13 abril 2013

Navegantes - Programa 1

Quando: 13 de abril de 2013
Onde: Editora FiloCzar - Rua Durval Guerra de Azevedo, 511
Horário: 17h

"ÁGUAS DE ROMANZA"
CE / 15 minutos / 2002
Dir: Gláucia Soare e Patrícia Baía 
Sinopse: No sertão nordestino uma menina sonha em conhecer a chuva. Sua avó, velha e doente, deseja realzar o sonho da neta. Um caixeiro viajante é a única esperança.

"VINIL VERDE"
PE / 13 minutos / 2004
Dir: Kleber Mendonça Filho
Sinopse: Mãe dá a Filha uma caixa cheia de velhos disquinhos coloridos. A menina pode ouvi-los, exceto o de vinil verde.

"O DIVINO, DE REPENTE"
SP / 6 minutos / 2009
Dir: Fábio Yamaji
Sinopse: Ubiraci Crispim de Freitas, personagem real conhecido por Divino, canta repentes e conta sua vida neste documentário animado com ficção experimental.    

"CUIDADO COM O MACHADO"
Nova Zelândia / 2 minutos / 2008
Dir: Jason Stutter
Sinopse: Um menino, pés descalços e um machado.   

23 março 2013

Reencontro

Rita tentava explicar a origem do seu nome. A sua bisavó havia segurado a onda da família, pois ficara viúva aos 23 anos de idade. De qualquer forma, para Rita era bonito levar o nome de uma guerreira. A sua interlocutora era uma moça com a mesma idade: 20 anos.

Elas haviam se conhecido numa festa em Barcelona promovida por estudantes brasileiros. Ambas eram turistas na cidade. Conversaram a noite inteira e se identificaram em muitos aspectos.

Nesse reencontro algo estava no ar. Rita se sentiu confusa com o distanciamento de sua amiga. Se bem que na verdade, a pergunta era se aquela jovem de cabelos tingidos era de fato sua amiga.

O bar estava lotado, o que de certa forma excitava Rita.

Depois da bisavó, Rita falou de sua avó e por fim falou de sua mãe. A desconfiança que ela depositava na mãe era extrema, ela não conseguia nenhum canal de comunicação. As duas pareciam inimigas, apesar de terem tido poucos conflitos. Rita desabafou que no fundo não admirava sua mãe.

A outra moça ficou se perguntando por que a necessidade de tanta exposição da vida pessoal. E mais, o que será que se perdeu na travessia do Atlântico, Rita deixara de ser uma pessoa atraente.

A nostalgia é traiçoeira. Seria muito mais interessante Rita ser apenas uma instigante pessoa conhecida numa festa perdida em Barcelona. Agora era possível ver que não havia necessidade de ser mais do que isso.

Cada vez mais a necessidade de reencontro se torna apenas um bom motivo para nos decepcionarmos com as pessoas, desacreditarmos em nossas heroínas. Os mitos não se perdem na travessia de um oceano, pensou a moça com cabelos tingidos, os mitos se perdem na vida comum.

22 março 2013

Compreensão e marcha

A primeira vez que li “O Manifesto do Partido Comunista”, de Karl Marx e Friederich Engels, foi antes do meu início na militância do PC do B. Era o início dos anos 90, ser comunista parecia ser a coisa mais anacrônica de todos os tempos...

Mas cresci com a minha mãe se declarando uma simpatizante do comunismo e não uma comunista de fato, cresci com ela dizendo que um homem como Fidel Castro só nasce a cada cem anos, cresci com ela me mostrando o que é justiça social, comentando que em sociedades comunistas os valores à educação e cultura são primordiais, cresci com ela falando de Olga Benário e me contextualizando as músicas de Chico Buarque. Em 1982, quando eu tinha 7 anos de idade, ela me levou para ver a vitória de um governador do PMDB numa importante avenida de Manaus, durante a eleição ela havia deixado bem claro que o oponente do PDS fazia parte da inimiga ditadura, a redemocratização engatinhava e o meu Flamengo era o melhor time do mundo.

Sim, eu fui politicamente influenciado, apesar de nunca ter visto minha mãe militando nas fileiras de algum partido ou recebendo visitas de comunistas.

Um ano antes da queda do muro de Berlin, numa viagem de férias à Natal (RN), comprei uma biografia do Che Guevara no aeroporto de Manaus, fiquei encantado com a trajetória desse revolucionário e na capital potiguar comprei uma camisa com o rosto do Che (sim, eu também tive uma camisa dessas, mas foi a única) e com os dizeres “Um dia voltarei e serei milhões”. Considerei isso bem profético e me considerei dentro desses milhões da camiseta.

Caiu o muro de Berlin, o Collor foi eleito, me mudei para São Paulo, não fui um cara pintada, o Collor saiu, Itamar entrou, FHC também, plano real, bla bla bla. Entre o fim de 93 e início de 94, retiro emprestado na biblioteca do Centro Cultural São Paulo um exemplar do “Manifesto”. Eu havia decidido que pra fazer parte daquela frase profética da camiseta eu precisava ler e estudar antes, pois uma coisa que minha mãe também me dizia era que um comunista antes de tudo era um estudioso, uma pessoa culta e que não discutia com qualquer um, pois sua sabedoria era superior. Resolvi começar pelo começo.

Lembro que minhas primeiras impressões da leitura haviam sido de compreensão, enfim eu pude ter acesso a certos conceitos que me pareciam nebulosos, o principal foi compreender o significado de luta de classes. Em seguida, compreender o conceito de burguesia, sua função histórica e seu papel na luta de classes. E por fim o caráter revolucionário para se alcançar o socialismo, a necessidade de um processo de revolução e alcançar o poder. O curioso é que depois disso, mesmo com meus poucos conhecimentos, uma compreensão maior sobre a revolução de outubro e as revoluções cubana e chinesa me deram uma dimensão dos desafios de um processo revolucionário.

Deixei de frequentar o PC do B por mais de dez anos e recentemente voltei, e a partir de um encontro da célula da cultura do Distrital Centro para um debate acerca de “O Manifesto do Partido Comunista”, e por considerar desafiante a ação política nos dias atuais, trago aqui uma reflexão pessoal sobre duas passagens desse livro. A primeira diz:

“teoricamente, [os comunistas] têm sobre o resto do proletariado a vantagem de uma compreensão nítida das condições, da marcha e dos fins gerais do movimento proletário”.

Considero que essa afirmação sobre a compreensão do movimento proletário também lança sobre os comunistas uma de suas principais responsabilidades, que é ser um conhecedor da História, incluindo a do seu próprio tempo, e mais, conhecer não somente os fatos, mas também como as relações na sociedade se estabelecem nos diversos meios e circunstâncias. Nos dias de hoje, a nitidez da compreensão, na minha opinião, parte de não isolarmos, em um círculo fechado e intransigente, as nossas ideias e convicções acerca do que é necessário para o caminho ao socialismo, a marcha precisa cada vez mais ser construída com uma imersão nas problemáticas dos dias de hoje, e um ponto que considero abalado é o sentimento e conceito de cidadania. Por meio de um individualismo agressivo, cuja gênese está no consumismo sem freios como modo de vida, as relações entre as pessoas se afastam de uma percepção acerca do bem comum, do viver em coletividade e, o que considero mais triste, lutar por transformações a favor de uma realidade mais justa para esse coletivo.

Quando iniciei minha militância no PC do B em 1995, numa época que para muitos é conhecida como o fim das ideologias, o que amadureci no partido foi a real compreensão da política. Ali, por meio de estudos e debates, verifiquei o compromisso de um partido não somente a favor dos trabalhadores, mas também com a construção do socialismo. Lembro da lúcida compreensão de que esse socialismo no Brasil somente poderia se dar perante as próprias características desse país, sem a adoção de um modelo, apenas com uma avaliação clara e eficiente das experiências socialistas até então.

O que desejo ilustrar é que com a militância partidária pude identificar a importância de um partido na marcha citada no trecho citado do “Manifesto” e o seu papel como vanguarda. Para isso foi fundamental para essa minha compreensão o livro “Que Fazer?” de Lenin, que até hoje é meu livro de cabeceira. Fui verificando que muito mais que a revolução, que talvez eu jamais vivenciaria, o importante naquele momento (e ainda hoje) era ajudar no fortalecimento do partido, auxiliar nesse compromisso de vanguarda.

Sou cético quanto à possibilidade de presenciar a experiência de uma revolução socialista no Brasil, até mesmo por conta de uma avaliação pessoal que eu tenho, positiva até certo ponto, do nosso processo democrático, o que pode levar a outro texto em breve. Porém, parto do princípio que a marcha precisa ser em direção a essa revolução. Eis que volto à atenção que chamei para não nos fecharmos nos próprios círculos. O avanço parte de uma aproximação para debatermos junto aos mais diversos segmentos da sociedade sobre o papel da cidadania nos dias de hoje.

Se o partido é uma vanguarda, o desfaio se faz atualmente para muito além da conscientização de classe, há uma necessidade urgente de conscientização cidadã e republicana. Refiro-me à conscientização por parte da sociedade dos valores das instituições democráticas, uma consciência capaz de marchar contra o câncer chamado corrupção, que abala os eleitores, que gera neles um sentimento de desconfiança quase constante, que gera neles um sentimento de descaso. Sugiro abrirmos com força o debate acerca da reforma política. Acredito que seria um passo importante para destacarmos no seio da sociedade, a sua principal arma: a responsabilidade de seu próprio voto.

A segunda passagem:

“Quando se fala de ideias que revolucionam uma sociedade inteira, isto quer dizer que, no seio da sociedade velha, se formaram os elementos de uma nova sociedade e que a dissolução das velhas ideias marcha de par com a dissolução das antigas condições de vida. [...] quando, no século XVIII, as ideias cristãs cederam lugar às ideias racionalistas, a sociedade feudal travava sua batalha decisiva contra a burguesia então revolucionária. As ideias de liberdade religiosa e de liberdade de consciência não fizeram mais que proclamar o império da livre concorrência no domínio do conhecimento.”

As ideias racionalistas citadas no texto se referem à herança iluminista, que promoveu a hegemonia do conhecimento e do progresso sobre o misticismo religioso e a metafísica. A partir daí temos, como ilustra o “Manifesto”, o “império da livre concorrência no domínio do conhecimento”, uma ação exclusivista que pautou o capitalismo mais feroz ao longo do século XX em nome da liberdade. Liberdade é outra palavra que precisamos cuidar tanto quanto cidadania.

Aqui lanço um pensamento para avaliarmos as premissas do Iluminismo e suas consequências perante a evolução do capital. Um texto de Kant chamado “Resposta à pergunta: Que é Esclarecimento [Aufklärung]” se torna pontual, nele há uma ode a um futuro iluminado pelo avanço do pensamento, onde o acesso às potencialidades do conhecimento poderiam sim trazer uma perspectiva a um novo homem. Pelo que pudemos perceber, o capital se apropriou disso para tornar seus procedimentos mais liberais e assim prezar por uma liberdade que no fundo se tornou opressora.

Marx e Engels identificaram isso no nascedouro, e hoje acredito que tal passagem possa ser revisitada para termos um diálogo franco com as questões de nosso século, onde a tecnologia não pode nos intimidar, precisamos celebrar o seu avanço, mas repensá-la para um contexto humanista e de uma sociedade justa. A liberdade a partir do conhecimento pensada em conexão com a cidadania. Que um cidadão possa saber do lugar que ocupa numa sociedade, que seus anseios possam superar a esfera individualista e serem direcionados para uma ação edificadora.

Retomo o termo ‘marcha’ do “Manifesto” para compreendermos nosso papel nessa longa trajetória a nossa frente, cada passo precisa ser firme, e ele precisa ter essa firmeza no sentido de fortalecimento do partido, compreendido como vanguarda, e precisa ser revolucionário, no sentido de que não caminhamos com armas de fogo e sim com o esclarecimento não somente para nós mesmos, mas primordialmente para uma sociedade que precisa ser desperta para o seu compromisso de cidadania.

08 fevereiro 2013

Massarandupió

Uma coisa não se pode negar do Brasil: é a terra dos paraísos terrenos!

E um dos paraísos dessa terra de Vera Cruz se chama Massarandupió, um vilarejo no litoral norte do estado da Bahia, numa região conhecida como Linha Verde.



Como chegar:
Massarandupió está aproximadamente 1:30h de Salvador, para ir de carro pega-se a BA099 e a entrada para a cidade está no km88.
De  Salvador não tem nenhum ônibus que vá para Massarandupió, da rodoviária pode-se pegar um coletivo que vá pra cidade de Entre Rios e pedir pra descer na estrada na entrada da cidade, daqui é necessário combinar com alguém da cidade para lhe pegar.

Bem, Massarandupió não tem asfalto, são ruas de terra, maioria da população é local, telefonia móvel e internet não pegam bem, não tem lan house; não há agências bancárias, muito menos caixas eletrônicos; conta-se nos dedos os estabelecimentos que aceitam cartões para pagamento (praticamente só as pousadas).

Lugar para esquecer do mundo e se libertar, ótimo para reencontrar a si mesmo.




Vamos à praia:
A praia não fica exatamente na cidade, pois faz parte de uma reserva ambiental. A praia está a 3km do vilarejo e o caminho é uma estrada por dentro dessa reserva. A caminhada leva aproximadamente 50 minutos, mas para quem não é turista motorizado, sempre aparecem caronas pelo caminho, o que é uma boa forma de socializar não somente com outros turistas mas também com os moradores da região.
A praia é dividas em três áreas: Praia Convencional, Praia da Barra e a Reserva Naturista.

E sim, é um paraiso:

 




O banho de mar é uma delícia, as águas não são calmas, puxam bastante, mas nada que se torne perigoso, claro que com crianças a atenção é redobrada.

A praia é muito extensa, portanto ótima para longas caminhadas e é muito fácil ficar isolado numa parte dela.

Monitorada pelo projeto Tamar, a praia é local para desova de tartarugas marinhas. Ao longo de toda a sua extensão existem estacas que indicam onde foram depositados os ovos pelas mamães tartarugas.

 

Naturismo:
Massarandupió é bastante conhecida pela prática do naturismo, inclusive é a maior praia em extensão de naturismo, são aproximadamente 2km. Por lá passam turistas de diversos cantos do Brasil.
A área naturista é reservada e possui um código de ética da Federação Brasileira de Naturismo.
Na parte naturista possui uma barraca que serve comidas e bebidas.
Para conhecer mais sobre o naturismo e deixar de lado tabus ou preconceitos, clique aqui em Brasil Naturista.

Do naturismo passarei para a pousada Rio e Mar, uma boa opção para se hospedar em Massará, como é chamada a cidade pelos locais. Os donos, Lourdes e Edilson, possuem uma simpatia, atenção e carinho que são ímpares. Eles são os fundadores da praia naturista em Massarandupió. Para conhecer mais sobre a pousada clique aqui.



Na parte conhecida como Praia da Barra, é um local bem bonito pois ali ocorre o encontro do rio com o mar. É uma área bem deserta e sem estrutura de barracas de serviços.




Na praia convencional há algumas barracas que servem bebidas e comidas. Como mencionei acima, a praia está dentro de uma reserva ambiental, portanto não possui energia elétrica. Destaco duas barracas em especial. Em ambas o atendimento é atencioso e com boas opções para petiscar e comer.

A primeira é a do Juci:



A segunda é a barraca do Toinho:


 

Massarandupió é sem dúvida alguma um recanto bem especial, longe das especulações turísticas e imobiliárias, lá se preserva muitas essências, também há carências, principalmente para seus moradores mais pobres. A todos que lá um dia estiverem, por favor respeite com toda a reverência essa dádiva da natureza e ajude a preservar.







28 janeiro 2013

De muito longe

A lanterna iluminou um rádio de pilha, as mãos finas e delicadas da moça de cabelos castanhos curtos sintonizou uma rádio que tocava músicas tristes. Ao som dessas canções, a lanterna foi direcionada para um bloco de notas onde ela escreveu palavras felizes. Havia o desejo de chuva nos pensamentos daquela jovem. A escuridão precisava de poesia. O entusiasmo foi se perdendo à medida que os olhos cansavam. As músicas deixaram de ser tristes e o locutor relatou as notícias de um país distante. Ela adormeceu e sonhou como todos nós.

21 janeiro 2013

Normandia

A fraternidade daquele homem o levou à lua. Foi o primeiro comentário quando a descoberta do destino de Milton havia sido divulgada por todos os meios de comunicação. Mas como um desconhecido morador do jabaquara se tornou uma celebridade por conta de sua viagem espacial?

Dois anos antes, Milton estacionou seu carro na rua de um bairro nobre de São Paulo, e assim que desceu do veículo foi abordado por uma jovem que se apresentou com um nome incomum. Ela lhe perguntou onde ficava o veterinário mais próximo, e Milton, com toda a sua gentileza, respondeu que não era do bairro e que não conhecia nenhum doutor para animais.

A jovem de nome estranho seguiu seu caminho pela calçada e poucos metros depois desmaiou. Milton observou aquilo por alguns instantes e na sequencia teve um ataque súbito de riso, ria tanto que não conseguia se controlar.

Uma senhora que passava pelo local correu para ajudar a moça, que aos poucos foi retomando os sentidos. Milton não conseguia parar de rir e quando se deu conta viu a moça vindo em sua direção. Segurando o riso, Milton pediu desculpas e perguntou se não era melhor ela procurar um médico.

Milton não conseguiu segurar e se contorcia de tanto rir.

Dona de um nome impronunciável, a moça  rasgou o abdomen de Milton com um estilete.

Aos 45 anos de idade, Milton mergulhou num coma que lhe fez estar ausente no nascimento de seu primeiro neto.

Milton acordou durante uma madrugada silenciosa, levantou do seu leito no hospital e caminhou pelos corredores. Duas enfermeiras o reconheceram e se aproximaram, Milton apenas disse: "preciso de ajuda". Cada enfermeira ligou uma lanterna e as direcionaram para o rosto de Milton, que ofuscado pela luz soltou um grito.

Os familiares de Milton se desesperaram. O paradeiro daquele homem após dois anos de um coma profundo era totalmente desconhecido. Um mistério angustiante que desafiou todas as imaginações.

Milton estava na lua junto com outros astronautas russos e muitas lendas a respeito de sua personalidade foram criadas. A principal delas se referia às suas ações fraternas pelas ruas do mundo, um anjo desconhecido que auxiliava os mais fracos.

Aos dois anos de idade, o neto de Milton puxou o dedo do avô para acordá-lo.

29 novembro 2012

Com uma mala cheia de conselhos

Hoje faz 21 anos que cheguei em São Paulo e fiquei.

O vôo da VASP que me levaria à paulicéia partiria por volta das 14h de Manaus. Acordei tranquilo, um tanto ansioso, mas sem um sentimento de despedida, pois na verdade a única condição para que eu não voltasse seria passar no vestibular, fato que eu não estava tão seguro que aconteceria. Também nenhum medo ou alfição passava na minha cabeça, eu estava indo pra casa do meu pai e isso me dava uma certa segurança.

O dia foi uma grande correria para arrumar as últimas coisas, minha mãe enchia minha mala mais com conselhos do que com qualquer outra coisa. Na minha mente eu ficava imaginando o que seria estar numa cidade com mais de 100 cinemas, naquela época Manaus possuía umas 6 ou 8 salas, no máximo.

Cine Chaplin em Manaus, onde assisti a muitos filmes. na infância e adolescência.

Outras coisas que passavam pela minha cabeça: ver jogos da liga mundial de volei, ir a shows de rock, comprar discos raros e ver o Flamengo no estádio. Enfim, São Paulo representava a verdadeira terra prometida de todas as minhas carências esportivas-musicais.

Lourdes, uma grande amiga da minha mãe desde os tempos da faculdade até hoje, se ofereceu para me levar ao aeroporto. Fomos minha mãe, minha vó e minha irmã que na época tinha 5 anos de idade. Antes de entrar na sala de embarque me despedi de todas elas com abraços e de repente eu olho pra minha mãe e pela primeira vez na vida eu vi lágrimas em seus olhos.

Obviamente eu já havia visto minha mãe muito nervosa em diversos momentos, mas aquele tipo de emoção era inédito pra mim, apesar de uma dificuldade ou outra o ambiente em casa sempre foi de muita leveza, carinho, alegria, sem melancolias.

Minha mãe não estava exatamente chorando, mas seus olhos estavam bem úmidos e ela nitidamente estava segurando a sua emoção. Curiosamente não entendi muito aquele momento,  lá no fundo eu não via aquilo como uma despedida, sei lá, eu achava que muito em breve estaria de volta. Hoje acredito que de algum modo ela sentia que havia chegado a hora do filho sair do ninho de vez. Aquelas lágrimas estavam certas.

Fiz o check in e fui à sala de embarque.  Já com um espírito de independência, fui à lanchonete e pedi uma cerveja, uma skol em lata. Sim, o atendente vendeu bebida alcóolica a um menor de 17 anos sem perguntar nada. 

Eu havia conhecido São Paulo quando criança, e isso talvez me deixou com uma sensação de que eu não estava mergulhando num terreno totalmente desconhecido. Algo me excitava, o que minimizou a despedida de uma relação com Manaus que jamais voltaria. Sem me dar conta, eu estava inserindo um novo marco zero na minha vida.

Embarquei no avião airbus A300 num vôo que faria escala em Brasília portando um walkman com o som da banda Fleetwood Mac gravado numa fita cassete. O número de salas de cinema em São Paulo não saía da minha cabeça. Mesmo sabendo que dali a dois dias eu prestaria o vestibular para o curso de engenharia.

Estávamos em 1991 e o Collor ainda era presidente.

A aeronave começou a taxear, saiu do terminal e ficou parada alguns minutos antes de se dirigir à pista para decolar. Nesse momento, olhei na direção do aeroporto e pude ver no terraço, escoradas no parapeito, minha mãe, minha vó, minha irmã e uma quarta mulher. Ninguém mais.

Essa imagem se fixou em minha memória com uma força incrível.

Foi então que eu senti o peso daquela partida.


 Não passei no vestibular e uma nova história começou.