09 julho 2015

Carta ao companheiro Diogo

(resposta ao companheiro Diogo Leite que havia enviado, via mensagem privada do Facebook, sua preocupação com as arquitetações de golpe à presidenta Dilma que foram divulgadas, ele via "um espectro negativo")

Salve salve Diogo,

Tudo certo por aqui, desculpe a demora na resposta, mas é que a conversa é longa rs rs rs.

Primeiro, não estou na Kinoforum, iniciei o mestrado na Unicamp no ano passado e infelizmente ficaria pesado conciliar, tá meio apertado de grana, mas tô focado aí pra seguir na academia, vamos ver.

Bem, no fundo considero que são apenas estratégias para desestabilizar a imagem e a confiança na Dilma, isso está sendo feito metodicamente desde o Lula, com a Dilma nesse segundo mandato virou uma coisa pro-forma rs rs.

Tenho três considerações sobre essa questão de golpe:

1.
Pesquisando sobre os três últimos golpes na latinoamerica (Venezuela, Nicarágua e Paraguai),  eles tinham uma coisa em comum com o que querem fazer aqui, que é a utilização do legislativo e judiciário para incriminar o governante.

Porém, duas coisas não possuem em comum com o nosso cenário brasileiro:

a)Em nenhum deles o golpe foi anunciado tipo como está sendo feito aqui de formar canhestra, repito, o que acontece aqui é só pra desestabilizar, desde a posse da Dilma.

b)Nos três casos acima eles tiveram apoio de setores econômicos estrangeiros. Aqui é diferente, esses setores estão do nosso lado (sim, temos um governo capitalista! por mais que a oposição queira fazer desse país um rincão comunista e bolivariano). Faz menos de uma semana que a Dilma foi recebida com honras na Google, sem contar o discurso do Obama e a resposta dele pra jornalista da Globo.

2.
Esqueçamos os militares, eles também não possuem apoio externo. Se fizerem algo pra abalar a democracia, não duvido que os EUA interviriam para tirá-los. Sem contar que as declarações dos militares é que isso não está nem um pouco na pauta deles.
Os governos Lula e Dilma valorizaram bem as Forças Armadas, boa parte de obras do PAC são feitas pelos militares, que devem receber uma bolada com isso. Ao contrário do FHC: é que ninguém lembra da insatisfação dos militares naquele governo, que vinha com a postura neoliberal de estado mínimo e sobrou até para os militares, que tiveram seus orçamentos bem reduzidos. Isso tá na História.

3.
PMDB. Os caras estão sendo escorraçados do governo (não era o que todo mundo queria?) Mas é claro, mais do que óbvio, que isso não seria em calmaria. O PMDB está se deteriorando por dentro. Cunha, Temer e Calheiros são três coisas MUITO distintas. O Sarney, que dava uma certa unidade e tinha uma proximidade com o governo muito em função do Lula, aposentou e não quer saber de mais nada, ainda defende a aliança, mas tá virando as costas.
Os caras estão surtando porque o poder deles tá diminuindo.


E qual o preço político para nós?
Aproximação com o PSD, que a Dilma está toda entusiasmada com isso. Não duvido se o Kassab for vice em 2018 na chapa do PT, ou assumir tipo Ministro da Casa Civil.
O PSD tem mais prefeituras que o PMDB. E no ano que vem, nas eleições municipais, eles irão se impor e aí vamos ver.
A Dilma hoje está buscando essa aproximação, pois quer se afastar do PMDB.

Daí que eu falo, a mulher está fazendo três coisas maravilhosas, só que por baixo das cobertas e de forma democrática e constitucional. Ela bate de frente, cozinhando por dentro, revidando a tortura que ela passou, vejamos:

1)PMDB.
É tudo que eu falei acima. Cara, ela está botando fogo na lenha do PMDB,mais abaixo falarei do Cunha.

2)PT Paulista
O PT paulista sempre ditou as regras, agora ela tá mandando todo mundo se fuder, literalmente. O Lula ficou no meio da briga. O PT paulista está insatisfeito, mas foram essas lideranças responsáveis pelo que aconteceu com o partido. E tem mais, em vinte anos não conseguiram derrubar o PSDB, então que moral se tem aqui?
Apenas pra lembrar que o PT na Bahia rompeu com o Carlismo!

3)Combate à corrupção
Cara, o presidente da Odebrecht está preso, isso era para comemorarmos. Essa e outras empreiteiras mamaram sempre, e agora tão na roda.
É muita ingenuidade achar que essas empreiteiras enriqueceram no governo Dilma, vem de longa data a safadeza dessa turma. Agora imagina na época do FHC, com Antonio Carlos Magalhães e Marcos Maciel (filhotes da ditadura) fazendo "articulação" política. Lembro da Andrade Gutierrez nos anos 90 ganhando rios de dinheiro.
Hoje corrupção é um assunto público, é um assunto na pauta, e isso se deve aos mecanismos criados pelo governo federal. DOA A QUEM DOER. E a Dilma intensificou mais isso. A primeira coisa que ela fez em 2011 (em 3 meses de governo) foi demitir da Petrobras esses hoje delatores.

Se essa mulher não entrar pra História, será uma das maiores injustiças já cometidas.


Muita gente reclama que a Dilma e o governo não se manifestam, vejo muitas pessoas cobrando mais pronunciamentos públicos.

Vamos analisar melhor:
Eu considero esse "silêncio" como o que chamamos na política de silêncio estratégico.
Pode ser estranho, mas é necessário.
As merdas do Cunha possuem mais exposição, isso desgasta somente a ele, veja como as pautas da câmara conseguem mobilizar os debates públicos. O Cunha achava que era fácil, mas não é.
E outra, a Dilma não pode "contrariar" as urnas, quer queira quer não, o congresso foi eleito democraticamente.

Doa a quem doer.

E isso é uma coisa que a oposição, muito mais exposta, se desgasta, veja a palhaçada da viagem dos senadores à Venezuela.

Lembremos também que quando a Dilma se expõe, é vaia, é panelaço, por mais que sejam de minorias, mas vai pra mídia como "a voz do povo".
A mídia lança pesquisa de opinião totalmente à revelia, sem debate público.

Novamente, o silêncio estratégico funciona mais.

A exposição do Cunha não fará dele um forte candidato à presidência. A galera tem ojeriza à velha política, ele no fundo é apenas mais um pra maioria da população. Mas essa exposição dele custará caro. Lembrando que o PMDB está ladeira abaixo.

Outra coisa, também otimista. Hoje os setores progressistas (incluindo a esquerda) está no campo de disputa, está no debate. Costumo dizer o seguinte: imagine o meu esforço em 1998 em convencer alguém a votar no Lula, o plano real voando e a galera classe media toda entusiasmada com o dólar 1 pra 1. Ali não havia espaço no campo de disputa, hoje há briga, há uma arena para o confronto. Isso é um avanço democrático e temos que seguir firme, pois a luta nunca é fácil. Para citar exemplo: o Orlando Silva e a Jandira Feghali possuem uma força na câmara que o Aldo Rebelo nos anos 90 não possuía, a briga por espaço pra ele era muito mais árdua.

Democracia é disputa, e é isso que às vezes, por vontade de tranquilidade, muitas pessoas demoram a compreender.

Bem, como te disse, a conversa é longa, tô com a Marieta Severo, e espero que tenhas compreendido as minhas colocações.

forte abraço

(mensagem enviada por Facebook no dia 8 de julho de 2015)

Um comentário:

Diego Ataide disse...

Como assim você fez todo esse discurso muito bem detalhado e tal, e no final termina dizendo que está com a Marieta Severo, Como assim? Concluiu muito bem ao cita que estava com a ex de Chico Buarque de Holanda. Pois "Eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia"? Para responder essa parte da música de Chico ponho a resposta: "Esse silêncio todo me atordoa, atordoado eu permaneço atento, na arquibancada pra a qualquer momento, ver emergir o monstro da lagoa." Você entendeu a alusão que fiz, não é? Então é assim que percebo a sociedade nos dias atuais sobre o Governo Dilma.
¡Hasta la victoria siempre!
Abraços,
Diego Ataide