculos pelo seu quarto. As frieiras de seus pés coçam ardidamente e seus olhos parecem carregar pesos insuportáveis. Mas ela está decidida a andar até cansar.
Kika foi uma criança com alguns problemas estranhos para enfrentar. Seus pais costumavam rezar muito e logicamente a obrigavam fazer isso também. Em uma de suas orações desconcentradas, ela sentiu um sussurro em seu ouvido, não conseguia entender muita coisa, apenas que a palavra 'sangue' se repetia várias vezes. A partir desse dia, todos os dias ela via alguém ensanguentado, era comum na escola, na rua e na TV. Até que uma vez seu pai matou um homem dentro de casa. Foi a última pessoa ensanguentada que ela viu.
Nunca saberemos se ver sangue é ou não um trauma para Kika, que parou de rezar aos quinze anos de idade.
O dia amanhece. Kika está estirada em sua cama. Os gritos e choros continuam. Com os olhos fixos no teto, Kika sente o desespero em seu coração.
02 fevereiro 2011
Fui a Somewhere e curti
Não sou um profundo admirador do trabalho de Sofia Coppola, reconheço que ela tem talento, sabe fazer as coisas, mas seus três primeiros filmes pouco me acrescentaram alguma coisa. Fiz questão de assistir ao “Somewhere” (Um Lugar Qualquer), quarto longo da diretora, que estreou recentemente em São Paulo, e saí bem satisfeito com o que vi.
Sem ter lido uma letra sequer sobre o filme, os 15 minutos iniciais me conquistaram fortemente, informações esparsas, mas precisas, do personagem principal, construíram ebulições enigmáticas. Não busquei compreender nada, apenas experimentar. Quando o primeiro diálogo surge e descubro a profissão do personagem, as coisas parecem fazer sentido, mas ainda estão nebulosas. E talvez esse seja o real sentimento do personagem perante a sua própria realidade. Daí em diante Sofia Coppola me cativou de vez e mergulhei sem medo no filme.
Curti bastante a interpretação de Stephen Dorf, seguro nas sutilezas de um personagem complexo. Complexidade medida através da indiferença manifestada por ele com as coisas que acontecem a sua volta. Por outro lado, ele não é apenas um entediado, talvez ele simplesmente não compreenda como aquilo tudo pode ter algum sentido. Há uma forte pressão interior para que ele seja indiferente, mas nem ele consegue se autodefinir para agir dessa maneira. É um personagem com nuances bem desenvolvidas pelo roteiro e pelas imagens construídas do filme.
Acredito que a diretora conseguiu harmonizar uma narrativa existencialista sem vitimização ou heroificação do personagem, características que, particularmente, senti e me incomodaram nos seus filmes anteriores. Em “Somewhere” há um humanismo para pensarmos sobre nós mesmo, e isso é muito bom!
Sem ter lido uma letra sequer sobre o filme, os 15 minutos iniciais me conquistaram fortemente, informações esparsas, mas precisas, do personagem principal, construíram ebulições enigmáticas. Não busquei compreender nada, apenas experimentar. Quando o primeiro diálogo surge e descubro a profissão do personagem, as coisas parecem fazer sentido, mas ainda estão nebulosas. E talvez esse seja o real sentimento do personagem perante a sua própria realidade. Daí em diante Sofia Coppola me cativou de vez e mergulhei sem medo no filme.
Curti bastante a interpretação de Stephen Dorf, seguro nas sutilezas de um personagem complexo. Complexidade medida através da indiferença manifestada por ele com as coisas que acontecem a sua volta. Por outro lado, ele não é apenas um entediado, talvez ele simplesmente não compreenda como aquilo tudo pode ter algum sentido. Há uma forte pressão interior para que ele seja indiferente, mas nem ele consegue se autodefinir para agir dessa maneira. É um personagem com nuances bem desenvolvidas pelo roteiro e pelas imagens construídas do filme.
Acredito que a diretora conseguiu harmonizar uma narrativa existencialista sem vitimização ou heroificação do personagem, características que, particularmente, senti e me incomodaram nos seus filmes anteriores. Em “Somewhere” há um humanismo para pensarmos sobre nós mesmo, e isso é muito bom!
01 fevereiro 2011
Tiradentes - Dia 1 Parte Dois
Ainda no meu primeiro dia participando da 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes, saí da primeira sessão de curtas, jantei comida mineira e em seguida fui à praça central da cidade para assistir à Série 1 da Mostra Curtas na Praça. A sessão foi boa, filmes leves, mas com uma boa dose de consistência em suas narrativas e num diálogo muito bom com o público, que se divertiu e reagiu em praticamente todos os curtas.
Costumo ficar na dúvida se curto ou não sessões ao ar livre, pois sou muito fã de sala fechada, escura, som vindo de todos os lados e aquela imersão completa no filme. Mas considero toda iniciativa de exibição de filmes sempre válida e essa sessão de Tiradentes foi bem interessante para observar a interação do público. As reações foram as mais diversas possíveis, mas uma me chamou a atenção.
Ao meu lado havia uma senhora que estava com dois netos, um menino e uma menina. O primeiro praticamente não viu nenhum filme, ficava correndo pra lá e pra cá, a menina ficou quietinha vendo atentamente todos os curtas. Durante o filme “Traz Outro Amigo Também”, sobre um detetive que vai descobrir o paradeiro de um amigo imaginário da infância de um velhinho, a senhora passou a projeção inteira tentando acertar qual seria a cena seguinte, o curioso é que em algumas ela acertou. Isso me incomodou de início, mas depois percebi o quanto aquele filme estava sendo um exercício de imaginação pra ela, assim como o detetive do filme, que precisou de muita imaginação pra resolver o seu caso. No final da sessão, enquanto rolavam os créditos do último filme, a senhora se levantou e puxou a neta, que resistiu um pouco, pois seus olhos ainda estavam colados na tela. Boquiaberta, a menina parecia não querer sair do universo daquela sessão.
De lá corri diretamente para o Cine Tenda para outra sessão de curtas, a Série 1 da Mostra Foco. E aqui retomo a questão sobre observar, principalmente em relação ao primeiro e ao último filme da série. A sessão começou com o documentário “Retrato de Suzana”, dirigido por Leonardo Amaral e Lygia Santos. É um curta que acompanha um dia de trabalho da cabeleireira Suzana, a câmera inicia na saída de sua casa para o salão de beleza e lá ficamos até o anoitecer quando Suzana e suas amigas têm aula de pintura. Durante todo o filme, a minha questão principal era buscar apreender se aquela proposta de observação dos diretores me transmitia algo ou não.
A câmera flerta com certo voyeurismo, mas acredito não ser essa a intenção, percebi mais um sentido em nos fazer absorver o ambiente de trabalho de uma pessoa comum e interagirmos com a simplicidade apresentada. Porém não consegui um envolvimento pleno, as imagens pareciam um registro pela registro, senti falta de uma melhor elaboração dos enquadramentos. Por outro lado reconheço que os diretores arriscaram positivamente, a edição flui bem e há um esforço significativo para nos inserir no salão de Suzana e compartilhar algo.
Quanto ao último curta da sessão, “O Sarcófago”, de Daniel Lisboa, a sensação foi inteiramente contrária. Já assisti a esse filme algumas vezes e fiz questão de revê-lo, pois sinto que a proposta do diretor em documentar o personagem Jayme Figura, um artista que anda pelas ruas de Salvador com indumentárias nada convencionais e recicladas a partir de todo o tipo de material, vai além de uma observação simples e direta. A impressão que me passa a todo instante é o lançamento de um jogo, no qual o espectador precisa experimentar cada cena para avançar na narrativa. É um curta que te convida a vivenciá-lo, sejam quais forem as conseqüências para cada um.
Talvez seja esse o peso do ato de observar, podemos sim ir além, e isso através de uma experimentação da observação, vivenciá-la a partir de nossas bases de conceitos e pensamentos, e assim percebermos algumas inquietações ou não dos elementos observados. Esse primeiro dia me jogou nas entranhas da necessidade de interação com as próprias vivências, acredito que possamos crescer com isso.
Costumo ficar na dúvida se curto ou não sessões ao ar livre, pois sou muito fã de sala fechada, escura, som vindo de todos os lados e aquela imersão completa no filme. Mas considero toda iniciativa de exibição de filmes sempre válida e essa sessão de Tiradentes foi bem interessante para observar a interação do público. As reações foram as mais diversas possíveis, mas uma me chamou a atenção.
Ao meu lado havia uma senhora que estava com dois netos, um menino e uma menina. O primeiro praticamente não viu nenhum filme, ficava correndo pra lá e pra cá, a menina ficou quietinha vendo atentamente todos os curtas. Durante o filme “Traz Outro Amigo Também”, sobre um detetive que vai descobrir o paradeiro de um amigo imaginário da infância de um velhinho, a senhora passou a projeção inteira tentando acertar qual seria a cena seguinte, o curioso é que em algumas ela acertou. Isso me incomodou de início, mas depois percebi o quanto aquele filme estava sendo um exercício de imaginação pra ela, assim como o detetive do filme, que precisou de muita imaginação pra resolver o seu caso. No final da sessão, enquanto rolavam os créditos do último filme, a senhora se levantou e puxou a neta, que resistiu um pouco, pois seus olhos ainda estavam colados na tela. Boquiaberta, a menina parecia não querer sair do universo daquela sessão.
De lá corri diretamente para o Cine Tenda para outra sessão de curtas, a Série 1 da Mostra Foco. E aqui retomo a questão sobre observar, principalmente em relação ao primeiro e ao último filme da série. A sessão começou com o documentário “Retrato de Suzana”, dirigido por Leonardo Amaral e Lygia Santos. É um curta que acompanha um dia de trabalho da cabeleireira Suzana, a câmera inicia na saída de sua casa para o salão de beleza e lá ficamos até o anoitecer quando Suzana e suas amigas têm aula de pintura. Durante todo o filme, a minha questão principal era buscar apreender se aquela proposta de observação dos diretores me transmitia algo ou não.
A câmera flerta com certo voyeurismo, mas acredito não ser essa a intenção, percebi mais um sentido em nos fazer absorver o ambiente de trabalho de uma pessoa comum e interagirmos com a simplicidade apresentada. Porém não consegui um envolvimento pleno, as imagens pareciam um registro pela registro, senti falta de uma melhor elaboração dos enquadramentos. Por outro lado reconheço que os diretores arriscaram positivamente, a edição flui bem e há um esforço significativo para nos inserir no salão de Suzana e compartilhar algo.
Quanto ao último curta da sessão, “O Sarcófago”, de Daniel Lisboa, a sensação foi inteiramente contrária. Já assisti a esse filme algumas vezes e fiz questão de revê-lo, pois sinto que a proposta do diretor em documentar o personagem Jayme Figura, um artista que anda pelas ruas de Salvador com indumentárias nada convencionais e recicladas a partir de todo o tipo de material, vai além de uma observação simples e direta. A impressão que me passa a todo instante é o lançamento de um jogo, no qual o espectador precisa experimentar cada cena para avançar na narrativa. É um curta que te convida a vivenciá-lo, sejam quais forem as conseqüências para cada um.
Talvez seja esse o peso do ato de observar, podemos sim ir além, e isso através de uma experimentação da observação, vivenciá-la a partir de nossas bases de conceitos e pensamentos, e assim percebermos algumas inquietações ou não dos elementos observados. Esse primeiro dia me jogou nas entranhas da necessidade de interação com as próprias vivências, acredito que possamos crescer com isso.
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28 janeiro 2011
Tiradentes - Dia 1 Parte Um
O dia 1 começou no dia zero.
Sob águas torrenciais cheguei à rodoviária Tietê em São Paulo para pegar o ônibus que me levaria a São João Del Rei, de onde seguiria para a cidade de Tiradentes.
Mas como todo bom dia de chuva na paulicéia, tudo parou e os horários de partida dos ônibus atrasaram significativamente.
Pouco antes da zero hora do dia 1 eu estava carregando meu celular quando uma moça perguntou se ela poderia usar meu carregador por 5 minutos. Nessa ocasião ela estava acompanhada de seu noivo, um rapaz de feições orientais, que logo depois foi embora.
Continuei ao lado do carregador e num determinado momento a moça se aproximou e fez um telefonema para a sua mãe informando o atraso do ônibus e dizendo que ficou sozinha, pois seu noivo teve que ir por conta do metrô, que logo encerraria as operações. Assim que ela desligou, uma outra moça de cabelos tingidos e voz extremamente fina, quase chorosa, brigava com o funcionário da viação, que respondia sempre com um sorriso simpático no rosto. São Paulo estava parada.
Quarenta minutos depois ouvi a noiva conversando com o noivo por telefone. Ela o questionava por não ter ficado um pouco mais, ele parecia se justificar pelo horário do metrô, mas ela insistia. Eles se despediram friamente. Fiquei observando o rosto dela, parecia desolada, mas acredito que muito de sua expressão era cansaço. A moça de cabelos tingidos novamente brigava com o risonho funcionário.
O ônibus apareceu na plataforma 4 horas depois do previsto e à 1h30min da madrugada rumei às Minas Gerais para acompanhar a 14ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes.
O dia 1 foi bastante intenso, participei inicialmente da reunião do Fórum dos Festivais, onde houve importantes debates sobre os desafios dos eventos, principalmente na relação com instituições governamentais como Ancine e SaV/Minc. Após a reunião me dirigi ao Cine Tenda para acompanhar uma sessão de curtas.
O primeiro filme foi o documentário “Aeroporto” de Marcelo Pedroso (PE), cujo início é uma moça num aeroporto observando as pessoas em volta, no restante do filme aparecem diversas experiências de viagens de pessoas distintas. Logo lembrei da minha experiência recente na rodoviária e como o fato de observar pessoas é de certa forma similar à construção de um documentário, mesmo que ele fique apenas na sua cabeça. As duas moças (a noiva e a de cabelos tingidos) viviam a experiência da inquietação. O caos da cidade e o reflexo no atraso dos ônibus geraram um ambiente extremamente hostil para ambas. Isso me fez refletir se essa inquietação era o fruto das ações de uma metrópole ou se fazia parte de algo intrínseco à personalidade de cada uma. Mas a pergunta que fica é se eu precisaria entrevistá-las para ter acesso a isso ou se basta apenas o que meus olhos registraram.
No curta de Pedroso, uma de suas forças está na dinâmica das experiências de viagens, que são histórias comuns, mas com uma intensidade que parece ser transformadora para cada pessoa que a viveu. Observamos constantemente as pessoas, mas o que fica a partir de cada observação? Acredito que muito mais do que julgamentos morais podemos avaliar o quanto cada experiência também faz parte de nós mesmos e assim avançarmos no nosso autoconhecimento.
A sessão encerrou com outro curta pernambucano: “Mens Sana in Corpore Sano”, ficção dirigida por Juliano Dornelles. Iniciando como um documentário, acompanhamos a rotina de um fisiculturista, principalmente seus treinamentos. Aos poucos temos acesso às perturbações em sua mente na rígida missão de atingir a excelência no esporte. Quando o filme se estabelece definitivamente na ficção, o espectador é levado a uma das mais inusitadas experiências.
Novamente a observação como expressivo elemento narrativo. Ao acompanharmos a rotina daquele homem, como poderíamos apreender as inquietações de sua mente? O diretor nos levou a elas diretamente, deu um passo que meus olhos jamais poderiam dar, mas eu poderia usar a imaginação, levando ou não às conseqüências apresentadas por Juliano.
Saí da exibição pensando sobre o ato de observar e se existe necessidade de ir além. Como chegar naquilo que define as angústias e inquietações, propulsoras de nossos atos? Lógico que a resposta não se encontra tão facilmente, mas novamente o primeiro e o último filme de uma próxima sessão me trariam elementos para pensar mais um pouco sobre o assunto.
Continua na parte dois (em breve)
19 janeiro 2011
Nhamundá/AM
Em 2001 conheci um cara que tinha sido da marinha e serviu em Manaus por um tempo, lá se juntou com uma amazonense, largou a marinha e comprou um barco. Nessa época ele trabalhava para um alemão que passava seis meses no Amazonas gravando para fazer documentários para circularem em TV européias. Nos outros seis meses do ano, o barco e o equipamento de câmerado alemão ficava com esse camarada que eu conheci.
Como um legitimo marinheiro e barqueiro, ele conhecia bem os rios do Amazonas e numa de nossas conversas ele comentou que conheceu o lago do Espelho da Lua, que ficava junto ao rio Nhamundá, cuja beleza ele ressaltou com propriedade. Afirmou que era uma região que precisava ser conhecida.
Desde então sempre tive a vontade de conhecer o rio Nhamundá.
Eu havia lido a respeito do lago Espelho da Lua numa pesquisa que fiz sobre as indias guerreiras que atacaram os espanhóis quando estes navegaram pela primeira vez pelo rio que conhecemos hoje como Rio Amazonas. Essas índias, fora o relato dos espanhóis e de alguns indios prisioneiros deles, nunca foram vistas por mais ninguém, mas eram cercadas de lendas.
Francisco Orellana, o explorador espanhol que as enfrentou, chamou essas guerreiras de Amazonas, não porque estivessem a cavalo, mas como referência às míticas guerreiras gregas da antiguidade, que tiravam um dos seios para melhor empunhar um arco de flechas.
Amazonas vem do grego, 'mazo' seria seio, 'a-mazo' seria não seio ou sem seio, daí o termo 'amazona'.
E segundo consta, esse confronto de onde sairia o nome do maior rio do mundo, aconteceu nas proximidades do rio Nhamundá, o qual deságua no rio Amazonas. Conforme o relato dos índios presos por Orellana, essas índias guerreiras eram de uma tribo poderosa que não admitia homens, as únicas aproximações eram apenas com intuito de reprodução uma vez ao ano, e ainda acrescentou que as crianças de sexo masculino quando nasciam eram doadas ou sacrificadas. Elas tinham o costume de se banhar num lago chamado Espelho da Lua, onde tiravam de seu leito pequenos amuletos esverdeados com formato de sapo em sua maioria, que eram conhecidos como muiraquitãs.
Janeiro de 2011, fui conhecer o rio Nhamundá.
Lago Espelho da Lua:
Pois é, sou muito ruim para tirar autoretrato.
Mas como eu cheguei a esse recanto das Amazonas?
Eu estava de férias em Manaus e resolvi fazer uma viagem pelo rio Amazonas. Escolhi ir a Parintins, cidade conhecida pela festa de Boi Bumbá que acontece em junho. Parintins fica às margens do rio Amazonas, próxima ao rio Nhamundá, e este faz a divisa do estado do Amazonas com o Pará. Portanto fui com o forte intuito de chegar até o Espelho da Lua.
Em Parintins, conheci Trindade, que é irmã de uma colega de trabalho da minha mãe. Falei para Trindade que eu planejava ir conhecer o rio Nhamundá e também o Espelho da Lua, logo ela me informou que tem uma outra irmã que mora na cidade de Nhamundá e que junto com o marido poderiam me ajudar. Peguei uma lancha em Parintins e de lá rumei à Nhamundá, que é uma charmosa ilha cercada pelo rio de mesmo nome.
Nhamundá:
Como cheguei em Nhamundá:
De Parintins tem lancha que sai diariamente. Em janeiro de 2011 o valor da passagem foi de R$ 40,00.
Para se informar sobre horários e tarifas, o melhor é ir diretamente ao porto e perguntar. Não há um balcão de informações nem site, precisa ser no boca a boca ou então checar junto a algum morador de Parintins.
Em janeiro de 2011, o porto de Parintins estava em reforma, então os barcos atracavam na beira atrás do mercado central. Quando as reformas estiverem concluídas, parece que o porto estará em melhores condições para atender passageiros e turistas.
A duração da viagem até Nhamundá depende do nível do rio. Como estive no período de início das cheias, a viagem durou 2h30min. Em época de cheias, a viagem dura aproximadamente 1 hora. Na época de seca/vazante, a viagem pode durar até 5 horas.
Tudo isso porque para cada época do ano, a lancha segue uma rota diferente.
Também existem barcos que saem de Manaus/AM e de Santarém/PA. Essas viagens são mais longas e as informações são encontradas nos portos de cada cidade.
Para voltar à Parintins é preciso verificar o horário da lancha junto aos moradores de Nhamundá. Existe um serviço de mototáxi que entrega a passagem à domicílio e no dia seguinte leva a pessoa até a lancha, cobrando apenas o valor da passagem.
Assim que cheguei à Nhamundá fui recebido por Francisco Brilhante, cunhado de Trindade. Brilhante, como é conhecido, chegou em Nhamundá há mais de 20 anos e hoje é proprietário de uma drogaria e uma lan house. Ele também é muito ligado à área da saude e desenvolve um projeto social bem interessante que leva periodicamente médicos de diversas especialidades para Nhamundá e também montou um laboratório para análises clínicas essenciais. No período que estive em Nhamundá foram muito boas as conversas com Brilhante, conversamos sobre assuntos diversos. Ele acredita no potencial turístico da cidade, que a partir de uma infra-estrutura básica pode ser um forte elemento econômico para Nhamundá.
Para se hospedar em Nhamundá existem algumas pousadas, são simples, mas confortáveis e com ar condicionado. Fiquei numa localizada em cima do Supermercado Mateus, cujos donos possuem essa pousada. Quarto amplo, frigobar, TV, ar condicionado e café da manhã. Paguei R$ 30,00 pela diária.
Ruas de Nhamundá:
A cidade é bem agradável, urbanizada e hospitaleira. A estrutura para turismo ainda é muito pequena, para informações e qualquer passeio é necessário ter a colaboração de algum morador local.
O rio Nhamundá faz a divisa entre os estados do Amazonas e do Pará. Como Nhamundá é uma ilha, um de seus lados dá de frente paro o estado do Pará. A cidade paraense mais próxima é Faro, que visitei no dia seguinte à minha chegada. Uma curiosidade: o Pará segue o horário de Brasília, com a exceção do período do horário de verão, dessa forma, Faro está 1 hora a frente de Nhamundá.
Para comer há poucas opções de restaurantes. À noite, o que é comum são as bancas de churrasquinho, montadas nas ruas ou nas próprias casas de moradores. Em geral os churrasquinhos tem acompanhamentos diversos e se tornam uma verdadeira refeição.
Bancos: tem o Bradesco e clientes da Caixa Econômica Federal podem utilizar as lotéricas.
Internet: a cidade possui várias lan houses.
Os veículos mais utilizados na cidade são a moto e a bicicleta. Nhamundá é uma ilha e é possível cruzar a cidade a pé, sem muitos problemas, inclusive recomendo pois é uma ótima cidade para caminhadas.
Conversei com o Brilhante sobre a minha vontade de passear pelo rio Nhamundá e conhecer o lago Espelho da Lua. Ele me indicou o seu Eurico, um senhor que possui uma rabeta e que conhece muito bem toda a região. A rabeta seria o transporte mais barato para fazer tal percurso. A outra opção seria ir de voadeira, mas o consumo de gasolina seria maior, representando mais gasto. Como eu estava sozinho, sem ninguém para dividir as despesas, realmente eu precisava de algo mais viável.
Para se ter uma idéia de valores em termos de duração da viagem até o Espelho da Lua e o gasto com combustível:
Voadeira: 2h30min - R$200,00
Rabeta: 5h - R$60,00
(Vale observar que são valores em janeiro de 2011)
A diferença entre uma rabeta e uma voadeira está no motor, o da segunda é muito mais potente.
O Brilhante e o seu Eurico montaram o roteiro da viagem:
-Saída pela manhã de Nhamundá por volta das 8h.
-Viajar até a serra do Espelho da Lua
-Na serra se hospedar na casa do seu Brito, conhecido como Britinho.
-Na serra conhecer o lago Espelho da Lua e subir até a antena da Alcoa, que lá está instalada.
-Dormir na propriedade do Britinho.
-No dia seguinte seguir viagem e conhecer duas comunidades na entrada do rio Paratucu.
-Voltar para Nhamundá por volta do meio dia.
A sugestão do rio Paratucu foi dada por eles, pois dizem que é uma região cuja beleza impressiona tanto quanto o rio Nhamundá.
Fundamental foi a compra de suprimentos para a viagem: rancho (conservas, leite, chocolate, farinha, biscoitos, açúcar, água e refrigetante), uma capa de chuva, um plástico preto grosso para cobrir as coisas pessoais na rabeta, pois esta não era coberta, e gelo. Fora isso o Brilhante me arrumou uma rede, lençol e um isopor para colocarmos o gelo. Sugiro também não esquecer de levar protetor solar, repelente e medicamentos para urgência e primeiros socorros.
Acordei no dia seguinte, me encontrei com o seu Eurico na casa do Brilhante e partimos rio Nhamundá adentro. Após quase dez anos, iniciei uma viagem que sempre quis fazer.
Saímos de Nhamundá por volta das 9h da manhã.
Seu Eurico, o barqueiro:
Rio Nhamundá:
Rio Nhamundá. Do lado esquerdo é o estado do Amazonas, do lado direito é o estado do Pará:
Nessa época do ano, as margens do rio Nhamundá estão repletas de praias. Na época das cheias, muitas delas somem:
No meio da viagem paramos em uma das margens do lado paraense. Abaixo seguem as fotos. A experiência é indescritivel. Um silêncio não silencioso com o barulho da água do rio e o som dos pássaros em volta. Tudo a fazer é olhar ao redor, sentir a floresta amazônica em sua essência e abrir o coração.
(A praia e a rabeta de nossa viagem)
Novamente um tosco autoretrato, garanto que é o último.
Por volta das 13h30min chegamos à serra do Espelho:
Seu Eurico atracou a rabeta e fomos ao encontro do seu Britinho que estava deitado em uma rede. Logo começamos uma boa conversa. Britinho tem muitas histórias de encantos e lendas, ele viveu a vida inteira no meio da selva. Ali na serra ele vive com a esposa e filhos em uma casa sem luz elétrica nem água encanada. Os filhos estudam em escolas localizadas nas comunidades próximas.
O Britinho me contou que em frente à serra, do outro lado do rio, é que ficava a aldeia de mulheres, as lendárias 'amazonas', e que elas vinham tomar banho no lago do lado de cá da margem.
Após a conversa seguimos ao lago do Espelho da Lua:
Pra mim foi muito especial conhecer o Espelho da Lua, parecia que eu fechava um ciclo, não sei explicar. Sentamos às margens do lago e ficamos conversando. Aquele verde em volta e os ruídos da floresta me descansavam o cérebro.
Após a visita ao lago, voltamos para a casa e almoçamos. Depois da comida descansamos um pouco e em seguida subimos a serra até chegar na antena.
Toda essa região do rio Nhamundá está sob proteção do Ibama. Segundo Britinho, a região também abriga muitas riquezas como ouro e esmeraldas, mas ainda estão intocáveis e não por acaso ele diz receber a visita de muita gente do mundo inteiro, muitos deles chegam com aparelhos e vasculham a região fazendo medições.
Outra riqueza presente no solo e a olhos vistos é a bauxita. A Alcoa, que já explora esse minério na divisa do Pará com o Amazonas, tem olhos grandes sobre aquela terra, mas não pode fazer nada, apenas colocou uma antena no alto da serra para facilitar a comunicação entre seus trabalhadores na Amazônia. Britinho está ali para manter o acesso à antena e também para cuidar da serra evitando apropriações e desmatamentos indevidos.
Vista do rio Nhamundá a partir do alto da serra:
Anoiteceu.
Era noite de lua cheia:
Seu Eurico e eu dormimos do lado de fora embaixo de uma cobertura de palha. Montamos nossas redes e ali encostamos. No meio da noite, Britinho veio até nós e nos contou novas histórias. Tanto ele quanto seu Eurico já passaram dias sozinhos na selva, pernoitando em barracas improvisadas ou até mesmo no chão encostados em árvores.
Entre as inúmeras histórias que eles contaram, estão aquelas em que eles encontraram objetos perdidos no meio da selva. Em geral objetos que claramente mostravam que naquele local onde estavam, já havia sido uma aldeia. Seu Eurico contou que uma vez ele e uns amigos encontraram um vaso com duas abas enterrado no chão. Os amigos quiseram arrancar o vaso do solo, mas ele estava meio receoso e sugeriu que fizessem isso na volta, o grupo estava na mata coletando copaíba. Quando voltaram, não encontraram mais o lugar do vaso, segundo Eurico, eles foram encatados pelos espíritos da selva que fizeram sumir o vaso, ou o mudaram de lugar.
Britinho contou uma vez que ele estava dormindo na selva e em sonho vieram mulheres e lhe cantaram três músicas. Ele as guardou e uma delas acabou se tornando uma toada do boi Garantido, de Parintins. Ambos contam que à noite na selva se escuta de tudo: gritos, vozes, ruídos, choros e até tiros. São os encantos e espíritos da floresta. O mais interessante de observar é que eles contam tudo isso com um respeito à floresta, como um lugar que tem uma força e que não pode ser subestimada.
Enfim, a hora de dormir. As carapanãs (mosquitos) não deram trégua, cobri o corpo inteiro com o lenço, mas impossível pegar no sono com o zumbido que elas faziam no pé do ouvido. Por volta de meia noite caiu um temporal, uma tempestade muito forte com raios e trovões. As carapanãs sumiram. Aproveitei e com a cabeça para fora do lençol fiquei observando aquele espetáculo de chuva. a cobertura de palha aguentou firme, nenhum gota em cima de nós. Britinho até perguntou se queriamos entrar para a casa dele, mas resolvemos ficar.
Adormeci.
Acordei por volta das 7h, havíamos combinado de ir cedo para as comunidades do rio Paratucu. Quando olhei para os meus braços eu tomei um susto, parecia que eu estava com sarampo, todo cheio de pontinhos vermelhos, as carapanãs não perdoaram. Mas curiosamente essas picadas não coçavam nem ardiam.
Levantei da rede e eis a paisagem à minha frente:
Fiquei por um bom tempo olhando para essa paisagem, com uma certa meditação e um fortalecimento da minha espiritualidade.
Tomamos um café da manhã e em seguida nos despedimos de Britinho e sua família. Abaixo ele de costas caminhando às márgens do rio Nhamundá, prefiro ter esse registro do Britinho, integrado à essa natureza dos encantos de suas histórias.
Seguimos a viagem.
Assim que saimos da serra do Espelho fomos acompanhados por botos, que pulavam um pouco a frente da rabeta.
Infelizmente não chegamos a entrar no rio Paratucu, pois o tempo estava muito instável e o seu Eurico recomendou que voltássemos antes do meio dia para Nhamundá. Mas fomos até uma comunidade chamada Castanhal, localizada no encontro dos rios Paratucu e Nhamundá.
Comunidade Castanhal:
Nessa comunidade visitamos a líder do local, que é uma das moradoras mais antigas. Conversamos com ela e o marido por um tempo antes de darmos uma volta pelo lugar. Eles moram sozinhos, pois todos os filhos (se não me engano são quatro) estão em Parintins ou em Manaus, quase todos haviam feito universidade e estavam bem encaminhados na vida.
Abixo foto da vista da comunidade. À esquerda o rio Nhamundá segue entrando na selva e vai até quase perto da Guiana. À direita está a entrada do rio Paratucu.
Por volta das 11h entramos na rabeta e seguimos de volta para Nhamundá.
A viagem de volta foi tranquila e um pouco mais cansativa. Paramos para almoçar numa praia, dessa vez do lado do Amazonas.
Nuvens carregadas nos acompanharam por boa parte da viagem, mas apenas quando estávamos bem perto de Nhamundá que ela caiu forte sobre nós. E bem forte. Seu Eurico segurou firme o manche da rabeta e chegamos sem problemas por volta das 15h.
No dia seguinte voltei para Parintins e levei comigo ótimas recordações da minha passagem por Nhamundá, fiz bons amigos, relaxei a mente e tive um contato com a floresta como jamais havia tido.
No final da tarde dei uma volta pela cidade para me despedir num por do sol às margens do rio Nhamundá:
Como um legitimo marinheiro e barqueiro, ele conhecia bem os rios do Amazonas e numa de nossas conversas ele comentou que conheceu o lago do Espelho da Lua, que ficava junto ao rio Nhamundá, cuja beleza ele ressaltou com propriedade. Afirmou que era uma região que precisava ser conhecida.
Desde então sempre tive a vontade de conhecer o rio Nhamundá.
Eu havia lido a respeito do lago Espelho da Lua numa pesquisa que fiz sobre as indias guerreiras que atacaram os espanhóis quando estes navegaram pela primeira vez pelo rio que conhecemos hoje como Rio Amazonas. Essas índias, fora o relato dos espanhóis e de alguns indios prisioneiros deles, nunca foram vistas por mais ninguém, mas eram cercadas de lendas.
Francisco Orellana, o explorador espanhol que as enfrentou, chamou essas guerreiras de Amazonas, não porque estivessem a cavalo, mas como referência às míticas guerreiras gregas da antiguidade, que tiravam um dos seios para melhor empunhar um arco de flechas.
Amazonas vem do grego, 'mazo' seria seio, 'a-mazo' seria não seio ou sem seio, daí o termo 'amazona'.
E segundo consta, esse confronto de onde sairia o nome do maior rio do mundo, aconteceu nas proximidades do rio Nhamundá, o qual deságua no rio Amazonas. Conforme o relato dos índios presos por Orellana, essas índias guerreiras eram de uma tribo poderosa que não admitia homens, as únicas aproximações eram apenas com intuito de reprodução uma vez ao ano, e ainda acrescentou que as crianças de sexo masculino quando nasciam eram doadas ou sacrificadas. Elas tinham o costume de se banhar num lago chamado Espelho da Lua, onde tiravam de seu leito pequenos amuletos esverdeados com formato de sapo em sua maioria, que eram conhecidos como muiraquitãs.
Janeiro de 2011, fui conhecer o rio Nhamundá.
Lago Espelho da Lua:
Pois é, sou muito ruim para tirar autoretrato.
Mas como eu cheguei a esse recanto das Amazonas?
Eu estava de férias em Manaus e resolvi fazer uma viagem pelo rio Amazonas. Escolhi ir a Parintins, cidade conhecida pela festa de Boi Bumbá que acontece em junho. Parintins fica às margens do rio Amazonas, próxima ao rio Nhamundá, e este faz a divisa do estado do Amazonas com o Pará. Portanto fui com o forte intuito de chegar até o Espelho da Lua.
Em Parintins, conheci Trindade, que é irmã de uma colega de trabalho da minha mãe. Falei para Trindade que eu planejava ir conhecer o rio Nhamundá e também o Espelho da Lua, logo ela me informou que tem uma outra irmã que mora na cidade de Nhamundá e que junto com o marido poderiam me ajudar. Peguei uma lancha em Parintins e de lá rumei à Nhamundá, que é uma charmosa ilha cercada pelo rio de mesmo nome.
Nhamundá:
Como cheguei em Nhamundá:
De Parintins tem lancha que sai diariamente. Em janeiro de 2011 o valor da passagem foi de R$ 40,00.
Para se informar sobre horários e tarifas, o melhor é ir diretamente ao porto e perguntar. Não há um balcão de informações nem site, precisa ser no boca a boca ou então checar junto a algum morador de Parintins.
Em janeiro de 2011, o porto de Parintins estava em reforma, então os barcos atracavam na beira atrás do mercado central. Quando as reformas estiverem concluídas, parece que o porto estará em melhores condições para atender passageiros e turistas.
A duração da viagem até Nhamundá depende do nível do rio. Como estive no período de início das cheias, a viagem durou 2h30min. Em época de cheias, a viagem dura aproximadamente 1 hora. Na época de seca/vazante, a viagem pode durar até 5 horas.
Tudo isso porque para cada época do ano, a lancha segue uma rota diferente.
Também existem barcos que saem de Manaus/AM e de Santarém/PA. Essas viagens são mais longas e as informações são encontradas nos portos de cada cidade.
Para voltar à Parintins é preciso verificar o horário da lancha junto aos moradores de Nhamundá. Existe um serviço de mototáxi que entrega a passagem à domicílio e no dia seguinte leva a pessoa até a lancha, cobrando apenas o valor da passagem.
Assim que cheguei à Nhamundá fui recebido por Francisco Brilhante, cunhado de Trindade. Brilhante, como é conhecido, chegou em Nhamundá há mais de 20 anos e hoje é proprietário de uma drogaria e uma lan house. Ele também é muito ligado à área da saude e desenvolve um projeto social bem interessante que leva periodicamente médicos de diversas especialidades para Nhamundá e também montou um laboratório para análises clínicas essenciais. No período que estive em Nhamundá foram muito boas as conversas com Brilhante, conversamos sobre assuntos diversos. Ele acredita no potencial turístico da cidade, que a partir de uma infra-estrutura básica pode ser um forte elemento econômico para Nhamundá.
Para se hospedar em Nhamundá existem algumas pousadas, são simples, mas confortáveis e com ar condicionado. Fiquei numa localizada em cima do Supermercado Mateus, cujos donos possuem essa pousada. Quarto amplo, frigobar, TV, ar condicionado e café da manhã. Paguei R$ 30,00 pela diária.
Ruas de Nhamundá:
A cidade é bem agradável, urbanizada e hospitaleira. A estrutura para turismo ainda é muito pequena, para informações e qualquer passeio é necessário ter a colaboração de algum morador local.
O rio Nhamundá faz a divisa entre os estados do Amazonas e do Pará. Como Nhamundá é uma ilha, um de seus lados dá de frente paro o estado do Pará. A cidade paraense mais próxima é Faro, que visitei no dia seguinte à minha chegada. Uma curiosidade: o Pará segue o horário de Brasília, com a exceção do período do horário de verão, dessa forma, Faro está 1 hora a frente de Nhamundá.
Para comer há poucas opções de restaurantes. À noite, o que é comum são as bancas de churrasquinho, montadas nas ruas ou nas próprias casas de moradores. Em geral os churrasquinhos tem acompanhamentos diversos e se tornam uma verdadeira refeição.
Bancos: tem o Bradesco e clientes da Caixa Econômica Federal podem utilizar as lotéricas.
Internet: a cidade possui várias lan houses.
Os veículos mais utilizados na cidade são a moto e a bicicleta. Nhamundá é uma ilha e é possível cruzar a cidade a pé, sem muitos problemas, inclusive recomendo pois é uma ótima cidade para caminhadas.
Conversei com o Brilhante sobre a minha vontade de passear pelo rio Nhamundá e conhecer o lago Espelho da Lua. Ele me indicou o seu Eurico, um senhor que possui uma rabeta e que conhece muito bem toda a região. A rabeta seria o transporte mais barato para fazer tal percurso. A outra opção seria ir de voadeira, mas o consumo de gasolina seria maior, representando mais gasto. Como eu estava sozinho, sem ninguém para dividir as despesas, realmente eu precisava de algo mais viável.
Para se ter uma idéia de valores em termos de duração da viagem até o Espelho da Lua e o gasto com combustível:
Voadeira: 2h30min - R$200,00
Rabeta: 5h - R$60,00
(Vale observar que são valores em janeiro de 2011)
A diferença entre uma rabeta e uma voadeira está no motor, o da segunda é muito mais potente.
O Brilhante e o seu Eurico montaram o roteiro da viagem:
-Saída pela manhã de Nhamundá por volta das 8h.
-Viajar até a serra do Espelho da Lua
-Na serra se hospedar na casa do seu Brito, conhecido como Britinho.
-Na serra conhecer o lago Espelho da Lua e subir até a antena da Alcoa, que lá está instalada.
-Dormir na propriedade do Britinho.
-No dia seguinte seguir viagem e conhecer duas comunidades na entrada do rio Paratucu.
-Voltar para Nhamundá por volta do meio dia.
A sugestão do rio Paratucu foi dada por eles, pois dizem que é uma região cuja beleza impressiona tanto quanto o rio Nhamundá.
Fundamental foi a compra de suprimentos para a viagem: rancho (conservas, leite, chocolate, farinha, biscoitos, açúcar, água e refrigetante), uma capa de chuva, um plástico preto grosso para cobrir as coisas pessoais na rabeta, pois esta não era coberta, e gelo. Fora isso o Brilhante me arrumou uma rede, lençol e um isopor para colocarmos o gelo. Sugiro também não esquecer de levar protetor solar, repelente e medicamentos para urgência e primeiros socorros.
Acordei no dia seguinte, me encontrei com o seu Eurico na casa do Brilhante e partimos rio Nhamundá adentro. Após quase dez anos, iniciei uma viagem que sempre quis fazer.
Saímos de Nhamundá por volta das 9h da manhã.
Seu Eurico, o barqueiro:
Rio Nhamundá:
Rio Nhamundá. Do lado esquerdo é o estado do Amazonas, do lado direito é o estado do Pará:
Nessa época do ano, as margens do rio Nhamundá estão repletas de praias. Na época das cheias, muitas delas somem:
No meio da viagem paramos em uma das margens do lado paraense. Abaixo seguem as fotos. A experiência é indescritivel. Um silêncio não silencioso com o barulho da água do rio e o som dos pássaros em volta. Tudo a fazer é olhar ao redor, sentir a floresta amazônica em sua essência e abrir o coração.
(A praia e a rabeta de nossa viagem)
Novamente um tosco autoretrato, garanto que é o último.
Por volta das 13h30min chegamos à serra do Espelho:
Seu Eurico atracou a rabeta e fomos ao encontro do seu Britinho que estava deitado em uma rede. Logo começamos uma boa conversa. Britinho tem muitas histórias de encantos e lendas, ele viveu a vida inteira no meio da selva. Ali na serra ele vive com a esposa e filhos em uma casa sem luz elétrica nem água encanada. Os filhos estudam em escolas localizadas nas comunidades próximas.
O Britinho me contou que em frente à serra, do outro lado do rio, é que ficava a aldeia de mulheres, as lendárias 'amazonas', e que elas vinham tomar banho no lago do lado de cá da margem.
Após a conversa seguimos ao lago do Espelho da Lua:
Pra mim foi muito especial conhecer o Espelho da Lua, parecia que eu fechava um ciclo, não sei explicar. Sentamos às margens do lago e ficamos conversando. Aquele verde em volta e os ruídos da floresta me descansavam o cérebro.
Após a visita ao lago, voltamos para a casa e almoçamos. Depois da comida descansamos um pouco e em seguida subimos a serra até chegar na antena.
Toda essa região do rio Nhamundá está sob proteção do Ibama. Segundo Britinho, a região também abriga muitas riquezas como ouro e esmeraldas, mas ainda estão intocáveis e não por acaso ele diz receber a visita de muita gente do mundo inteiro, muitos deles chegam com aparelhos e vasculham a região fazendo medições.
Outra riqueza presente no solo e a olhos vistos é a bauxita. A Alcoa, que já explora esse minério na divisa do Pará com o Amazonas, tem olhos grandes sobre aquela terra, mas não pode fazer nada, apenas colocou uma antena no alto da serra para facilitar a comunicação entre seus trabalhadores na Amazônia. Britinho está ali para manter o acesso à antena e também para cuidar da serra evitando apropriações e desmatamentos indevidos.
Vista do rio Nhamundá a partir do alto da serra:
Anoiteceu.
Era noite de lua cheia:
Seu Eurico e eu dormimos do lado de fora embaixo de uma cobertura de palha. Montamos nossas redes e ali encostamos. No meio da noite, Britinho veio até nós e nos contou novas histórias. Tanto ele quanto seu Eurico já passaram dias sozinhos na selva, pernoitando em barracas improvisadas ou até mesmo no chão encostados em árvores.
Entre as inúmeras histórias que eles contaram, estão aquelas em que eles encontraram objetos perdidos no meio da selva. Em geral objetos que claramente mostravam que naquele local onde estavam, já havia sido uma aldeia. Seu Eurico contou que uma vez ele e uns amigos encontraram um vaso com duas abas enterrado no chão. Os amigos quiseram arrancar o vaso do solo, mas ele estava meio receoso e sugeriu que fizessem isso na volta, o grupo estava na mata coletando copaíba. Quando voltaram, não encontraram mais o lugar do vaso, segundo Eurico, eles foram encatados pelos espíritos da selva que fizeram sumir o vaso, ou o mudaram de lugar.
Britinho contou uma vez que ele estava dormindo na selva e em sonho vieram mulheres e lhe cantaram três músicas. Ele as guardou e uma delas acabou se tornando uma toada do boi Garantido, de Parintins. Ambos contam que à noite na selva se escuta de tudo: gritos, vozes, ruídos, choros e até tiros. São os encantos e espíritos da floresta. O mais interessante de observar é que eles contam tudo isso com um respeito à floresta, como um lugar que tem uma força e que não pode ser subestimada.
Enfim, a hora de dormir. As carapanãs (mosquitos) não deram trégua, cobri o corpo inteiro com o lenço, mas impossível pegar no sono com o zumbido que elas faziam no pé do ouvido. Por volta de meia noite caiu um temporal, uma tempestade muito forte com raios e trovões. As carapanãs sumiram. Aproveitei e com a cabeça para fora do lençol fiquei observando aquele espetáculo de chuva. a cobertura de palha aguentou firme, nenhum gota em cima de nós. Britinho até perguntou se queriamos entrar para a casa dele, mas resolvemos ficar.
Adormeci.
Acordei por volta das 7h, havíamos combinado de ir cedo para as comunidades do rio Paratucu. Quando olhei para os meus braços eu tomei um susto, parecia que eu estava com sarampo, todo cheio de pontinhos vermelhos, as carapanãs não perdoaram. Mas curiosamente essas picadas não coçavam nem ardiam.
Levantei da rede e eis a paisagem à minha frente:
Fiquei por um bom tempo olhando para essa paisagem, com uma certa meditação e um fortalecimento da minha espiritualidade.
Tomamos um café da manhã e em seguida nos despedimos de Britinho e sua família. Abaixo ele de costas caminhando às márgens do rio Nhamundá, prefiro ter esse registro do Britinho, integrado à essa natureza dos encantos de suas histórias.
Seguimos a viagem.
Assim que saimos da serra do Espelho fomos acompanhados por botos, que pulavam um pouco a frente da rabeta.
Infelizmente não chegamos a entrar no rio Paratucu, pois o tempo estava muito instável e o seu Eurico recomendou que voltássemos antes do meio dia para Nhamundá. Mas fomos até uma comunidade chamada Castanhal, localizada no encontro dos rios Paratucu e Nhamundá.
Comunidade Castanhal:
Nessa comunidade visitamos a líder do local, que é uma das moradoras mais antigas. Conversamos com ela e o marido por um tempo antes de darmos uma volta pelo lugar. Eles moram sozinhos, pois todos os filhos (se não me engano são quatro) estão em Parintins ou em Manaus, quase todos haviam feito universidade e estavam bem encaminhados na vida.
Abixo foto da vista da comunidade. À esquerda o rio Nhamundá segue entrando na selva e vai até quase perto da Guiana. À direita está a entrada do rio Paratucu.
Por volta das 11h entramos na rabeta e seguimos de volta para Nhamundá.
A viagem de volta foi tranquila e um pouco mais cansativa. Paramos para almoçar numa praia, dessa vez do lado do Amazonas.
Nuvens carregadas nos acompanharam por boa parte da viagem, mas apenas quando estávamos bem perto de Nhamundá que ela caiu forte sobre nós. E bem forte. Seu Eurico segurou firme o manche da rabeta e chegamos sem problemas por volta das 15h.
No dia seguinte voltei para Parintins e levei comigo ótimas recordações da minha passagem por Nhamundá, fiz bons amigos, relaxei a mente e tive um contato com a floresta como jamais havia tido.
No final da tarde dei uma volta pela cidade para me despedir num por do sol às margens do rio Nhamundá:
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18 janeiro 2011
Parintins
Parintins é uma cidade do estado do Amazonas, localizada às margens do rio Amazonas, próxima à divisa com o estado do Pará.
Com quase 100 mil habitantes, Parintins é urbanizada, possui serviços diversos e conta com boas redes de restaurantes e hotéis. A cidade é muito conhecida pelo festival folclórico de Parintins, com as apresentações de Boi Bumbá, o evento acontece anualmente no último fim de semana do mês de junho, onde ocorre a disputa entre os bois Garantido (vermelho) e Caprichoso (azul). Como há muita informaçaõ na internet sobre esse festival e sobre os bois, não comentarei sobre eles aqui nesse texto, me concentrando apenas na viagem que fiz em janeiro de 2011.
Como chegar em Parintins:
A partir de Manaus, capital do Amazonas, há três opções: barco, lancha e avião.
Barco (também conhecido como motor):
-A viagem de ida dura em torno de 18 horas, a viagem de volta pode levar até 21 horas.
-Os barcos saem do porto da Manaus Moderna, atrás do mercado municipal Adolpho Lisboa.
-Em janeiro de 2011 o preço da passagem de ida era R$ 70,00.
-Melhores informações diretamente no local.
Lancha:
-A viagem dura aproximadamente 10 horas.
-As lanchas saem de um porto próprio da Manaus Moderna, atrás do mercado municipal Adolpho Lisboa.
-Em janeiro de 2011 o preço da passagem de ida era R$ 150,00.
-Melhores informações diretamente no local ou pelos fones (92) 9984-9091 e (92) 9119-4389
Avião:
-A viagem dura 1 hora.
-Os vôos saem do aeroporto Eduardo Gomes.
-Linhas áeras: Trip, TAM.
-Informações pelos sites das companhias aéreas.
Bancos:
Parintins só possui os seguintes bancos: Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Banco da Amazônia.
Não possui caixa da rede 24 horas.
Muitos lugares aceitam cartões como forma de pagamento, mas recomendo não contar com isso sempre.
A viagem de lancha:
Fui de lancha e cabe observar algumas coisas. Elas não operam todos os dias, e cada dia é uma lancha diferente. Apesar do preço ser sempre o mesmo, a qualidade das lanchas variam muito. As diferenças estão no conforto dos assentos e nos serviços de bordo como almoço e lanche.
Outra coisa interessante é que o público local não curte muito viajar de lancha, apesar de ser uma viagem mais rápida do que de motor, ele não gostam do fato de ficar muitas horas sentados e com pouca visibilidade. Na viagem de motor, há mais liberdade de circulação, desfruta-se mais da paisagem e é sempre comum interagir com outros passageiros. Então a dica é sempre avaliar a relação da viagem com o tempo.Isso é fato: viajar pelo Amazonas requer tempo, muito tempo, pois os deslocamentos de barco são longos e demorados.
A vantagem da lancha é sair e chegar no mesmo dia, é uma opção não tão barata, mas muito mais em conta que o avião e mais rápida que o motor.
Visita à Parintins:
Saí de Manaus debaixo de muita chuva, a lancha seguiu pelo rio Amazonas e fez três paradas: Itacoatiara, Boa Vista do Ramos e Barreirinha. A beleza da viagem está em ver o rio Amazonas, imenso, muito agitado e forte.
Assim que a lancha se aproxima de Parintins, vemos a bandeira do boi Garantido que está hasteada no curral desse boi. A lancha aporta no centro da cidade atrás do mercado municipal. O porto oficial de Parintins está em obras em janeiro de 2011, quando estiver pronto deverá oferecer uma boa estrutura.
Cheguei e fui caminhando para a pousada Rio Doce, que é um lugar confortável, boas instalações, quartos grandes e espaçosos. Aceita cartão. Tem piscina. O preço que paguei nessa época do ano pela diária foi de R$ 50,00.
No dia seguinte caminhei pela cidade. Comecei tomando café da manhã no mercado municipal, há lanchonetes que servem várias opções, recomendadíssimo.
Em seguida fui até o Bumbodromo, estava fechado e o vi apenas por fora. Depois fui até o curral do Garantido, que fica no bairro do São José, um bairro simples e agradável.
Na volta vim pela orla e parei num dos lugares que mais recomendo em Parintins: o restaurante/peixaria Coroa's. Localizado às margens do rio Amazonas, tem um atendimento muito bom, preços ótimos, boas refeições, uma vista maravilhosa e aceita cartão.
A vista do restaurante Coroa's:
Lá conheci algumas pessoas, amazonense adora puxar papo e para se sentir solitário em algum lugar do Amazonas é preciso muito esforço. Foi uma tarde agradável, comi um delicioso peixe, tomei cerveja e conversei bastante. Uma das pessoas que conheci não era do Amazonas e sim paulista, uma rapaz professor da PUC-SP chamado Daniel. De lá fomos ao curral do Caprichoso onde segundo ele haveria um ensaio de boi.
Quando chegamos lá, o que havia era um grupo de jovens jogando bola, entrei num time-fora e logo entrei em quadra. Senti o peso dos meus 36 anos quando tive que marcar moleques de 18,mesmo assim aguentei firme durante 5 partidas, o nosso time era bom, quando enfim perdemos, pendurei a chuteira e fui embora.
À noite fui com o Daniel em uma casa noturna de Parintins chamada Rancho do Taperebá. Era um sábado e teve apresentação de duas bandas e um DJ. O local começou a lotar por volta de 1h da madrugadas. Lugar animado e bem democrático.
Em Parintins conheci uma moça chamada Trindade, ela é irmã de uma colega de trabalho da minha mãe. Foi ela que me deu todas as dicas e ajudas para ir à Nhamundá, viagem que foi uma verdadeira imersão na Amazônia.
No domingo acordei, tomei o café da manhã no mercado e no meio da tarde peguei a lancha para Nhamundá.
Considerações gerais:
Parintins é uma cidade bem agradável, visitei a cidade fora da época do festival folclórico, então vi muita tranquilidade, ótimo para fugir de rotinas e descansar.
A cidade está bem desenvolvida, tem serviços básicos e está equipada com universidades (federal, estadual e particulares).
A hospitalidade é ímpar, assim como em todo o Amazonas, as pessoas te recebem bem e são atenciosas. Faz-se amizades rapidamente e o tratamento é como se fossem amigos há anos.
Como qualquer destino turístico do Brasil, as informações de passeio nem sempre são fáceis e as estruturas locais não colaboram. Por isso é sempre bom conhecer alguém da cidade. Quando voltei de Nhamundá, a Trindade e um amigo dela me levaram para conhecer mais a cidade, tudo só era possível de carro ou moto.
A proximidade com locais é sempre positiva, pois nos faz compreender melhor certos aspectos da cidade, que para um viajante ou turista são quase inacessíveis.
Com quase 100 mil habitantes, Parintins é urbanizada, possui serviços diversos e conta com boas redes de restaurantes e hotéis. A cidade é muito conhecida pelo festival folclórico de Parintins, com as apresentações de Boi Bumbá, o evento acontece anualmente no último fim de semana do mês de junho, onde ocorre a disputa entre os bois Garantido (vermelho) e Caprichoso (azul). Como há muita informaçaõ na internet sobre esse festival e sobre os bois, não comentarei sobre eles aqui nesse texto, me concentrando apenas na viagem que fiz em janeiro de 2011.
Como chegar em Parintins:
A partir de Manaus, capital do Amazonas, há três opções: barco, lancha e avião.
Barco (também conhecido como motor):
-A viagem de ida dura em torno de 18 horas, a viagem de volta pode levar até 21 horas.
-Os barcos saem do porto da Manaus Moderna, atrás do mercado municipal Adolpho Lisboa.
-Em janeiro de 2011 o preço da passagem de ida era R$ 70,00.
-Melhores informações diretamente no local.
Lancha:
-A viagem dura aproximadamente 10 horas.
-As lanchas saem de um porto próprio da Manaus Moderna, atrás do mercado municipal Adolpho Lisboa.
-Em janeiro de 2011 o preço da passagem de ida era R$ 150,00.
-Melhores informações diretamente no local ou pelos fones (92) 9984-9091 e (92) 9119-4389
Avião:
-A viagem dura 1 hora.
-Os vôos saem do aeroporto Eduardo Gomes.
-Linhas áeras: Trip, TAM.
-Informações pelos sites das companhias aéreas.
Bancos:
Parintins só possui os seguintes bancos: Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Banco da Amazônia.
Não possui caixa da rede 24 horas.
Muitos lugares aceitam cartões como forma de pagamento, mas recomendo não contar com isso sempre.
A viagem de lancha:
Fui de lancha e cabe observar algumas coisas. Elas não operam todos os dias, e cada dia é uma lancha diferente. Apesar do preço ser sempre o mesmo, a qualidade das lanchas variam muito. As diferenças estão no conforto dos assentos e nos serviços de bordo como almoço e lanche.
Outra coisa interessante é que o público local não curte muito viajar de lancha, apesar de ser uma viagem mais rápida do que de motor, ele não gostam do fato de ficar muitas horas sentados e com pouca visibilidade. Na viagem de motor, há mais liberdade de circulação, desfruta-se mais da paisagem e é sempre comum interagir com outros passageiros. Então a dica é sempre avaliar a relação da viagem com o tempo.Isso é fato: viajar pelo Amazonas requer tempo, muito tempo, pois os deslocamentos de barco são longos e demorados.
A vantagem da lancha é sair e chegar no mesmo dia, é uma opção não tão barata, mas muito mais em conta que o avião e mais rápida que o motor.
Visita à Parintins:
Saí de Manaus debaixo de muita chuva, a lancha seguiu pelo rio Amazonas e fez três paradas: Itacoatiara, Boa Vista do Ramos e Barreirinha. A beleza da viagem está em ver o rio Amazonas, imenso, muito agitado e forte.
Assim que a lancha se aproxima de Parintins, vemos a bandeira do boi Garantido que está hasteada no curral desse boi. A lancha aporta no centro da cidade atrás do mercado municipal. O porto oficial de Parintins está em obras em janeiro de 2011, quando estiver pronto deverá oferecer uma boa estrutura.
Cheguei e fui caminhando para a pousada Rio Doce, que é um lugar confortável, boas instalações, quartos grandes e espaçosos. Aceita cartão. Tem piscina. O preço que paguei nessa época do ano pela diária foi de R$ 50,00.
No dia seguinte caminhei pela cidade. Comecei tomando café da manhã no mercado municipal, há lanchonetes que servem várias opções, recomendadíssimo.
Em seguida fui até o Bumbodromo, estava fechado e o vi apenas por fora. Depois fui até o curral do Garantido, que fica no bairro do São José, um bairro simples e agradável.
Na volta vim pela orla e parei num dos lugares que mais recomendo em Parintins: o restaurante/peixaria Coroa's. Localizado às margens do rio Amazonas, tem um atendimento muito bom, preços ótimos, boas refeições, uma vista maravilhosa e aceita cartão.
A vista do restaurante Coroa's:
Lá conheci algumas pessoas, amazonense adora puxar papo e para se sentir solitário em algum lugar do Amazonas é preciso muito esforço. Foi uma tarde agradável, comi um delicioso peixe, tomei cerveja e conversei bastante. Uma das pessoas que conheci não era do Amazonas e sim paulista, uma rapaz professor da PUC-SP chamado Daniel. De lá fomos ao curral do Caprichoso onde segundo ele haveria um ensaio de boi.
Quando chegamos lá, o que havia era um grupo de jovens jogando bola, entrei num time-fora e logo entrei em quadra. Senti o peso dos meus 36 anos quando tive que marcar moleques de 18,mesmo assim aguentei firme durante 5 partidas, o nosso time era bom, quando enfim perdemos, pendurei a chuteira e fui embora.
À noite fui com o Daniel em uma casa noturna de Parintins chamada Rancho do Taperebá. Era um sábado e teve apresentação de duas bandas e um DJ. O local começou a lotar por volta de 1h da madrugadas. Lugar animado e bem democrático.
Em Parintins conheci uma moça chamada Trindade, ela é irmã de uma colega de trabalho da minha mãe. Foi ela que me deu todas as dicas e ajudas para ir à Nhamundá, viagem que foi uma verdadeira imersão na Amazônia.
No domingo acordei, tomei o café da manhã no mercado e no meio da tarde peguei a lancha para Nhamundá.
Considerações gerais:
Parintins é uma cidade bem agradável, visitei a cidade fora da época do festival folclórico, então vi muita tranquilidade, ótimo para fugir de rotinas e descansar.
A cidade está bem desenvolvida, tem serviços básicos e está equipada com universidades (federal, estadual e particulares).
A hospitalidade é ímpar, assim como em todo o Amazonas, as pessoas te recebem bem e são atenciosas. Faz-se amizades rapidamente e o tratamento é como se fossem amigos há anos.
Como qualquer destino turístico do Brasil, as informações de passeio nem sempre são fáceis e as estruturas locais não colaboram. Por isso é sempre bom conhecer alguém da cidade. Quando voltei de Nhamundá, a Trindade e um amigo dela me levaram para conhecer mais a cidade, tudo só era possível de carro ou moto.
A proximidade com locais é sempre positiva, pois nos faz compreender melhor certos aspectos da cidade, que para um viajante ou turista são quase inacessíveis.
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13 janeiro 2011
Terra Nova - 3 Atos
I - O Barco de Ida - A Tempestade
Fui passar um sábado num flutuante que fica no Rio Amazonas no município de Terra Nova, interior do Amazonas. A viagem de ida foi em uma lancha rápida que sai do porto da Manaus Moderna. Horário de saída: 8:30h. Eu estava acompanhado do Tota (marido da minha mãe) e de seu amigo de longa data chamado Carlos.
O barco vai lotado, pois ele atende às comunidades ribeirinhas, então logo após o Encontro das Águas ele vai desembarcando as pessoas ao longo do caminho. Atracada à popa do barco vai uma lancha conhecida como voadeira que é utilizada para o desembarque das pessoas. Como? É o seguinte: o passageiro informa à tripulação onde deseja descer, na altura do local o barco desacelera para que esse passageiro possa entrar na voadeira, que o leva até a beira do rio.
(para quem não conhece o Encontro das Águas assista aqui: 'seja bem vindo ao encontro das águas')
Abaixo o piloto da voadeira arrumando o motor de popa em pleno temporal para não deixar ninguém na mão.
Enfretamos um forte temporal, mas isso não impede o desembarque via voadeira, pois todos precisam chegar aos seus destinos. Eu presenciei o embarque de uma senhora de aproximadamente 70 anos de idade que o fez com invejável maestria.
A viagem até o nosso destino durou aproximadamente 1h30min.
Abaixo um vídeo para melhor visualizar a embarcação e a chuva que caía no rio Amazonas.
II - O Flutuante do Jorge - Pescaria Frustrada
Chegamos tranquilamente no flutuante, que pertence a um homem chamado Jorge, amigo do Tota e do Carlos. Assim que chegamos, o Carlos preparou linha e anzol para pescarmos. Não curto muito o exercício da pescaria, mas topei porque já posso dizer que pesquei no rio Amazonas, ou melhor, quase pesquei, porque não tive sucesso e nenhum pescado amazônico foi furado com o meu anzol.
Mas o dia foi maravilhoso, ficamos no flutuante, bebendo uma cerveja gelada, ouvindo o silêncio da Amazônia e observando o rio Amazonas, com sua forte correnteza e os botos que surgiam a todo instante. O almoço foi servido pela esposa do Jorge, que preparou uma deliciosa caldeirada de surubin, o peixe havia sido pescado por eles no dia anterior.
Às 14h chegou a hora de voltar.
III - O Barco de Volta - Verduras Amazonenses
Única opção de volta para o mesmo dia é o motor Queiroz Neto II, que atraca no flutuante diariamente. Ele sai de Manaus pela manhã, desce o rio para retornar no mesmo dia no final da tarde. Saimos do flutuante às 14:10h e por um bom tempo fomos acompanhados pelos botos no início da viagem.
Esse motor tem mais de 30 anos de idade e atende as comunidades ribeirinhas levando passageiros e cargas, principalmente a produção agrícola da região.
Sem chuva forte, a viagem foi bem tranquila. Ao contrário da lancha rápida de ida, esse barco levou quase 4 horas para chegar a Manaus. Com isso pudemos apreciar o rio Amazonas e toda a paz dessa natureza que não cansa de ser imponente.
Abaixo um vídeo do nosso barco da volta:
Fui passar um sábado num flutuante que fica no Rio Amazonas no município de Terra Nova, interior do Amazonas. A viagem de ida foi em uma lancha rápida que sai do porto da Manaus Moderna. Horário de saída: 8:30h. Eu estava acompanhado do Tota (marido da minha mãe) e de seu amigo de longa data chamado Carlos.
O barco vai lotado, pois ele atende às comunidades ribeirinhas, então logo após o Encontro das Águas ele vai desembarcando as pessoas ao longo do caminho. Atracada à popa do barco vai uma lancha conhecida como voadeira que é utilizada para o desembarque das pessoas. Como? É o seguinte: o passageiro informa à tripulação onde deseja descer, na altura do local o barco desacelera para que esse passageiro possa entrar na voadeira, que o leva até a beira do rio.
(para quem não conhece o Encontro das Águas assista aqui: 'seja bem vindo ao encontro das águas')
Abaixo o piloto da voadeira arrumando o motor de popa em pleno temporal para não deixar ninguém na mão.
Enfretamos um forte temporal, mas isso não impede o desembarque via voadeira, pois todos precisam chegar aos seus destinos. Eu presenciei o embarque de uma senhora de aproximadamente 70 anos de idade que o fez com invejável maestria.
A viagem até o nosso destino durou aproximadamente 1h30min.
Abaixo um vídeo para melhor visualizar a embarcação e a chuva que caía no rio Amazonas.
II - O Flutuante do Jorge - Pescaria Frustrada
Chegamos tranquilamente no flutuante, que pertence a um homem chamado Jorge, amigo do Tota e do Carlos. Assim que chegamos, o Carlos preparou linha e anzol para pescarmos. Não curto muito o exercício da pescaria, mas topei porque já posso dizer que pesquei no rio Amazonas, ou melhor, quase pesquei, porque não tive sucesso e nenhum pescado amazônico foi furado com o meu anzol.
Mas o dia foi maravilhoso, ficamos no flutuante, bebendo uma cerveja gelada, ouvindo o silêncio da Amazônia e observando o rio Amazonas, com sua forte correnteza e os botos que surgiam a todo instante. O almoço foi servido pela esposa do Jorge, que preparou uma deliciosa caldeirada de surubin, o peixe havia sido pescado por eles no dia anterior.
Às 14h chegou a hora de voltar.
III - O Barco de Volta - Verduras Amazonenses
Única opção de volta para o mesmo dia é o motor Queiroz Neto II, que atraca no flutuante diariamente. Ele sai de Manaus pela manhã, desce o rio para retornar no mesmo dia no final da tarde. Saimos do flutuante às 14:10h e por um bom tempo fomos acompanhados pelos botos no início da viagem.
Esse motor tem mais de 30 anos de idade e atende as comunidades ribeirinhas levando passageiros e cargas, principalmente a produção agrícola da região.
Sem chuva forte, a viagem foi bem tranquila. Ao contrário da lancha rápida de ida, esse barco levou quase 4 horas para chegar a Manaus. Com isso pudemos apreciar o rio Amazonas e toda a paz dessa natureza que não cansa de ser imponente.
Abaixo um vídeo do nosso barco da volta:
11 janeiro 2011
Café coado
Madrugada de sexta pra sábado em Manaus e o caminhoneiro que conversava com a gente pegou uma garrafa de cerveja vazia e a bateu com toda a força na sua perna direita. Escutamos um estampido metálico.
Estávamos no ET Bar, uma ótima e democrática opção em Manaus nos dias que antecedem os sábados, e a ação do caminhoneiro contra a sua perna foi para mostrar o metal que foi colocado no seu osso após um acidente de moto, numa vida muito louca que ele levava antes de se aquietar e hoje exercer a profissão que o leva de Campinas à Venezuela.
Gosto de conhecer pessoas e suas histórias, talvez muita gente também curta isso, e um dos bons motivos é perceber o quanto coisas simples possuem significados expressivos e às vezes transformadores.
Pensei nisso enquanto meu irmão conversava com seus amigos da universidade, eu fiquei ao lado da minha irmã, uma amiga dela e da minha cunhada apreciando um chorinho que começou a ser tocado pelos músicos do bar. Estávamos ao ar livre, quase no meio da rua e no aglomerado de freqüentadores do ET que ocupam a via pública, esta não chega a ficar fechada, mas os carros reduzem a velocidade e passam utilizando uma ou duas das três faixas.
Em outro lugar agradável da cidade, o Palacete Provincial, um centro cultural localizado no centro da cidade e que na época da minha infância era um batalhão da polícia militar, acompanhei a conversa de uma das moças que atende no Museu da Imagem e do Som que funciona dentro do palacete.
Ela comentava sobre o seu namorado que havia comprado o absorvente errado, e parecia ter sido meio desesperador, pois o fluxo dela é muito intenso nos primeiros dias. Isso me jogou direto para o passado quando minha mãe pedia pra eu comprar absorventes e me especificava tudo nos detalhes, eu não entendia muito bem quais as diferenças, mas sabia exatamente qual a marca que ela detestava.
Um dos maiores desafios infantis foi fazer essa compra na antiga Lobrás (Lojas Brasileiras) que funcionava num prédio do centro da cidade. A loja era imensa e sempre muito lotada. Mas foi ótimo, pois superei de boa e acredito que foi um dos momentos que me fez perceber que as coisas realmente são mais simples do que parecem, basta nos posicionarmos com firmeza.
Hoje conheço muito bem o absorvente que a minha companheira utiliza e se for preciso comprá-lo de urgência farei com muito prazer, pois terá o aspecto simbólico de que a TPM do mês está chegando ao fim.
Pra encerrar, sugiro o café coado do Café do Pina, que fica dentro do Palacete Provincial. É tomando algumas xícaras que tenho desfrutado de outras histórias, baseadas também numa infância que aconteceu num rincão distante da Albânia e está no livro “Crônica de Pedra”, de Ismail Kadaré. Faltam 70 páginas e alguns cafés.
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10 janeiro 2011
O ringue e o rio
O que pode representar o apito final num jogo de futebol em que o nosso time joga mal e perde a partida?
Solidão. Esse apito existe para nos dizer que a partir desse momento estamos sós e o que vai nos restar são confusas conclusões, tristezas, dúvidas e muitas vezes identificações profundas. O resultado está definido e não podemos voltar atrás. Durante 90 minutos estivemos em intensas fissões nucleares de adrenalina e o nosso time é um perdedor, mais ainda, nós sabíamos que ele era um perdedor. Mas havia esperança, afinal o futebol é uma caixinha de surpresas, não é assim que costumam dizer?
Mas essa caixinha não deu o ar de sua graça para os personagens dos dois filmes dirigidos por Clint Eastwood aos quais assisti nesse início de 2011: “Million Dollar Baby” (Menina de Ouro) e “Mystic River” (Sobre Meninos e Lobos).
(Farei referência a esses filmes sempre em seus títulos originais, pois as traduções, novamente, não foram felizes)
Nos últimos anos tenho aproveitado o período entre o final de um ano e início de outro para cobrir algumas lacunas cinematográficas. O escolhido da vez foi Clint Eastwood com os dois títulos acima.
Eastwood fala de perdedores e ao longo dos filmes acompanhei as trajetórias dos personagens com plena consciência de que haveria poucas oportunidades de superação em seus problemas. Gostei muito dos finais de ambos os filmes, o apito final de Clint Eastwood me fez refletir sobre a necessidade ou não de esperanças.
Conhecemos os EUA como um país em que ser um perdedor (loser) significa quase que uma condenação a uma rigorosa e cruel exclusão social, a não ser que haja uma superação. E para haver uma real transformação na vida é preciso ter esperança? Em “Mystic River”, percebi o quanto uma ferida profunda na vida de uma pessoa pode realmente não ter perspectiva nenhuma de cicatrização, abrindo uma outra questão: como conviver com isso numa sociedade que impõe a celebração de vencedores e a subjugação dos vencidos?
Em Million Dollar Baby, a esperança parece ser uma motivadora da personagem principal, uma loser de 32 anos buscando a superação como lutadora de boxe. Porém quando isso se apresenta na oportunidade de conquistar não somente o título mundial, mas também um milhão de dólares, todo o fio de esperança se esvai. É mais fácil ser um vencido no ringue ou na crueza da vida?
Não acredito que Eastwood esteja pondo toda e qualquer forma de esperança na lata do lixo, acredito sim que com esses dois filmes ele nos ponha em contato direto com as pessoas comuns, que vivem com a missão de sobreviver, onde a felicidade e a real cicatrização de suas feridas mais se distanciam do que se aproximam.
Considero relevante o fato do personagem interpretado por Eastwood em “Million Dollar Baby” estancar rapidamente o sangue dos cortes feitos pelos socos dos adversários de seus lutadores, pois pra ele, uma ferida precisa se fechar para continuarmos lutando. Porém nas nossas vidas nem sempre é assim, logo percebemos e as lutas que enfretamos são cada vez mais desgastantes. Vejo um forte humanismo nessas obras de Eastwood e que o cinema nos leve sempre a refletir sobre nós mesmos para não levarmos para o fundo de um rio todas as nossas esperanças.
Solidão. Esse apito existe para nos dizer que a partir desse momento estamos sós e o que vai nos restar são confusas conclusões, tristezas, dúvidas e muitas vezes identificações profundas. O resultado está definido e não podemos voltar atrás. Durante 90 minutos estivemos em intensas fissões nucleares de adrenalina e o nosso time é um perdedor, mais ainda, nós sabíamos que ele era um perdedor. Mas havia esperança, afinal o futebol é uma caixinha de surpresas, não é assim que costumam dizer?
Mas essa caixinha não deu o ar de sua graça para os personagens dos dois filmes dirigidos por Clint Eastwood aos quais assisti nesse início de 2011: “Million Dollar Baby” (Menina de Ouro) e “Mystic River” (Sobre Meninos e Lobos).
(Farei referência a esses filmes sempre em seus títulos originais, pois as traduções, novamente, não foram felizes)
Nos últimos anos tenho aproveitado o período entre o final de um ano e início de outro para cobrir algumas lacunas cinematográficas. O escolhido da vez foi Clint Eastwood com os dois títulos acima.
Eastwood fala de perdedores e ao longo dos filmes acompanhei as trajetórias dos personagens com plena consciência de que haveria poucas oportunidades de superação em seus problemas. Gostei muito dos finais de ambos os filmes, o apito final de Clint Eastwood me fez refletir sobre a necessidade ou não de esperanças.
Conhecemos os EUA como um país em que ser um perdedor (loser) significa quase que uma condenação a uma rigorosa e cruel exclusão social, a não ser que haja uma superação. E para haver uma real transformação na vida é preciso ter esperança? Em “Mystic River”, percebi o quanto uma ferida profunda na vida de uma pessoa pode realmente não ter perspectiva nenhuma de cicatrização, abrindo uma outra questão: como conviver com isso numa sociedade que impõe a celebração de vencedores e a subjugação dos vencidos?
Em Million Dollar Baby, a esperança parece ser uma motivadora da personagem principal, uma loser de 32 anos buscando a superação como lutadora de boxe. Porém quando isso se apresenta na oportunidade de conquistar não somente o título mundial, mas também um milhão de dólares, todo o fio de esperança se esvai. É mais fácil ser um vencido no ringue ou na crueza da vida?
Não acredito que Eastwood esteja pondo toda e qualquer forma de esperança na lata do lixo, acredito sim que com esses dois filmes ele nos ponha em contato direto com as pessoas comuns, que vivem com a missão de sobreviver, onde a felicidade e a real cicatrização de suas feridas mais se distanciam do que se aproximam.
Considero relevante o fato do personagem interpretado por Eastwood em “Million Dollar Baby” estancar rapidamente o sangue dos cortes feitos pelos socos dos adversários de seus lutadores, pois pra ele, uma ferida precisa se fechar para continuarmos lutando. Porém nas nossas vidas nem sempre é assim, logo percebemos e as lutas que enfretamos são cada vez mais desgastantes. Vejo um forte humanismo nessas obras de Eastwood e que o cinema nos leve sempre a refletir sobre nós mesmos para não levarmos para o fundo de um rio todas as nossas esperanças.
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