02 maio 2012

Sim, eu vou a algum lugar

Por muito tempo considerei que o contato com o rock mais importante da minha vida foi quando peguei emprestado de um amigo uma fita cassete em que estava gravado nos lados A e B a sonzeira dos Ramones. Foi uma verdadeira revolução aos 16 anos. Eu havia encontrado uma música que ultrapassava os meus ouvidos rasgando qualquer racionalidade pra despertar a minha alma.

Hei ho let’s go!

Pois bem, na quinta-feira de aleluia do ano cristão de 2012 assisti ao filme “Raul, o Início, o Fim e o Meio”, de Walter Carvalho, e uma outra revelação se deu.

Como um autêntico membro da geração X, minha infância percorreu os anos 80. Considero como marco inicial da infância o urso no maravilhoso mosaico das olimpíadas de Moscou de 1980 e curiosamente a imagem mais marcante está no final do evento olímpico com o gigantesco urso chorando ao se despedir.

Hoje enxergo esse choro como um elemento sensivelmente simbólico, ali estava uma despedida muito maior, a década que se abria faria o mundo girar em outra direção. Tínhamos um novo papa, Thatcher e Reagan. Algo ficava para trás e eu estava começando a minha vida em cima de escombros (ver o meu texto “Escombros Manauaras”).

O punk vociferava!

Em mim, o mundo não somente girava, como também se fazia perceber e posso dizer que consumi toda a cultura dos anos 80 para crianças: Spielberg, Balão Mágico, Os Trapalhões, Roque Santeiro, Domingo no Parque, Caverna do Dragão e minha mãe usava ombreiras.

E num desses consumos, um musical da Globo protagonizado pela Aretha, filha da Vanusa “Hino Nacional Forever”, vi pela primeira vez um cara chamado Raul Seixas.

Sim, foi com Plunct Plact Zuuum Você Não Vai a Lugar Nenhum...

Era um período negro na vida do grande Raul onde o fundo de um poço lhe tocava os pés. Porém repassando esse momento no filme de Walter Carvalho pude perceber que aquele carimbador maluco atordoando uma meninada que queria voar numa espaçonave foi o primeiro cara rock'n roll com quem tive contato. Aos 8 anos de idade eu só falava dele no colégio e por muitos anos a cena ficou na minha cabeça sem perder nenhum detalhe.

Os anos passaram e nunca mais eu havia ouvido falar de Raul até o dia da sua morte que vi nos noticiários da TV. Minha mãe, que nunca foi chegada em rock, lamentava tanta homenagem, pois ela dizia que ele estava esquecido e que depois de morto resolveram reverenciá-lo, pra ela era uma injustiça com esse maluco beleza.

Passei a escutar Raul bem depois da minha iniciação com Ramones e me senti sintonizado com a sua música. Hoje essa sintonia é um tanto menos, mas é inegável que sua voz e acordes caminham pelas entranhas. Não é uma música para ficar parado, ela te move para algum lugar.

Foi com essa percepção que duas cenas do filme me fizeram refeltir mais sobre Raul. Seu canto se faria compreender em gerações futuras, distantes da sua, por mais que minha mãe considerasse isso injusto.

A primeira cena é logo no começo do filme. Raul, no início dos anos 70, cantando no Anhembi em São Paulo. No palco ele se contorce, solta a voz com vigor, explode em extase e com um batom faz um desenho no corpo. Fiquei super curioso pra saber como a plateia então estava reagindo e pra minha surpresa todos estavam sentados. Os rebeldantes anos 70 estavam apenas observando Raul.

Mais para o final do filme, quando são mostradas cenas dos últimos shows de Raul pelo Brasil afora no final dos anos 80, o que temos é um público ensandecido, pulando Raul na essência do Rock, na alma mais profunda do Rock. O grande X de uma geração se soltava para alcançar siderais mais longinquos que a nave da Aretha.

Valeu Raul, cada vez mais eu tenho certeza de que vou a algum lugar... já tenho o carimbo de sua música.

13 fevereiro 2012

O futebol nasce torto e sem tapete

O trapézio, não aquele feito para voar embaixo das lonas circenses, e sim aquele das aulas de geometria, possui dois lados congruentes e isso o difere fortemente de um retângulo, cujos lados precisam ser paralelos. Essa não congruência dos lados de um retângulo leva ao jogo de futebol a formação ideal para o seu palco, onde artistas, talentosos ou não, desenvolvem suas habilidades, boas e ruins, com a bola.

 
No segundo domingo de fevereiro de 2012, fui ao Itaú Cultural em São Paulo e me deparei com uma obra que me tocou um bocado. Na parede estavam expostas três fotos grandes que traziam o registro de três campos de futebol de várzea. A menos de um metro desses quadros se encontrava um tablado de madeira e em cima dele um arquivo, também de madeira, aberto e com as suas tradicionais subdivisórias de letras.

Fucei no arquivo e fui direto na letra ‘W’. Lá haviam alguns papéis dobrados, escolhi um a esmo e quando o abri vi que era a foto áera de um campo de futebol de várzea, trazendo no rodapé o nome do que supus ser o bairro, região ou cidade onde tal campo se encontra. Percorri as demais letras e encontrei outras visões aéreas desses redutos do futebol brasileiro.

Inicialmente, eu pegava uma foto, desdobrava e após admirar dobrava novamente e a devolvia ao arquivo de madeira. Mas fiquei tão instigado com aquelas fotos que comecei a abri-las e espalhá-las pelo tablado de madeira, montando a minha exposição de fotos de campos de futebol de várzea.

E eis que pude perceber os expressivos trapézios.

É incrível como a demarcação das quatro linhas dificilmente sugeria algum paralelismo. E logo pensei que, se ali está o nascedouro dos nossos craques, portanto é um nascimento torto e que felizmente não assassina, apesar de maltratar, o talento de alguns deles.

Porém outra questão, talvez filosófica, surgiu. Penso que os valentes jogadores desses campos acreditam que expressam seus dons futebolísticos dentro de um retângulo. A visão aérea em suas mentes é de um retângulo. O que isso significa? Não sei, é uma das viagens que tive olhando para aquelas fotos em cima do tablado de madeira.

Outra viagem foi perceber que nesses rincões do futebol amador não há tapetes. O campo não desfruta de plantações de grama, é terra e somente terra. O que me fez pensar o quanto arenoso se torna o esporte bretão, algo rústico, mas também cruel. O convívio do futebol com a sordidez de seu palco pode limitar alguns craques inspirados, mas invariavelmente nunca acabará com a alegria de um gol marcado.

A arte do futebol não precisa de linhas paralelas e nem de um bom piso, precisa de alegria e vontade.

Sejamos artistas!

02 fevereiro 2012

Ferramenta

Uma das características de um cinéfilo é ir ao cinema por causa de determinador diretor, tudo que importa é que o cara fez outro filme e agora precisa ser visto. Foi com esse espírito que me dirigi ao cinema para assistir a “Os Descendentes”, estrelado por George Clooney e dirigido por Alexander Payne.

O filme anterior desse diretor, “Sideways”, foi arrebatador pra mim, acredito que numa simples história winemovie, ele conseguiu carregar sérias questões sobre os valores que nesse início de século começam a se tornar cada vez mais cruéis. E justamente por ter absorvido na narrativa o tom da crueldade e expor uma espécie de beco sem saída no qual se tornou a miséria humana, que considerei “Sideways” um filme marcante.

Em “Os Descendentes” considero que faltou coragem em levar a cabo a miséria humana e suas profundas cicatrizes. Há no enredo um terreno fértil para encarar de frente, e sem maquiagens, o que se produz de podre nas relações afetivas e econômicas, mas o solo foi pouco explorado.

Particularmente busco contextualizar os filmes com a sua época. “Sideways” foi realizado durante um governo Bush que teimava em se sustentar como protetor do mundo e consolidava seu desprezo cruel com os seus cidadãos mais comuns. “Os Descendentes” está num governo Obama, que apesar de uma crise crônica, parece jogar com a esperança.

Justamente o que faltou a Payne foi questionar a esperança sem a mínima compaixão.

Ele até ensaia esse questionamento, no melhor momento do filme e de George Clooney, mas abandona. Esse abandono esquarteja o filme e o transforma num drama de superação num estilo “Yes, we can” (Sim, nós podemos).

Que pena.

O século avança, temos condições melhores de vida do que há 100 anos, mas os desafios aumentam e não podemos atenuá-los com a esperança; cabe salientar que não precisamos exterminar qualquer forma de esperança, e sim guardá-la como uma ferramenta, não como uma solução.

05 janeiro 2012

Barra de Maxaranguape

O meu objetivo inicial era ir a São Miguel do Gostoso, município localizado ao norte de Natal, cuja tranquilidade e belas praias são seus atrativos. Planejei passar ai uns cinco dias, incluindo o natal. O plano era viajar sozinho e dedicar os momentos para leituras e meditação.

Antes de fechar reserva em alguma pousada, escrevi ao meu amigo Henrique, que mora em Natal e que é um dos organizadores do festival Goiamum; certa vez ele me falou sobre uma casa que possuía na praia, e no email que lhe enviei perguntei onde era essa casa. Ele me respondeu que fica em Barra de Maxaranguape e que a colocaria à minha disposição.

Resolvi aceitar o convite e passei três dias em Maxaranguape. Depois continuei minha viagem indo a Pipa/RN, João Pessoa/PB, São Bento do Norte/RN e Galinhos/RN. Não visitei São Miguel do Gostoso, que ficará para uma próxima oportunidade.

Em Barra de Maxaranguape pude desfrutar de sua tranquilidade, iniciar minha leitura das “Confissões” de Santo Agostinho e tomar bons banhos de mar.

Com uma gentileza ímpar, Henrique me buscou no aeroporto de Natal, pernoitei em sua casa e na tarde seguinte ele me levou a Maxaranguape. A casa dele é espaçosa, confortável e com uma varanda de frente para o mar bem à beira da praia.

Vista da varanda da casa:





Maxaranguape é uma cidade de pescadores, pequena, modesta e tem um litoral incrível e deserto. Há pouquíssimas pousadas, todas de pequeno porte. Há um comércio variado, com supermercados, lojas de construção, roupas, variedades, farmácias e lan house.

Para comer há poucas opções à beira-mar, todas com preços bem acessíveis. Dentro da cidade, existem restaurantes que servem refeições completas de peixe, frango ou carne de sol (acompanhando arroz, feijão, macarrão e salada). Vale sempre a pena solicitar pratos com peixe, incluindo lagosta que é servida nos restaurantes da praia.

A cidade é cortada por um rio que deságua no mar e que forma um visual bem bonito. Há uma balsa que transporta carros e pessoas como ligação para a cidade vizinha de Muriú.

Local onde o rio desagua no mar:







A praia não tem agito, é pouco frequentada e não há um fluxo intenso de turistas. Boa parte da extensão da praia é deserta. O mar é um pouco agitado, mas sem problemas para o banho.



Ao norte da praia localiza-se o Cabo de São Roque, conhecido como o ponto do continente americano mais próximo da África e da Europa (não confundir com João Pessoa, que é o ponto mais oriental do continente, porém não o mais próximo da África). Uma caminhada até lá vale muito a pena, o local é cercado por uma falésia e na parte alta encontra-se um farol.

Cabo de São Roque:


Ao sul está a praia de Muriú. Com a maré baixa, é sugestivo caminhar pela praia até lá. No caminho encontram-se belíssimas praias desertas, boas para banho e meditação.

Praias a caminho de Muriú:






Outra atração que recomendo em Barra de Maxaranguape é o nascer do sol, que acontece por volta das 5h da matina. É possível ver o sol surgir no horizonte do mar.




Maxaranguape é ideal para descansar, fazer boas caminhadas, curtir um banho de mar e conviver com a população local.

Como chegar:

Não há ônibus para Maxaranguape. O transporte é feito por táxi-lotação que serve tanto a Natal quanto às cidades vizinhas. É um transporte organizado com associação e serviço eficiente. A única questão é que geralmente é necessário esperar que a lotação atinja três pessoas, às vezes até sai com duas e vai pegando pessoas pelo caminho. O valor Natal-Maxaranguape sai em torno de R$8,00. Caso deseje-se que o táxi leve a algum destino da cidade mais distante como a rodoviária ou Ponta Negra, o valor pode chegar a R$15,00.

Para ir de carro, o percurso é pela BR 101, há placas indicando a entrada.

É possível chegar também pela praia com buggy ou carro com tração 4x4.




02 janeiro 2012

Velocidade

Ela corria como ninguém. Ela era imbatível com os seus vinte e sete anos. Além do treino constante, suas pernas eram movidas por paixão. A velocidade nos seus passos representava uma conquista diária. Não podia haver limites, uma superação deveria vir após a outra.

Até que um dia seus olhos acordaram vendados, era um tecido macio e com um perfume agradável. Logo em seguida percebeu que suas pernas estavam amarradas à cama. Sentou e tentou desatar o nó da venda, não conseguiu. Reuniu todas as forças de suas mãos e não obteve nenhum sucesso. O mundo estava às escuras.

Suas pernas também.

Gritou o grito mais doloroso de sua vida. Gritou por ajuda e por desespero. Nenhuma resposta. Lágrimas e um choro de dor tomaram conta de seu rosto e umedeceu o pano perfumado.

Deitou novamente e fechou os olhos. Percebeu que o mundo era o mesmo. Escuridão e medo.

Quis adormecer e não conseguiu. Pensou que talvez um sonho pudesse lhe consolar. Lembrou de um sonho que teve há dois anos, em que a lua cheia iluminava várias pessoas correndo, mas aos poucos elas iam desaparecendo, restando-lhe uma amiga e um homem que ela jamais havia visto. Quando o homem parou de correr tudo se iluminou e um branco tomou conta de seus olhos. Desde então acreditou que aquele homem pudesse existir de verdade e que talvez fosse bom encontrá-lo.

Muitas horas se passaram e as forças se esgotaram por completo tentando arrancar a venda nos olhos e as amarras de suas pernas. Ela nunca havia esperado tanto sem poder agir. Buscou algo que distraísse seus pensamentos. Encontrava apenas uma confusão de ideias.

Inquieta, gritou novamente. Sentiu a mão de uma menina soltando suas pernas. Ela levantou rapidamente, tentou arrancar a venda dos olhos e não conseguiu. Tateando pelas paredes e móveis de sua casa, abriu a porta e correu mundo afora.

27 dezembro 2011

Há quase 11 anos

Pela quarta vez na vida deixei Pipa/RN. É sempre uma sensação de nostalgia que bate a medida que me afasto desse lugar, mas por outro lado considero um simples 'até breve'. Pipa é espiritualmente forte pra mim.

Saí da cidade com destino a João Pessoa/PB e a viagem começou numa van que me levou até a cidade de Goianinha, de onde eu pegaria um transporte para a capital paraibana.

Quando entrei na van eu era o único passageiro, porém alguns metros a frente entrou um casal de gringos, cujo idioma era indecifrável, mas com certeza era algo de origem germânica, nórdica ou escandinava. Eles estavam indo a Tibau do Sul para praticar kite surf.

Assim que eles entraram, o cobrador, num português escandinavamente incompreensível, explicou-lhes que eles subiram fora da parada permitida, o que poderia gerar multa. O atencioso cobrador até mostrou o fiscal parado na calçada. A mulher entendia português e falava 'um poquinho', como ela mesma me disse depois, mas não sei se compreendeu a lição do cobrador, porém mesmo assim explicou ao companheiro, em seu idioma nativo, e apontou com o dedo para uma placa de parada obrigatória.

Já na saída da cidade, o cobrador mostrou um campo de futebol aos gringos, falou algumas palavras, não sei em qual português, e no meio citou o nome Ronaldinho, o casal pensou que o craque havia jogado naquele campo, mas o cobrador disse que não, que o camisa 10 o Flamengo só pensa em dinheiro e jogava bem longe dali, no Rio de Janeiro. O gringos balançaram a cabeça.

A terceira intervenção veio para dizer aos gringos que eles poderiam usar a prancha do kite para surfar nas dunas. O casal não entendeu nada, tentei ajudar, mas demorei para compreender a palavra 'areia'. Após os gestos efusivos do cobrador, os gringos falaram: "sand board!, oh yes".

Depois que o casal desceu, subiu mais a frente um grupo de senhoras e duas delas se sentaram ao meu lado. Uma delas começou a reclamar do sobrinho que havia começado a tomar cerveja à 8h da manhã, e que desde a última sexta não parava de beber (estávamos numa terça).

Daí em diante, ela e a amiga começaram a criticar o consumo desenfreado de álcool. Criticaram também as pessoas que só gostam de farras, pois só se lembram de Deus quando estão enfermos numa cama e quando têm saúde não frequentam nenhuma missa.

Uma delas até comentou que gosta de uma caipirinha, mas em ocasiões especiais, enquanto que a outra informou sobre o seu próprio limite: "até dois copinhos de cerveja ainda vai..."

Por outro lado, a comilança está liberada. Ambas comentaram sobre a fartura de comida que consumiram nas festas de natal e o quanto são bons esses momentos para degustar tudo que é servido na mesa. Falaram de carnes, churrasco, leitão, etc, etc, etc

Desceram da van falando de comida.

A próxima passageira que sentou ao meu lado foi uma senhora acompanhada da neta adolescente. Elas estavam vindo da missa de quatro anos de falecimento de um amigo da avó.

O cobrador simpático e com olhos doces pra cima da jovem voltou a entrar em ação, perguntou à senhora se a garota era filha ou neta. A resposta foi bem poética: "ela é filha e neta". Curioso, o cobrador emendou outra pergunta para saber se a mãe ou o pai da garota era filho da senhora, esta respondeu: "o pai dela era meu filho".

O 'era' me chamou a atenção, olhei para a menina de corpo bem franzino e percebi seus olhos distantes, ela parecia alheia a toda aquela conversa. A avó elogiou a neta, que é bem calma, não gosta de sair e provavelmente vai puxar tanto o pai quanto à mãe, ambos eram caseiros e nunca estavam em farras.

Com uma voz triste, a senhora comentou que mesmo assim o filho foi embora cedo. O cobrador perguntou se foi acidente, a velha responde: "sim, acidente de trabalho, vai fazer 11 anos em fevereiro, essa menina tinha 4 anos na época". Nesse momento ela abaixa a cabeça e fica mexendo com os dedos na bolsinha de pano em sua mão.

Silêncio até Goianinha.

23 dezembro 2011

África logo ali


Meus olhos estavam semiabertos, minha mente relaxada e acordando. De repente ouvi algo como o choro de um cachorro, mas era tão baixinho que não sei se o meu estado 'saindo da sonolência' estava criando coisas na minha cabeça.

Resolvi levantar e na janela bem acima da cama eu enxerguei a cabeça de um cachorro que, com todo o esforço do mundo, estava tentando entrar na casa, ensaiei empurrá-lo pra fora, mas ele foi mais rápido e adentrou.

O cão, um vira-lata de pelos pretos arrepiados e com coleira, circulou pela casa um tanto perdido, depois parou e ficou me olhando. Tenho plena certeza que ambos estavámos confusos.

No relógio: 5:30 da manhã.

Já um pouco mais consciente da minha existência no mundo, abri a porta de frente da casa e o simpático cão despertador saiu correndo e tomou o rumo da praia. Em seguida fiquei congelado com o que vi.

Novamente falei pra mim mesmo que não havia nada de onírico naquilo tudo e que era a pura realidade diante dos meus olhos.

Presenciei, ou melhor, experimentei um nascer do sol inesquecível. Os raios solares estavam exatamente na linha do horizonte do mar e a forte luz amarela se impôs como um rei.

Foi assim que fui recebido na minha primeira manhã em Barra de Maxaranguape (RN).

***

No final da tarde caminhei pela praia até o Cabo de São Roque, conhecido como o ponto do continente americano mais próximo da África e da Europa. O local é cercado por uma bonita falésia e segui com passos lentos, parando para admirar a paisagem e molhando os pés no mar.

O lugar estava totalmente deserto.

Num determinado momento, eu avisto, um pouco mais ao longe, uma espécie de caixa boiando no mar junto à praia, pensei que pudesse ser uma caixa de isopor, mas logo percebi que não era. Parecia de metal e era na cor branca. Parei e fiquei observando.

Depois de um tempo, a misteriosa caixa encalhou na areia.

Daí em diante a imaginação percorreu diversos lugares, o mais mórbido talvez tenha sido pensar que era um pedaço da fuselagem do avião da Air France que caiu no Atlântico no ano passado; e o mais lunático foi desconfiar de ser algum tipo de lixo espacial.

Apesar do receio de encontrar algo como o Césio 136, resolvi me aproximar para ver o que era. Fui em passos lentos.

Alguns metros antes da caixa percebo um outro pedaço de metal branco estirado na areia. “Caraca, é a porta do avião”, pensei de forma besta. Besta porque logo vi que era a porta de uma geladeira. Sim, a caixa misteriosa não era nada além de uma geladeira.

Fiz o caminho de volta com outros parâmetros na imaginação: se a geladeira havia sido atirada do alto da falésia ou se aquele foi o destino desse pobre eletrodoméstico após meses em alto mar.

***


Não tenho foto nem vídeo do cachorro e da geladeira, mas compartilho com vocês o nascer do sol e o local onde me aproximei dos companheiros africanos.

Amanhecer:




Cabo de São Roque:

12 dezembro 2011

A dor dos meus calos

- Para onde você está indo? - Perguntou a mulher de unhas vermelhas ao padre numa pequena rua de asfalto gasto.
O religioso respondeu que estava a caminho do fim.

A mulher resolveu seguir o padre, que não se opôs, apenas acelerou os passos, talvez numa atitude de desafio.
A tarde findava e para as casas os trabalhadores retornavam, a rua com seu asfalto sofrível parecia se tornar cada vez mais áspera. As sombrancelhas mal feitas da mulher estavam úmidas de suor e os seus olhos abaixo apenas acompanhavam a cadência do padre.

Com a noite tudo escureceu e a mulher perdeu o padre de vista.
Roendo as unhas, a mulher pensou em voltar, mas a curiosidade sobre o verdadeiro fim lhe consumiu a alma e ela também se perdeu na escuridão.

Quando os calos de seus pés começaram a descascar a pele e redondas feridas lhe apareciam, a mulher encontrou uma família velando um corpo na porta de casa. Quis se aproximar mas ficou com medo de encontrar o padre já defunto. 

Descobriu que nesse momento sua fé já não existia mais. O choro das pessoas em torno do moribundo lhe angustiava, queria liberdade. Era o desespero de sua consciência. Ela saiu ao encontro do fim e o fim lhe apareceu antes do esperado.

Como acreditar nos nossos medos? Foi a última pergunta que ela mesmo se fez.

02 dezembro 2011

Cidadania - um amadurecimento necessário


Outro dia entrei no ônibus e à minha frente estava um rapaz que aparentava entre 16 e 18 anos de idade. Quando ele chegou na catraca, perguntou ao cobrador se o coletivo passaria no estádio, e com a resposta afirmativa o tal rapaz encostou no leitor do bilhete único uma pequena bolsinha de pano e zíper, em seguida pediu ao cobrador que liberasse a catraca.

Para quem não conhece o sistema de bilhete único em São Paulo, quando é um bilhete normal basta encostá-lo no leitor que a catraca libera automaticamente, desde que o bilhete possua créditos, obviamente; quando o bilhete é especial, geralmente como benefício para idosos ou pessoas com necessidades especiais, o beneficiário do bilhete precisa encostá-lo no leitor e esperar que o cobrador libere a catraca.

Pois bem, o cobrador solicitou ao menino que mostrasse o bilhete que estava dentro da bolsinha, e lá estava a foto de uma senhora no cartão. O cobrador perguntou quem era a mulher dona do bilhete, o rapaz respondeu que era sua tia. Prontamente o cobrador disse que não ia liberar e alertou de que se fosse outro funcionário teria confiscado o bilhete e a tia dele perderia o benefício.

O rapaz infrator continuou parado na catraca dizendo que estava indo encontrar a sua tia para entregar o bilhete. O cobrador perguntou se o rapaz não possuía dinheiro para pagar a passagem e, como era de se esperar, teve um não como resposta.

Eu já estava enfurecido e torcendo para que o cobrador mantivesse a rigidez, mas que nada, foi conivente e liberou a catraca para o rapaz apenas alertando para ele não fazer mais isso.

É justamente essa conivência que me deixa triste pois reflete nossa fraca cidadania. Comentei com o cobrador que aquilo era um ato de corrupção e que é muito fácil apenas jogar a culpa pra cima dos políticos. Confesso minha covardia em não ter reclamado e buscado evitar que o rapaz passasse pela catraca, porém nunca sabemos com quem estamos lidando e a violência é tão presente quanto pequenos gestos de corrupção.

Precisamos cada vez mais de uma ampla conscientização sobre o valor de um bem público. Quem pagou aquela passagem para ele ir ao estádio, muito provavelmente para comprar o ingresso de um jogo de futebol, foram os cofres públicos, e isso não pode ser admitido, e principalmente por quem deveria zelar por eles, como é o caso do cobrador de ônibus.

Mas enfim, é lamentável que cada um queira apenas saber do seu quadrado e da sua vantagem pessoal. Espero que com o tempo possamos compreender melhor o que significa corrupção e como ela tem sido o câncer mais nefasto que atinge nosso país.

01 dezembro 2011

Aliança


As suas mãos entram na terra escura como um carinho afável, mas também com a vontade típica de ardentes amantes que se tocam. É preciso recuperar aquela parte do jardim, o jardim que é somente seu e cuja beleza relaxa os olhos como um sonho.

Ela não consegue encontrar na memória o momento exato em que se apaixonou por aquele jardim, ele é uma extensão de sua existência. A manutenção do jardim lhe traz uma harmonia consigo mesma.

25 anos de idade ela possui com muitos desejos e expectativas na vida. A fúria de um conjunto de dúvidas lhe estremece o discernimento, e longe do jardim ela sente a loucura chegando aos poucos. Mas a terra do jardim está ali, e tocá-la ou fazer nela florescer mais um ramo, lhe devolve a razão, uma razão tranquila.

Os tormentos de sua mente se configuram por conta de fantasmas que plantam sementes de angústia e incertezas. Ela tem certeza de que provém de fantasmas, pois somente esses seres são capazes de nos assustar.

E o seu maior susto foi quando sentiu que o futuro parecia ruir bem na frente dos seus olhos.

A partir daí a força do jardim lhe deu forças. Numa manhã de muito calor ela deitou no meio do seu próprio jardim e descobriu que assim os fantasmas não se aproximariam.

Hoje o jardim parece cansado.

Ela consegue recuperar a parte danificada, porém do outro lado algumas flores não desabrocharam. Ela sente uma tristeza.

O suor do seu corpo não irá secar tão cedo.

17 novembro 2011

Novembros PJ

Rodrigo Araújo me abordou no final do show do Radiohead em 2008 e perguntou se eu achava que havia faltado alguma música no setlist da banda inglesa, de cara citei duas canções de minha preferência. Rodrigo balançou a cabeça e me disse algo assim: "Não faltou nada, o show foi perfeito!".

Claro que eu concordei com ele, o show havia sido espetacular e exigir mais seria um preciosismo sem tamanho.

É sempre muito louco e nonsense esperar que uma banda toque o setlist mais perfeito conforme a preferência de cada fã. Mas enfim, o Pearl Jam possui duas músicas que estimo em demasia, "Dissident" e "Leash", não por acaso pertencem ao meu álbum preferido "Vs".

Quando eles estiveram no Brasil em novembro de 2005, "Dissident" foi tocada em Curitiba e no Rio. Entre as duas cidades aconteceram os dois shows aos quais eu fui em São Paulo e onde eles não executaram essa música. Uma pena, mas nada a reclamar, foram shows inesquecíveis.

Para quem não sabe, o Pearl Jam nunca repete seus setlists, eles decidem o que vão tocar no mesmo dia da apresentação.

Eles voltaram ao Brasil em uma nova turnê em novembro de 2011 e lá fui novamente assistir a mais dois concertos da banda e obviamente esperei "Dissident". Não tocaram.

Cinco dias depois, no show que eles fizeram em Curitiba, essa música entrou no setlist. O mais curioso é que foi no dia do meu aniversário. Pois é, eles entregaram o presente no lugar errado...

Mas é isso aí, até agora estive em quatro shows dessa banda e contei essa história de "Dissident" apenas como um pequeno desabafo, pois os caras ao vivo são muito bons, não importa o setlist.


Para conhecer Dissident e ao vivo: clique aqui.

Para conhecer mais sobre o Pearl Jam clique aqui no site dos caras

Para conhecer todas as setlists do Pearl Jam: também no site dos caras.

Um grito que vem do rio

A releitura é uma interessante ferramenta para novas descobertas. De todo modo, também há o fator de amadurecimento pessoal, um dia nunca é igual ao dia anterior, mudamos constantemente. Foi refletindo o quanto eu havia mudado ou não, que cheguei ao final da releitura de "A Queda", de Albert Camus.

Uma das questões que me tocou foi o aspecto de julgamento, como a relação entre as pessoas pode agir como um tribunal do júri. A necessidade de superioridade em relação ao outro é algo que se estabelece quase como um poço de crocodilos.

Mas há uma fuga perante a crueldade da natureza humana? Quais mecanismos o homem encontra para se estabelecer nesse amálgama de sujeira e podridão? As vias são sinuosas e cada curva espera unicamente a miséria de cada um, não há morte, há humilhação.

Outro pensamento após essa releitura foi perceber que às vezes sinto uma atmosfera que exige nossas permanências, como se precisássemos encontrar sempre uma individualidade única e imutável. Somos compostos por nuances que em geral são conflitantes entre si e precisamos conhecer de perto esses conflitos, o autoconhecimento é gradual e as expectativas são cruéis.

Como medir a nossa própria percepção das coisas?

06 outubro 2011

Os Brincos Que Não Apertam

Os brincos não brilhavam, ela os tirou cuidadosamente de suas orelhas e os entregou a ele.

Ela se virou e caminhou até a porta, parou e tudo que ele esperou foi o retorno dela.

Ela e ele costumavam caminhar por horas entre as árvores de um pequeno parque próximo à casa em que moravam.

Foi ali que ele tocou o rosto dela pela última vez, sem dizer uma só palavra.

Os brincos ficaram guardados por um bom tempo.

20 setembro 2011

Uma manhã antes do clássico

Era uma quarta-feira de setembro e no domingo ia ter clássico. Flamengo x Botafogo. Logo me deu aquela vontade impulsiva de ver de perto o jogo. Seria minha primeira vez no Engenhão e a possibilidade de curtir um domingo no Rio.

Primeiro problema: ingresso. Como comprar uma entrada para o jogo a partir de São Paulo? Entrei no site oficial de vendas, mas só é aceito cartão de crédito com a bandeira VISA, eu tenho Mastercard. Eu estava realmente frustrado até que minha companheira de trabalho Cris disse que talvez uma amiga carioca poderia comprar. Acertamos tudo por fone e facebook e o primeiro obstáculo estava vencido.

Segunda questão: como chegar ao Engenhão? Eu sabia que devia ir de trem, mas desejava mais detalhes, condições, etc. Liguei para minha mãe em Manaus, que já havia ido duas vezes ao Engenhão, tudo que ela me falou foi pra não me preocupar, era só seguir o fluxo de torcedores com as camisas do Flamengo e do Botafogo. Bem, seguindo conselho da mãe, não me preocupei mais.


Comprei as passagens de ônibus, saí de São Paulo no sábado à noite, amanheci no Rio, fui caminhar em Ipanema e parei num quiosque no Leblon para tomar água de coco e descansar a mente. No final da manhã fui até a Tijuca pegar meu ingresso e depois voltei para o Largo do Machado onde desejava tomar uma cerveja num botequim antes de ir ao jogo.


Lembrei que eu havia visto esse botequim em uma das viagens ao Rio e ele me chamou a atenção por sua autenticidade, prédio antigo, numa rua sem badalação e um balcão já em idade avançada. O local fica na rua Gago Coutinho 51, não sei o nome, no toldo da fachada está escrito apenas 'restaurante', talvez porque nos fundos do bar funciona um charmoso restaurante.


Lá chegando, no bar havia dois vascaínos, um flamenguista e outros, a TV  estava ligada no canal SportTV e parei no balcão, pedi uma cerveja e um bolinho de bacalhau.


Recomendadíssimo o bolinho de bacalhau desse lugar.


Depois chegou mais um flamenguista e o vascaíno que estava ao meu lado no balcão foi embora, quando a esposa passou de carro para pegá-lo. No bar os assuntos eram diversos como as farras do Adriano e do Romário, fiquei apenas escutando, concordando e curtindo a descontração do lugar.


Tomei outra cerveja e comi mais um bolinho de bacalhau.

Às 13h paguei a conta e rumei ao Engenhão. Desci do metrô, entrei na estação Central do Brasil, segui o fluxo conforme minha genitora havia informado, sentei no vagão e logo em seguida comprei de um ambulante um latão de cerveja para degustar durante a viagem.


Foi um domingo bem agradável.

11 setembro 2011

Um homem de muletas e a pastelaria

Quando cheguei em Curitiba para acompanhar a itinerância do Festival de Curtas para o qual trabalho, peguei um ônibus no aeroporto e desci em frente à Biblioteca Municipal, onde iria esperar pela Denize, que produziu e coordenou essa itinerância. Quando lá desembarquei do coletivo, ela não havia ainda chegado, andei uns poucos metros e dei de cara com uma pastelaria, entrei e pedi um pastel de queijo. O estabelecimento estava lotado, eram por volta das 13h e não havia lugar para sentar. Peguei meu pastel e fui degustá-lo na calçada, o que me facilitaria também esperar pela Denize.

Após umas duas mordidas, um homem de meia idade e de muletas se aproximou de mim, apesar de estar mal vestido logo percebi que não se tratava de um mendigo. Logo ele puxou conversa comentando como estava lotada a pastelaria, respondi alguma coisa e ele começou a falar da bondade e generosidade do dono, o que era uma das chaves de seu sucesso.

A história do homem de muletas era um pouco confusa, mas pelo que pude apreender, um dia ele teve um bom emprego, gozava de uma boa situação financeira e era cliente assíduo da pastelaria. Mas a sua vida sofreu uma reviravolta, ele perdeu tudo que tinha e chegou a morar na rua, e numa dessas situações precárias o dono da pastelaria lhe encontrou e disse que ele poderia ir até o seu estabelecimento que o tratamento seria igual, pois ele considerava que pelo fato dele ter sido um bom cliente, isso o ajudou a crescer e que nada mais justo que retribuir principalmente naquela situação em que o homem de muletas se encontrava.

Considerei muito humano aquele homem compartilhar comigo essa história, e esse exemplo de generosidade me chamou bastante a atenção. Gosto de Curitiba, é uma cidade bem agradável, tenho bons amigos curitibanos e inclusive já namorei uma curitibana, porém nas três vezes anteriores que visitei a cidade, eu senti uma hostilidade peculiar, como se qualquer aproximação fosse impossível. Dessa vez, essa abordagem inesperada logo na minha chegada e falando de ações generosas me tocou, e nos dois dias que passei na cidade, senti tudo mais aberto e uma receptividade que não havia ainda experimentado em Curitiba.

Costumo dizer que as coisas se facilitam quando se entra de coração aberto, e talvez esses quase 8 anos sem ir à Curitiba me amadureceram mais do que as transformações que a cidade possa ter sofrido. Sei lá, poder ser uma viagem da minha parte, mas quis compartilhar esse sentimento.

09 setembro 2011

Nossos últimos dias

Ela estava em frente ao portão de madeira, havia tocado a campainha por três vezes e nenhuma resposta. Apenas o forte latido de um cão do outro lado do portão.

Ela lembrou que não tem medo de cachorro, mas aquele latido parecia tormentar muito a sua cabeça. Era uma nítida comprovação de sua ansiedade.

Pela quarta vez ela tocou a campainha, e após um tempo ela escutou passos vindo em direção ao portão. O cachorro não parava de latir.

Antes da chave abrir o portão, ela lembrou dos nossos últimos dias.

A lembrança carrega intensidade, algo mais pulsante que a mera sensação de um momento. Mas será que ela existe para ativar o que se define como saudade? Ela rememorou tudo e quis sorrir, procurou fugir de qualquer metafísica que poderia tirar a boa simplicidade daqueles dias, desejou apenas lembrar para não esquecer.

O portão abriu e o cachorro parou de latir.

07 setembro 2011

Jardim

Renata casou com Fernando e agora esperava por seu primeiro filho, se nada de inesperado acontecesse, daqui a 3 meses ela o teria em seus braços. Mas sempre tem uma amiga que lança alguma coisa nos pensamentos e daí em diante coisas irreais podem parecer muito reais.

Joana estava com quase 40 anos e três filhos em um único casamento, se considerava apaixonada pelo seu marido, mas disse a Fernanda que estava desconfiada de alguma coisa pois encontrou pequenas manchas de sangue em suas camisas. Ao perguntar para o esposo o que aquilo significava ele disse que havia se cortado com papel, afinal ele é dono de uma gráfica. Joana não iria sossegar até descobrir a verdade.

Dias se passaram até que Fernando, marido de Renata, começou a ter fortes ataques de tosse. Quando começava ele sempre corria para o banheiro. Num desses ataques, Renata entrou no banheiro logo depois que ele saiu e encontrou gotas de sangue na pia. Assustada, ela correu até o marido e perguntou sobre o que acabara de ver, ele disse que não estava expelindo sangue nenhum, ela o levou até a pia e mostrou a ele. Fernando a segurou pelos braços, deu-lhe um beijo na boca e disse: "Você precisa descansar!". Não havia sangue.

A tosse de Fernando foi piorando, o diagnóstico do médico apontou uma virose e que logo ia sarar. Renata ficou temerosa de que algo pior estivesse acontecendo com o seu marido, longas discussões aconteciam e mais gotas de sangue ela via não somente na pia, mas também nas roupas dele. Renata estava entrando em parafuso.

Num domingo de sol, Renata se levantou da cama e encontrou o marido preparando a mesa do café. Ele disse a ela: "A tosse passou." Ela sorriu e eles se beijaram.

Durante o café Fernando limpou sua boca com um guardanapo de papel. Os olhos de Renata se arregalaram. Havia manchas de sangue no guardanapo. Renata desmaiou.

Tudo seguiu em frente, veio o bebê, tiveram mais filhos e nunca mais conversaram sobre a tosse de Fernando, que antes dos 50 sofreria com duas pneumonias em tempos de inverno.

21 agosto 2011

Carregar

O telefone tocou.
Com os pés descalços ela corre pelo apartamento e atende. Era a confirmação de um encontro com velhos amigos e amigas.

Ela desce e vai até a esquina, onde seu namorado lhe pegaria com a moto dele.

A espera começa a ficar longa. Seu celular está descarregado.

Um índio se aproxima. Ele está com a cara pintada e se dirige a ela numa língua que ela não compreende. Sem saber muito o que fazer, ela aponta para uma padaria do outro lado da rua. O índio fica imóvel.

Muito assustada, ela corre em direção à padaria, entra no estabelecimento e pede uma coca-cola. De repente ela tem um ataque de riso e vai embora, passa pelo índio e volta pra casa.

Com o celular carregando, ela dá uma bronca em seu namorado. Ele está preso numa manifestação contra a construção de uma hidroelétrica próxima de uma área indígena.

Alucinação, foi a palavra que ela escreveu no bloco de notas na porta da geladeira, e depois correu pelas ruas de sua cidade com um cocar na cabeça.

13 agosto 2011

Silêncio e memória

Ele era um homem muito vaidoso e aquela viagem poderia lhe impor certas coisas para as quais ele não estava preparado. O ônibus seguia em frente na estrada, não havia como voltar.

Pelas calçadas da pequena cidade, o homem buscava em sua lembrança momentos que ali viveu e que lhe trouxessem alguma felicidade. Não havia nada.

A casa de sua irmã era modesta, foi alojado no quarto dos seus sobrinhos que por sua vez foram transferidos para a sala. Naquela primeira noite ele dormiu muito bem.

Uma velha senhora chamada Sonia desejava ver aquele homem, que por muito tempo viveu naquela cidade e hoje estava ali como um estrangeiro. Sonia vivia uma decadência particular, ela não possuía mais poder, seu marido estava morto junto com todo o respeito que os moradores daquele lugar poderiam lhe dar. O homem foi visitá-la.

Na cozinha, enquanto eles degustavam um pão de milho com café, o silêncio era o verdadeiro companheiro daquele encontro, não trocaram nenhuma palavra. Sonia parecia necessitar apenas da companhia daquele homem, que de algum modo compreendia aquela situação.

Ao longo dos cinco dias que ali passou, o homem percebeu que as suas memórias da cidade, vazias e sem felicidades, eram o reflexo da opressão do silêncio de seus habitantes. Decidiu que na sua última noite encontraria um sentido para o regisro de uma lembrança feliz.

Ele foi a uma festa, conheceu uma mulher, se beijaram e caminharam pelos arredores da cidade até amanhecer.

Anos depois, essa mulher se casou e havia esquecido daquela noite. Até que um dia seu marido chegou com o nariz sangrando e não quis lhe contar o motivo, ela sentia que ele nutria um sentimento de vergonha. Foi então que ela sentiu uma felicidade por dentro ao perceber que seus pensamentos haviam resgatado a noite da festa, quando ela havia exposto todos os seus segredos e vontades, que apesar de ter sido a um estranho, foi um dos momentos mais libertadores de sua vida e que a sua memória esfumaçou sob a névoa de silêncio da sua cidade.