08 março 2014

Piso

O piso era escorradio, ela não conseguia se manter em pé. Até pouco tempo, o seu destino não parecia lhe levar para esta situação sem equilíbrio. Lembrou de toda a sua vida...

Seu nome é Sílvia e um dia ela fez dormir un homem que não dormia há três dias porque tinha medo de dormir e nunca mais acordar. Após cobri-lo com um lençol rasgado, Sílvia desejou que ele morresse...

Ela vivia em função de seus próprios desejos, encontrar a satisfação de cada desejo lhe movia aceleradamente. Sempre foi, de certo modo, um caminho para encontrar seu espaço no mundo.

Sem equilíbrio, ela experimentou pela primeira vez a ocasionalidade das coisas.

Desejos e equilíbrios se entendem? Perguntou a si mesma enquanto seu corpo se direcionava àquele piso...

25 fevereiro 2014

Alheios movimentos

Observei os movimentos dela. Antes de encostar o café nos lábios, ela manipulou o celular com rapidez e precisão. Havia uma mensagem firme ali. Seus olhos estavam concentrados.

Enfim a degustação do café.

Não houve reação, a bebida não incorporou nenhuma diferença significativaa àquele seu momento.

Pelo menos ela colocou pouco adoçante. O sabor do café foi pouco machucado.

Ela tirou da bolsa vermelha dois cartões de visita e os leu com atenção, parecia que precisava decidir algo muito importante. Deixou os cartões em cima da mesa e se distraiu com a conversa dos atendentes no balcão. Seus dedos dedilhavam com força na mesa, consegui escutar de longe. Parecia um tique.

Achei estranho que ela demorava a tocar novamente no celular. Refleti sobre o quanto pode ser bom enviar uma mensagem que não precisa de resposta.

Os seus movimentos não eram tão atraentes, fiquei pensando no que faz me aproximar dos movimentos alheios. Achei fútil que isso seja um exercício para a minha imaginação.

Ela se levantou, foi embora e percebi que os dois cartões de visita haviam ficado sobre a mesa.

Foi aí que notei o quanto a conversa dos atendentes era bem interessante e passei a observar os movimentos deles enquanto saboreava a terceira xícara de café sem adicionar açúcar ou adoçante, obviamente.

15 fevereiro 2014

Arraes

O Miguel Arraes foi um grande e inteligente político. Lembro que ele era um dos comunistas que a minha mãe com frequência mencionava quando eu era criança. Se era de fato ou não um comunista, nunca tive a oportunidade de saber na real, mas ele foi um dos meus grandes exemplos de luta anti-FHC, enfrentou fortes batalhas políticas por conta de sua oposição quando foi governador de Pernambuco de 94 a 98. Tristemente, assim como eu, viu a reeleição de FHC e amargou sua não reeleição perdendo a vaga do Palácio das Princesas para Jarbas Vasconcelos, um dos bastiões neoliberais.

Eis que dois de seus legados, o PSB e seu neto Eduardo Campos caminham por uma oposição esbravejada para conduzir um novo rumo pra política nacional, porém pouco contundente nos caminhos que quer seguir. Considero que isso não reflete um novo em essência e carrega pouca clareza na sua relação com os avanços históricos dos últimos dez anos. Campos diz que dará um novo sentido nesses avanços, não enxergo isso e a aproximação com Marina Silva pode soar oportunismo, mas não é,  é sim uma tentativa de agregar modernidade (ou posmodernidade) a uma frente poítica que a meu ver está empolgada em ser uma outra oposição, sem necessariamente ser um exemplo de ação política. Lembremos que muitas das boas transformações que se viu em Pernambuco no governo de Campos foi graças a uma forte articulação federal.

Obviamente e democraticamente, Campos, Marina, e seus seguidores possuem todo o direito de agir dessa forma. Apenas manifesto aqui minha discordância em função do valor que Miguel Arraes construiu como pensamento político, ou melhor, como forma de se posicionar diante dos desafios que uma sociedade precisa enfrentar para constituir seus avanços não somente econômicos, mas principalmente sociais.

Arraes se posicionava sempre por uma luta maior, jamais pessoal e orgulhosa. Isso lhe custou enfretar dificuldades sem precedentes enquanto governador de Pernambuco durante os anos neoliberais de FHC. Foi coadjuvante na corrida presidencial de 2002, compreendia seu próprio papel e mesmo inicialmente como concorrente de Lula (o PSB lançou a candidatura de Garotinho em 2002), o seu lado era o lado das classes menos favorecidas e da luta pela transformação social, e de 2003 até a sua morte em 2005, apoiou o governo mais progressista de nossa história.

Saudades desse comunista da minha infância. Mas enfim, Arraes se foi e prefiro lembrar de sua trajetória quando leio os movimentos de seu neto nos dias de hoje.

30 janeiro 2014

Paradas

O sol potencializa o calor naquela parada de ônibus. Hélcio Guerra espera a condução incerta, mesmo suando não deseja que o ônibus passe tão logo. Poderíamos pensar que a motivção é uma garota, mas o que lhe faz pensar naquele momento é a vontade de não sair do lugar.

Renatinha, com seus cabelos longos e menos de 1,60m de altura, está do outro lado da rua, numa sombra fresca e ansiosamente aguarda seu coletivo. Ela pensa em sua filha que está aprendendo a ler, gosta de ouvir a sua pequena se esforçando para narrar todas as palavras que encontra pela frente. Com a nuca suada suspende os cabelos com as mãos, deseja uma cerveja.

O sol faz um pequeno aglomerado de pessoas sob um pequeno toldo de uma lanchonete, Hélcio se espreme ali. Os rostos ao seu redor demonstram ansiedade e cansaço, ele está longe disso, uma inércia interior lhe consome. Não sabe o que decidir.

O ônibus se aproxima da parada e Renatinha percebe que esqueceu o celular em casa. A dúvida lhe consome e mais, ela se desconforta quando perde o controle das coisas. O celular é necessário em sua vida, lembra novamente da filha, Renatinha se sente na obrigação de estar conectada.

Renatinha esbarra em Hélcio, entra na lanchonete com passos pesados e pede um refrigerante, na mente ela diz um foda-se à sua dieta. Hélcio Guerra não tem filhos para lembrar, abandonou a dieta faz tempo e na mente diz um foda-se a tudo.

14 janeiro 2014

Navegantes - Programa 5

Quando: 8 de fevereiro de 2014
Onde: Editora FiloCzar - Rua Durval Guerra de Azevedo, 511 Pq. Sto Antonio
Horário: 18h
Para saber mais sobre o Navegantes clique aqui

"Praça Walt Disney", de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira (PE)


"ARUANDA"
PB / 21 minutos / 1960
Dir: Linduarte Noronha
Sinopse: Os quilombos marcaram época na história econômica do Nordeste canavieiro. A luta entre escravos e colonizadores terminava, ás vezes, em episódios épicos, como Palmares. Olho d´Água da Serra do Talhado, em Santa Luzia do Sabugui (PB), surgiu em meados do século passado, quando o ex escravo e madeireiro Zé Bento partiu com a família à procura de terra de ninguém.

"MEGALÓPOLIS"
SP / 11 minutos / 1973
Dir: Leon Hirszman
Sinopse: Mostra como a falta de planejamento urbano no Brasil´é uma doença sem tratamento e como o eixo Rio-São Paulo já estava saturado na década de 1970.

"PRAÇA WALT DISNEY"
PE / 21 minutos / 2011
Dir: Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira
Sinopse: Boa Viagem, Recife PE, 51111-260, Brasil.

"ALPHAVILLE 2007 D.C."
SP / 16 minutos / 2007
Dir: Paulinho Caruso
Sinopse: Uma ficção científica sobre o terceiro mundo.

30 dezembro 2013

Rita

O ônibus parou em frente a uma drogaria, ela desceu junto com outras mulheres, todas pelo menos vinte anos mais velhas que ela. Eram dez pra sete da manhã, e a medida que as senhoras se espalhavam pelas ruas ao seu redor, Rita pensou consigo mesma que todas poderiam ser domésticas nos apartamentos bacanas da região e lembrou de sua mãe.

Aquele bairro de São Paulo também lhe trazia outras recordações, havia namorado um cara bem mais velho que ela e que trabalhava numa videolocadora na rua de trás daquela drogaria; na época, com menos de 18, sempre desconfiava que era ali que o cara comprava as camisinhas de suas transas, e por conta disso nunca entrara ali pois tinha certeza que seria reconhecida pelos funcionários que logicamente estariam a par de sua vida sexual. Rita riu.

Tudo era passado. O bairro se transformou assim como a sua própria vida.

Rita entrou na drogaria e passeou pelo setor de escovas de dentes. Ficou parada em frente das gôndolas, pegou na mão um ou dois modelos de escova porém não escolheu nenhum. Em seguida fez a mesma coisa com os shampoos. Entre escovas de dentes e shampoos ocupou quase uma hora de seu tempo. Rita chegou a pensar se aquilo chamara a atenção dos funcionários e da segurança, mas dane-se, ela tinha certeza de que ela mesma não era uma ameaça e isso bastava.

Ao sair e caminhar pelas ruas do bairro Rita sentiu vontade de chorar, havia saído de casa após uma longa noite de insônia e considerando que aquilo seria um passeio, mas no fundo buscava algo de seu passado, mesmo que fosse uma lembrança simples, de um namorado sem importância. E foi aí que encontrou a chave para o vazio que lhe fazia chorar, dera importância a algo sem importância, fugia de suas aflições verdadeiras.

Faltava pouco para as nove, era preciso ir trabalhar, resolver problemas cotidianos.

Já dentro do ônibus postou uma foto da drogaria no facebook e escreveu: isso me lembra boas trepadas e nada mais.

26 dezembro 2013

46 anos

46 anos.
Ela olha seu corpo nu no espelho de seu quarto. Não concorda com o que vê, mas sente libido. Tem vontade de desejo e perversão.
É seu aniversário, daqui a pouco uma comemoração divertida com as amigas, sem perversão alguma, mas quem sabe se no bar surgem olhos libidinosos de um homem que transformem algo em mais coisas... São amigas que ficam, que a compreendem. Sem roupa alguma no corpo, ela não sabe avaliar o peso daquelas amizades. O importante é que neste momento elas lhe estendem um ouvido, amigas que dão risadas das mesmas piadas.
Escolhe a calcinha mais adequada e se veste por inteira. Ela não quer chorar naquela noite, a vida inteira chorou em seus aniversários, ops, a vida inteira não, mas com certeza desde os seus 20 anos.

26 anos.
Flávia sempre achou estranho fazer aniversário no mesmo dia que sua mãe. Há três anos que não se falam, Flávia mudou de cidade e busca sua própria autonomia. Ela acha que a mãe envelheceu rápido demais.
É 26 de dezembro, uma data vazia como a considera Flávia, nem natal nem ano novo, mas no fundo, que importancia tem tudo isso? Ao seu redor ninguém sabe do seu aniversário, na verdade ninguém liga a mínima para o que ela pode significar nesse mundo.
Flávia diz pra si mesmo que está feliz naquele dia. Espera que o cartão enviado pelo correio chegue o quanto antes na casa de sua mãe.

O ano acaba e um novo começo virá... Flávia e sua mãe têm certeza disso, apesar de não esperarem somente felicidades.

19 dezembro 2013

Muito além de um chester.

Boa parte da população clama por melhor educação no Brasil, a educação é vista como a solução de todos os nossos males sociais, econômicos e históricos. Concordo, porém não entrarei aqui nas linhas mais duras e delicadas dessa questão, que considero que vai além de ser um discurso quase uníssono, o objetivo aqui é repassar a indignação de uma professora do estado do Amazonas, que com certeza lança mais lenha na fogueira sobre o debate de qual 'melhor educação' estamos querendo.

M. adora dar aulas de química orgânica aos seus alunos

Fim de ano.

2013 chega ao fim e a secretaria de educação do estado do Amazonas, conhecida como Seduc, presenteia todos os professores com chesters para que os educadores possam desfrutá-los nas ceias e confraternizações das 'boas festas'. Porém, a distribuição é feita por escola e não por uma lista geral de todos os professores da rede, assim alguns educadores aparecem em mais de uma lista do benefício, uma vez que dão aulas em diversas escolas.

M., professora há quase quarenta anos, recebe dois chesters, não questiona a duplicidade do presente natalino, pois se seu nome estava nas duas listas, obviamente ela acreditou que isso era uma determinação da própria Seduc. Porém a diretora de uma das escolas em que M. leciona, resolveu fazer uma investigação, por dias telefonou para outros professores amigos de M. assim como para a diretora da outra escola, sorrateiramente buscou saber se M. havia recebido duas unidades do chester da Seduc.

Numa manhã, na sala dos professores, a diretora detetive se aproximou de M. e lhe deu uma lição de moral na frente de outros docentes, informando que não era correto uma professora ficar com dois chesters, não foi uma conversa, foi uma bronca humilhante. M. devolveu os dois chesters no dia seguinte às escolas, a indignação pela humilhação e despreparo da diretora da escola em abordá-la foi realmente triste.

M. tentou explicar que não agiu de má fé, não sabia da limitação de apenas um chester por professor, descobriu casos semelhantes de professores que também passaram pela mesma situação e foram levados a devolver. Ela cita ainda que alguns de seus colegas que estavam presentes na bronca que ela levou, também haviam recebido duas unidades, porém sem a investigação da diretora.

M. ficou muito triste. O chester não lhe faz a menor falta, o que lhe faz falta é um reconhecimento adequado de sua profissão. Quase todos que gritam por uma melhor educação, conhecem as condições precárias de trabalho dos professores das redes públicas de ensino. E hoje a dificuldade não é somente material.

M. relata o que vê nos celulares de seus alunos com menos de 16 anos, brigas, sexo, maconha, videos e fotos com traficantes. M. comenta sobre a dificuldade em fazer um aluno com menos de 16 anos valorizar o ensino que está lhe sendo oferecido. M. fala de seu esforço diário em motivar alunos com problemas diversos, os quais sempre esbarrados na esfera econômica e social, resultado de todas as nossas desigualdades e injustiças sociais.

Mais triste ainda é verificar a insensibilidade de nossos gestores. A propaganda de que a gestão pública é legal com a entrega de chester contrasta com a ineficiência de organização interna, da inabilidade de uma diretora de escola em contornar o erro institucional. Tudo que os alunos de M. precisam superar diariamente por conta de um ensino precário se estabelece na insensibilidade da gestão, da diretora, da Educação (sim, com E maiúsculo).

Paremos de ser hipócritas e repetir discursos comuns, busquemos uma sociedade mais fraterna, que a educação não passe por excelência de ensino somente, mas por humanismo nas relações. Paremos de achar que Coréia do Sul e meia dúzia de países que espoliaram o mundo são referências para a nossa educação, busquemos as referencias no nosso próprio estômago faminto, pois assim compreenderemos melhor as injustiças sociais e impulsionaremos a humanização para além do individualismo e do nefasto caráter meritório da cultura capitalista decadente em nossas peles.

“É porque podemos transformar o mundo, que estamos com ele e com outros. Não teríamos ultrapassado o nível de pura adaptação ao mundo se não tivéssemos alcançado a possibilidade de, pensando a própria adaptação, nos servir dela para programar a transformação.” (Paulo Freire)

18 dezembro 2013

Navegantes - Programa 4

Quando: 21 de dezembro de 2013
Onde: Editora FiloCzar - Rua Durval Guerra de Azevedo, 511 Pq. Sto. Antônio (São Paulo/SP)
Horário: 19h
Para saber mais sobre o Navegantes clique aqui.

"A Distração de Ivan', de Cavi Borges e Gustavo Melo

"SÉCULO"
MG / 11 minutos / 2011
Dir: Marcos Pimentel
Sinopse: Conosco, o amor. Entre nós, o tempo.

"A DISTRAÇÃO DE IVAN"
RJ / 15 minutos / 2009
Dir: Cavi Borges, Gustavo Melo
Sinopse: Ivan é um menino de 11 anos. Ele vive com a avó no subúrbio do Rio de Janeiro. Em meio ao seu cotidiano de brincadeiras e brigas com os amigos, ele vai amadurecer.

"A CASA DOS MORTOS"
DF /  24 minutos / 2009
Dir: Debora Diniz
Sinopse: Jaime, Antônio e Almerindo são homens anônimos, considerados perigosos para a vida social, cujo castigo será a tragédia do suicídio, o ciclo interminável de internações, ou a sobrevivência em prisão perpétua nas casas dos mortos.

02 dezembro 2013

Torre entre as pedras

Os pés descalços caminham pelo piso gelado da cozinha, o esmalte de suas unhas está corroído e ela sabe que sua preocupação com a própria vaidade tem sido quase nula nas últimas semanas, a exceção é a sua boca, que pode contar com um batom quase sempre.

Estranhamente ela encontra quatro pedras sobre a mesa, são pequenas, escuras e leves. Como é que foram parar ali? Pergunta a si mesma. Decide levá-las para a sala, havia pensado em jogá-las fora, mas acredita que podem combinar com a torre eiffel que uma amiga lhe trouxe, apesar dela detestar esse tipo de lembrancinhas de viagem.

A pequena torre eiffel de plástico fica soterrada pelas pedrinhas, como naqueles filmes apocalípticos. Ela ri, gosta da sua invenção, pois enxerga um sentido naquela composição de objetos. Enfim, é o sentido que a sua vida está tomando, alterar as ordens das coisas, desestagnar-se.

Mas será que ela está seguindo à risca esse rumo? Ela reconhece que coisas muito mais importantes que a decoração de sua casa precisam ser reordenadas. Não sentir a obrigação de ter um namorado é uma delas, o amor precisa ser repensado, apesar de que muitos acreditam que ele precisa ser redefinido. Quantos rês! Ao sorrir para a torre entre as pedras, ela conclui que não deseja se redefinir, apenas tirar algumas coisas da ordem.

Jogados ao lado do sofá estão papéis que precisam ser lidos para que assuntos avancem no escritório onde trabalha. Ela começa a rasgar folha por folha como se aquilo fosse terapêutico. De frente para o amontoado de papéis rasgados, ela começa a chorar. Acredita que mergulhou numa loucura, sente medo. Liga para uma amiga. "Por que você não faz uma viagem?", pergunta a amiga no esforço de aliviar a situação e recebe como resposta um 'como você é tola!'

Desprezando seu medo, ela quer que sua loucura seja mais profunda e procura mais pedras pela casa.

28 novembro 2013

Amplificação

O som que surgiu pelo quarto amplificava a sensação da ventania que entrava pela janela. Havia uma paz no ambiente;e as recordações da voz dela me levavam a crer que as coisas seguirão bem. Não é fácil descrever sensações.

A distância nos guia por certas curvas, o qe nos levar a crer que seguimos por um labirinto. Assim o vento ficou mais forte. Gosto de imaginá-la em agitação, ela é e se faz ser ela mesma na espontaneidade de sua agitação.

Sonhos de seu sono quero ouvir.

24 novembro 2013

Contra e com raul

As semanas passavam tão depressa, que ela dizia que o paraíso podia estar próximo, mas possuía espinhos.

O seu lugar estava definido e tudo que ela desejava era destruir tudo e, obviamente, recomeçar as coisas.

Barreta

Alice não me escreva aquela carta de amor.

Assim, com uma música perdida naqueles anos 80, que ele encontra um destino perdido na cidade que sabe exatamente onde os mais errantes se perdem.

Estende-se por um porão falseado por uma idade média mais game ainda.

Alguma roupas em volta não fazem sentido, outras são outras.

"Precisamos todos rejuvenescer"

E as canções perdidas no tempo continuam.

15 novembro 2013

Olhos atentos

Dormi pouco, mas não por conta de alguma aflição, havia sobriedade no espírito. Acordei bem. O dia precisava ser produtivo.

Foi todo um processo de concentração, estive dedicado nas tarefas, e consegui ainda reforçar algumas pendências. Ela deu notícias, conversamos por muito tempo e foi incentivador.

A principal dobra de nossas dúvidas acerca de nossas possibilidades está na pacificação de nossos medos, e olhar atentamente por onde eles operam.

[diário de uma saudade [3]]

14 novembro 2013

Exercício

Observar de longe a expressividade da personalidade de uma pessoa é curioso, parece que é um exercício de buscar de todas as formas compreender o outro. Ao sentirmos a distância incomodando, acredito que esse exercício seja inválido. Hoje apenas quis tê-la nos pensamentos.

Algumas conversas foram elucidativas sobre as nossas formas de lidar com o mundo. Os meus interlocutores apontavam para algo que está se perdendo no convívio em sociedade. Pensei se isso era apocalíptico. Tentar compreender as coisas entre causa e consequência pode nos transtornar mais ainda. Foi bom ouvi-los para entender mais sobre as nossas feridas e cicatrizes na missão de conviver com os nossos semelhantes.

No início da noite, o exercício físico e espiritual me forneceu mais elementos para a autocompreensão. A noite entrou com o coração em amor por ela. Assisti a um filme em casa e a mente harmonizou-se. Ela não deu noticias. Sim, isso é aflitivo. Harmonia, esteja comigo.

[diário de uma saudade [2]]

13 novembro 2013

Por meio de uma linha telefônica

Roupas de um lado, roupas dentro da mala, roupas em suas mãos. Ela ficou ali na ordenação de suas coisas e nos despedimos. Considerei uma despedida fria, mas sim, havia amor.

Fui ao encontro de um amigo, depois caminhei só, quis ver pessoas nas calçadas naquela noite.

Antes da partida e às portas do embarque dela, sua voz veio me dizer palavras fortes cuja intensidade reforçou o amor. Por meio daquela linha telefônica uma luz se fez perante meu inconsciente, sobre o qual estou vigilante há uns meses. A errância na qual me afogo aparentemente não é sombria, pode sim ser aproveitada na medida certa, mas há um leme no qual preciso segurar firme e naquela noite ele poderia se desgovernar.

Ao desligar, um carinho forte estava em meu espírito e todas as palavras dela afetuosamente absorvidas em meu ser. As saudades começaram a apertar, obviamente motivadas por amor.

[diário de uma saudade [1]]

31 outubro 2013

As vizinhas abandonadas

De que modo poderíamos pensar naquela separação? De um lado, desejos, impulsos e vitalidade; do outro, simplicidade, humildade e busca interior. Mas haviam porões desconhecidos, invisíveis como cada uma caracterizava os seus cômodos escondidos.

Como é pretensiosa a humanidade quando ela mesma julga que existem coisas inseparáveis, o próprio tempo abandona e corrói todas as relações.

Se a janela lhe permitia observar o mundo e alimentar os desejos, ela acreditava também que a porta seria o que lhe levaria para o desconhecido. Mas tudo que podia ver era um entra e sai, histórias que reverberavam ao seu redor, algumas mais interessantes que outras.


Se a porta não lhe fornecia a liberdade desejada, corria para o seu porão, onde vivia seu mundo de inquietações.

A infância era um passado assim como as incertezas da adolescência, restava-lhe esse vigor dos vinte anos, permitir-se ao perigo, a tudo que pudesse lhe negligenciar a responsabilidade. No porão nutria sua verdadeira essência. Perversões do corpo e da alma.

Até que um dia ficou apavorada com a repugnância que sentia de todos que conhecia, buscou aliviar iluminando o escuro do porão e dizendo a si mesma que aquilo era mera vontade de conhecer outras pessoas e lugares. Porém a luz que acendeu revelou algo a mais.

Num canto havia uma porta. Seria essa a verdadeira porta para a sua vida?

Desbravadora, avançou, abriu a porta e de imediato não entendeu exatamente o que vira. Havia encontrado um outro porão, muito semelhante e apenas aparentemente mais arrumado que o seu. Resolveu fuçar. Mexeu nos objetos, leu cartas empoeiradas, viu fotos gastas, encantou-se. A porta fechou com toda a força atrás de si. Um frio percorreu seu corpo, estava trancada num porão alheio.

Horas se passaram e ela adormeceu.

Acordou com uma mão feminina empurrando a sua testa. Ela levantou num pulo e percebeu o rosto familiar. As duas começaram a rir. Por um tempo ficaram conversando sobre seus escondidos templos, a diferença de idades forçou um apelido à dona desse porão: Caçula.

A verdadeira essência da Caçula buscava caminhos para o seu interior, ela havia perdido a fé, tanto em Deus quanto nela mesma. No seu porão ela poderia não ser forçada a acreditar em algo, experimentava a si mesma.

Conversavam longamente. A discussão tomava rumos diversos, pra começar, o que elas poderiam compreender como opressão. A porta para voltar ao outro porão nunca mais se abrira e a sua dona começava a já não se reconhecer mais, percebia que vivia em função da outra.

Elas haviam perdido a noção do tempo de suas vidas e sabiam que precisavam tomar uma decisão. Sim, iriam se separar, um porão não poderia lhes unir para sempre.

Livres e errantes, foram viver longe daquelas casas abandonadas.

29 outubro 2013

Entre ratos e famintos

Com uma colher aquele rapaz de uns vinte e poucos anos, negro, de aspecto encardido e usando roupas surradas, devorava uma galinha ensopada num pequeno prato fundo. Chegamos e nos sentamos na mesa ao lado. Gosto daquele bar, pequeno, proprietário atencioso, poucas mesas na calçada, cerveja barata e uma vista não bonita para um trecho Bela Vista, mas agradável e que com a calma da rua transmite pra mim um boa tranquilidade no espírito.

O dono, um nordestino do Piauí, já sabe a minha preferência de cerveja e trouxe uma bem gelada, logo em seguida, ele foi até a mesa do rapaz e recolheu o prato sem sobras. O rapaz agradeceu e desceu a rua para seguir seu destino que pelo menos por enquanto não lhe maltratava com a fome. Reconhecemos como um gesto nobre e humano por parte do dono do bar aliviar a fome alheia e conversamos a respeito durante a primeira cerveja.

Ela me disse que possuía dificuldades em lidar com pessoas em situações de rua, não consegue uma aproximação tranquila e busca trabalhar espiritualmente para superar essa questão. Conversamos sobre culpa, medos e como nos relacionamos com os problemas sociais.

Durante a terceira e última cerveja, meus olhos se fixaram num canto da sarjeta junto à calçada do bar. Ela me observou e depois virou o rosto na mesma direção. Um rato de esgoto correra para dentro da boca de lobo. Ela me olhou, nitidamente incomodada com o que vira. Por outro lado, ela sabia que ali, independentemente de famintos e ratos, era um local por mim adotado, onde muitas vezes solitariamente sentei apenas para deixar os pensamentos fluírem, ouvir conversas de desconhecidos, meditar.

Fiquei um tanto constrangido, obviamente, mas sem culpa, pois nessa noite tudo que experimentamos nesse bar, principalmente as nossas conversas, me fez ter a certeza de o quanto é bom tê-la por perto.

11 setembro 2013

Navegantes - Programa 3

"Ikó-Eté"


 
Quando: 21 de setembro de 2013
Onde: Editora FiloCzar - Rua Durval Guerra de Azevedo, 511 Pq. Sto. Antônio
Horário: 17h
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"COHAB"
SP / 9 minutos / 2013
Dir: Lincoln Péricles
Sinopse: Meu prédio: o horizonte, as crianças, os amigos, os blocos. Um dia sóbrio no bairro do Capão Redondo, periferia de São Paulo.

"O PACOTE"
SP / 18 minutos / 2013
Dir: Rafael Aidar
Sinopse: Em uma nova escola, os jovens Leandro e Jefferson formam uma ligação instantânea e logo percebem que não se trata de uma amizade comum. Mas Jeff tem algo a dizer. Se eles querem ficar juntos, Leandro deverá lidar com algo irreversível. Algo que faz parte do pacote.

"IKÓ-ETÉ"
PB / 9 minutos / 2012
Dir: Torquato Joel
Sinopse: O que acontece quando surta um remanescente dos potiguaras, um dos povos mais bravios e resistentes da costa brasileira durante a primeira ocupação, no período colonial.

"CÂMARA ESCURA"
PE / 21 minutos / 2012
Dir: Marcelo Pedroso
Sinopse: Quando as imagens dos objetos iluminados penetram num compartimento escuro através de um pequeno orifício e se recebem sobre um papel branco situado a uma certa distância desse orifício, veem-se no papel os objetos invertidos com suas formas e cores próprias.

29 julho 2013

Onde estará Vincent Vega?


"Eu não consigo ver o suor em seus ombros, eles apenas me desafiam"

Foi isso que ele falou no ouvido dela enquanto caminhavam pelas ruas planas da zona leste numa noite quente de inverno. Ela não respondeu nada, seu silêncio era a sua arma e no fundo de sua alma a impaciência lhe formigava o fígado.

Desde que deixaram o metrô para trás e buscavam o mais rápido possível chegar ao apartamento de uma tal Renata, ela não compreendia mais o sentido daquela companhia, o suor ensopando sua camiseta lisa e o cara veio falar dos seus ombros, que ela os considera muito feios. Genética, herdou da mãe, da vó e de muita gente.

Uma camiseta causou a aproximação. Que raiva hoje ela sente desse seu passado de camisetas que precisavam significar alguma coisa. Num boteco de cerveja barata e pessoas interessantes ele perguntou a ela: "silk and the banshees, é um trocadilho bem infame na sua camiseta, não é?". Hoje ela não entende porque isso a conquistou.

Renata era o limite. Com o suor escorrendo pela nuca ela se recusaria a entrar naquela reunião idiota de amigos e diria a ele que acabou. Chega!

O fígado pedia para ser massacrado, o alívio nas suas entranhas exigia beber até a noite nunca acabar. Percorreu seus guetos e suou dançando, suou conversando com amigos e amigas, amanheceu suada. Enfim, o dia seguinte.

Ficou nua em frente ao espelho, cambaleando e com o mundo girando ao seu redor. Tentou, tentou e tentou ver algum charme em seus ombros ossudos. Bêbada, jamais discerniria alguma coisa, apenas sabia que seus pés eram fantásticos e desejou uma massagem.

Sonhou com Mia Wallace.