08 fevereiro 2013

Massarandupió

Uma coisa não se pode negar do Brasil: é a terra dos paraísos terrenos!

E um dos paraísos dessa terra de Vera Cruz se chama Massarandupió, um vilarejo no litoral norte do estado da Bahia, numa região conhecida como Linha Verde.



Como chegar:
Massarandupió está aproximadamente 1:30h de Salvador, para ir de carro pega-se a BA099 e a entrada para a cidade está no km88.
De  Salvador não tem nenhum ônibus que vá para Massarandupió, da rodoviária pode-se pegar um coletivo que vá pra cidade de Entre Rios e pedir pra descer na estrada na entrada da cidade, daqui é necessário combinar com alguém da cidade para lhe pegar.

Bem, Massarandupió não tem asfalto, são ruas de terra, maioria da população é local, telefonia móvel e internet não pegam bem, não tem lan house; não há agências bancárias, muito menos caixas eletrônicos; conta-se nos dedos os estabelecimentos que aceitam cartões para pagamento (praticamente só as pousadas).

Lugar para esquecer do mundo e se libertar, ótimo para reencontrar a si mesmo.




Vamos à praia:
A praia não fica exatamente na cidade, pois faz parte de uma reserva ambiental. A praia está a 3km do vilarejo e o caminho é uma estrada por dentro dessa reserva. A caminhada leva aproximadamente 50 minutos, mas para quem não é turista motorizado, sempre aparecem caronas pelo caminho, o que é uma boa forma de socializar não somente com outros turistas mas também com os moradores da região.
A praia é dividas em três áreas: Praia Convencional, Praia da Barra e a Reserva Naturista.

E sim, é um paraiso:

 




O banho de mar é uma delícia, as águas não são calmas, puxam bastante, mas nada que se torne perigoso, claro que com crianças a atenção é redobrada.

A praia é muito extensa, portanto ótima para longas caminhadas e é muito fácil ficar isolado numa parte dela.

Monitorada pelo projeto Tamar, a praia é local para desova de tartarugas marinhas. Ao longo de toda a sua extensão existem estacas que indicam onde foram depositados os ovos pelas mamães tartarugas.

 

Naturismo:
Massarandupió é bastante conhecida pela prática do naturismo, inclusive é a maior praia em extensão de naturismo, são aproximadamente 2km. Por lá passam turistas de diversos cantos do Brasil.
A área naturista é reservada e possui um código de ética da Federação Brasileira de Naturismo.
Na parte naturista possui uma barraca que serve comidas e bebidas.
Para conhecer mais sobre o naturismo e deixar de lado tabus ou preconceitos, clique aqui em Brasil Naturista.

Do naturismo passarei para a pousada Rio e Mar, uma boa opção para se hospedar em Massará, como é chamada a cidade pelos locais. Os donos, Lourdes e Edilson, possuem uma simpatia, atenção e carinho que são ímpares. Eles são os fundadores da praia naturista em Massarandupió. Para conhecer mais sobre a pousada clique aqui.



Na parte conhecida como Praia da Barra, é um local bem bonito pois ali ocorre o encontro do rio com o mar. É uma área bem deserta e sem estrutura de barracas de serviços.




Na praia convencional há algumas barracas que servem bebidas e comidas. Como mencionei acima, a praia está dentro de uma reserva ambiental, portanto não possui energia elétrica. Destaco duas barracas em especial. Em ambas o atendimento é atencioso e com boas opções para petiscar e comer.

A primeira é a do Juci:



A segunda é a barraca do Toinho:


 

Massarandupió é sem dúvida alguma um recanto bem especial, longe das especulações turísticas e imobiliárias, lá se preserva muitas essências, também há carências, principalmente para seus moradores mais pobres. A todos que lá um dia estiverem, por favor respeite com toda a reverência essa dádiva da natureza e ajude a preservar.







28 janeiro 2013

De muito longe

A lanterna iluminou um rádio de pilha, as mãos finas e delicadas da moça de cabelos castanhos curtos sintonizou uma rádio que tocava músicas tristes. Ao som dessas canções, a lanterna foi direcionada para um bloco de notas onde ela escreveu palavras felizes. Havia o desejo de chuva nos pensamentos daquela jovem. A escuridão precisava de poesia. O entusiasmo foi se perdendo à medida que os olhos cansavam. As músicas deixaram de ser tristes e o locutor relatou as notícias de um país distante. Ela adormeceu e sonhou como todos nós.

21 janeiro 2013

Normandia

A fraternidade daquele homem o levou à lua. Foi o primeiro comentário quando a descoberta do destino de Milton havia sido divulgada por todos os meios de comunicação. Mas como um desconhecido morador do jabaquara se tornou uma celebridade por conta de sua viagem espacial?

Dois anos antes, Milton estacionou seu carro na rua de um bairro nobre de São Paulo, e assim que desceu do veículo foi abordado por uma jovem que se apresentou com um nome incomum. Ela lhe perguntou onde ficava o veterinário mais próximo, e Milton, com toda a sua gentileza, respondeu que não era do bairro e que não conhecia nenhum doutor para animais.

A jovem de nome estranho seguiu seu caminho pela calçada e poucos metros depois desmaiou. Milton observou aquilo por alguns instantes e na sequencia teve um ataque súbito de riso, ria tanto que não conseguia se controlar.

Uma senhora que passava pelo local correu para ajudar a moça, que aos poucos foi retomando os sentidos. Milton não conseguia parar de rir e quando se deu conta viu a moça vindo em sua direção. Segurando o riso, Milton pediu desculpas e perguntou se não era melhor ela procurar um médico.

Milton não conseguiu segurar e se contorcia de tanto rir.

Dona de um nome impronunciável, a moça  rasgou o abdomen de Milton com um estilete.

Aos 45 anos de idade, Milton mergulhou num coma que lhe fez estar ausente no nascimento de seu primeiro neto.

Milton acordou durante uma madrugada silenciosa, levantou do seu leito no hospital e caminhou pelos corredores. Duas enfermeiras o reconheceram e se aproximaram, Milton apenas disse: "preciso de ajuda". Cada enfermeira ligou uma lanterna e as direcionaram para o rosto de Milton, que ofuscado pela luz soltou um grito.

Os familiares de Milton se desesperaram. O paradeiro daquele homem após dois anos de um coma profundo era totalmente desconhecido. Um mistério angustiante que desafiou todas as imaginações.

Milton estava na lua junto com outros astronautas russos e muitas lendas a respeito de sua personalidade foram criadas. A principal delas se referia às suas ações fraternas pelas ruas do mundo, um anjo desconhecido que auxiliava os mais fracos.

Aos dois anos de idade, o neto de Milton puxou o dedo do avô para acordá-lo.

29 novembro 2012

Com uma mala cheia de conselhos

Hoje faz 21 anos que cheguei em São Paulo e fiquei.

O vôo da VASP que me levaria à paulicéia partiria por volta das 14h de Manaus. Acordei tranquilo, um tanto ansioso, mas sem um sentimento de despedida, pois na verdade a única condição para que eu não voltasse seria passar no vestibular, fato que eu não estava tão seguro que aconteceria. Também nenhum medo ou alfição passava na minha cabeça, eu estava indo pra casa do meu pai e isso me dava uma certa segurança.

O dia foi uma grande correria para arrumar as últimas coisas, minha mãe enchia minha mala mais com conselhos do que com qualquer outra coisa. Na minha mente eu ficava imaginando o que seria estar numa cidade com mais de 100 cinemas, naquela época Manaus possuía umas 6 ou 8 salas, no máximo.

Cine Chaplin em Manaus, onde assisti a muitos filmes. na infância e adolescência.

Outras coisas que passavam pela minha cabeça: ver jogos da liga mundial de volei, ir a shows de rock, comprar discos raros e ver o Flamengo no estádio. Enfim, São Paulo representava a verdadeira terra prometida de todas as minhas carências esportivas-musicais.

Lourdes, uma grande amiga da minha mãe desde os tempos da faculdade até hoje, se ofereceu para me levar ao aeroporto. Fomos minha mãe, minha vó e minha irmã que na época tinha 5 anos de idade. Antes de entrar na sala de embarque me despedi de todas elas com abraços e de repente eu olho pra minha mãe e pela primeira vez na vida eu vi lágrimas em seus olhos.

Obviamente eu já havia visto minha mãe muito nervosa em diversos momentos, mas aquele tipo de emoção era inédito pra mim, apesar de uma dificuldade ou outra o ambiente em casa sempre foi de muita leveza, carinho, alegria, sem melancolias.

Minha mãe não estava exatamente chorando, mas seus olhos estavam bem úmidos e ela nitidamente estava segurando a sua emoção. Curiosamente não entendi muito aquele momento,  lá no fundo eu não via aquilo como uma despedida, sei lá, eu achava que muito em breve estaria de volta. Hoje acredito que de algum modo ela sentia que havia chegado a hora do filho sair do ninho de vez. Aquelas lágrimas estavam certas.

Fiz o check in e fui à sala de embarque.  Já com um espírito de independência, fui à lanchonete e pedi uma cerveja, uma skol em lata. Sim, o atendente vendeu bebida alcóolica a um menor de 17 anos sem perguntar nada. 

Eu havia conhecido São Paulo quando criança, e isso talvez me deixou com uma sensação de que eu não estava mergulhando num terreno totalmente desconhecido. Algo me excitava, o que minimizou a despedida de uma relação com Manaus que jamais voltaria. Sem me dar conta, eu estava inserindo um novo marco zero na minha vida.

Embarquei no avião airbus A300 num vôo que faria escala em Brasília portando um walkman com o som da banda Fleetwood Mac gravado numa fita cassete. O número de salas de cinema em São Paulo não saía da minha cabeça. Mesmo sabendo que dali a dois dias eu prestaria o vestibular para o curso de engenharia.

Estávamos em 1991 e o Collor ainda era presidente.

A aeronave começou a taxear, saiu do terminal e ficou parada alguns minutos antes de se dirigir à pista para decolar. Nesse momento, olhei na direção do aeroporto e pude ver no terraço, escoradas no parapeito, minha mãe, minha vó, minha irmã e uma quarta mulher. Ninguém mais.

Essa imagem se fixou em minha memória com uma força incrível.

Foi então que eu senti o peso daquela partida.


 Não passei no vestibular e uma nova história começou.
 

11 novembro 2012

Kaliningrado

Na calçada ela encontrou uma pequena carteira vermelha, olhou para os lados e pegou o acessório em movimentos bem rápidos. Soraia resolveu abrir a carteira. Estava vazia.

A mãe de Soraia morava num apartamento bem charmoso, poucos móveis e bem decorado. Ao receber da filha a carteira vermelha encontrada na rua, a reação da mulher de 50 anos foi dizer que não havia espaço nem pra moedas e que não conseguia ver uma utilidade para um objeto como aquele. Soraia tentou convencê-la a ficar com a carteira e o que se sucedeu foi uma interminável discussão entre mãe e filha.

Naquela noite Soraia foi a um clube noturno e dançou muito.

Tudo que Soraia, mística e esotérica, compreendia era que aquela carteira naquela calçada teve a cósmica função de agravar o seu conturbado relacionamento com a sua genitora. Soraia sentia revolta. Soraia teve um plano.

“Ao encontrar essa carteira, por favor me escreva dizendo o que aconteceu com você no dia seguinte, bjs Lua escrevapralua@gmail.com”. Foi esse o bilhete que ela deixou no interior da carteira antes de abandoná-la num centro comercial.

Seis dias depois ela recebeu a seguinte mensagem:

“Oi Lua,

Não aconteceu nada!

Bjs

Sol”.

Além da frustração com a lacônica resposta, Soraia nadou na dúvida se Sol era do sexo masculino ou feminino. Prudentemente, resolveu não responder ao email para sanar sua dúvida.

Sim, Soraia possuía perguntas sem respostas e precisava aprender a conviver com isso.

Soraia esqueceu da carteira vermelha e recentemente visitou a sua mãe. Brigaram novamente por causa de uma prima que fuma maconha.

23 outubro 2012

Nem Tudo é Preto e Nem Tudo é Branco

A polarização é uma tendência comum e algumas vezes sinto que as pessoas se sentem confortáveis em polarizar opiniões, modos de viver, pessoas, pensamentos e principalmente pontos de vista. Ao polarizarmos as coisas, verifico que jogamos fora o que talvez seja mais rico nas relações humanas que são as nuances e principalmente a real possibilidade de aproximação.

Nem tudo é preto e nem tudo é branco.

Considero a frase acima um bom ponto de partida para ressaltarmos algumas questões que estão no filme francês "Intocáveis", dirigido por Eric Toledano e Olivier Nacache. Esse filme me surpreendeu, fui assistir a ele com alguns receios, principalmente se haveria um tom melodramático ao extremo ou insuportavelmente existencialista.

Sim, é um filme existencialista, mas que não opera com extremismos e sua narrativa flui muito bem pontuando de forma adequada os principais elementos dramáticos, como os personagens bem definidos e com funções expressivas para dar conta do delicado enredo. O filme é baseado em fatos reais e conta a história de um milionário tetraplégico que aposta na contratação de um negro imigrante da periferia pobre de Paris para ser seu cuidador.

Para além do existencialismo, acredito que "Intocáveis" traz uma reflexão social contundente. Polarizando apenas inicialmente, enxergo que o filme tem numa ponta a burguesia tetraplégica e na outra todas as energias e defeitos possíveis do imigrante. Porém o filme se despolariza quando a mente dessa burguesia, a sua unica coisa funcional, resolve se abrir para a aproximação do seu oposto social.

O resultado é uma das expressões humanistas mais sólidas que vi recentemente no cinema. Todos os valores burgueses apresentados no filme soam como veículos podres num estacionamento abandonado, porém eles se movimentam, não são tetraplégicos e buscam se impor de uma forma visivelmente inadequada. O humanismo do filme se estabelece por não criar vitimização no personagem imigrante e muito menos em relação aos seus parentes e amigos da periferia parisiense.

Lançando-se em sentido contrário, "Intocáveis" mostra que a aproximação de opostos sociais não representa a soluçao dos problemas de nenhum dos lados, ela expõe que basta não enrijecer padrões e pensamentos. Continuamos sempre com todos os conflitos e desafios aos quais a vida nos leva.

22 outubro 2012

Em Salvador

Fui a Salvador para participar do Festival Nacional 5 Minutos, dedicado à produção de curtas com até 5 minutos de duração. O festival é bem charmoso, publico participativo e um espirito jovem com a presença de realizadores de várias idades e de cantos diversos do país.

Segue aqui os poucos registros que fiz dessa minha primeira visita a Salvador.

BAR DO ESPANHA. Boteco antigo localizado em frente à Sala Walter da Silveira, onde aconteceram as exibições do Festival 5 Minutos. O nome do bar vem do antigo proprietário que é espanhol. Antigo, cerveja barata, um ótimo sanduíche de pernil e boas conversas.



PELOURINHO. Passei uma tarde inteira percorrendo as ruas do Pelourinho. Abaixo estou num pátio interno da Igreja da Ordem 3ª dos Franciscanos, lugar agradável, silencioso e com a bela companhia de um relógio de sol. Mas gostaria de ressaltar outros dois lugares do Pelourinho que são marcos do cinema nacional, um deles é a igreja e a escadaria onde foi rodado "O Pagador de Promessas", e o outro, ao lado dessa escadaria, é o ateliê de Jayme Figura, onde foi rodado o curta "O Sarcófago", de Daniel Lisboa. E bem ao lado desses dois marcos há um boteco de primeira: o Bar do Carmo. Ao final da visita ao Pelourinho desci e subi o elevador Lacerda para visitar o Mecardo Modelo.


PRAIA DO FLAMENGO. Sim, em Salvador também tem uma praia com esse nome. A sugestão foi de Daniel Lisboa, que considera que talvez eu seja o único sujeito na história que pegou um ônibus do Porto da Barra até essa praia. Foi uma hora pra ir e uma hora e meia pra voltar em ônibus urbano preço da passagem R$2,80 em outubro de 2012. Porém, como vocês podem perceber abaixo, o esforço foi recompensadíssimo. A viagem de ônibus foi massa porque percorreu toda a orla de Salvador e assim fui conhecendo todas as praias com um visual belissimo do mar. Passei pela famosa Itapoã, que apesar de todas as críticas, é arrumadinha, mas realmente pouco recomendada. Passei mais de três horas na praia do Flamengo, um descanso agradável, brisa e um bom banho de mar.



Conheci também: Acarajé da Dinha, Acarajé da Rosa (em frente à Biblioteca Publica nos Barris), praia do Porto da Barra, Farol da Barra, restaurante Líder (famoso por seu sanduíche de pernil), Cinema Glauber Rocha Espaço Itau de Cinema, Corredor da Vitória, Rio Vermelho, boteco na rua Carlos Gomes esquina com a ladeira da Lama, bar Ancora do Marujo (também na Carlos Gomes), Arena Fonte Nova (em construção).