30 setembro 2009

O dia em que os feriados acabaram

Com mochila nas costas e sentado num banco de plástico vermelho. Era assim que eu estava comendo um delicioso pastel no Pastel da Maria.

Estádio do Pacaembu ao fundo, garoa fina e clima frio.
Curioso para quem poucos dias antes desfrutava do calor e sol potiguares, mas nada de reclamar, pois com certeza essa terça-feira ficará guardada de forma feliz junto com outras boas lembranças.

Finalizei meu gelado suco de uva, paguei e deixei para trás a barraca da Maria, que naquele momento estava nos preparativos para uma entrevista ao vivo na Band. Me dirigi ao estádio, mais especificamente ao Museu do Futebol para falar com Luciano, responsável pelos eventos no museu, sobre as sessões do programa "Unidos na Paixão" dentro da programação de aniversário de um ano desse local que se tornou uma parada obrigatória a todos que visitam nossa cidade.

Após acertar os detalhes fui conhecer o museu.
Pois é, declaradamente fã de futebol, morador de São Paulo, o Pacaembu é perto tanto da minha casa quando do meu trabalho, e ao longo de um ano eu nunca havia entrado ali. Mas enfim, essas coisas acontecem. Obviedades e pragmatismos são assuntos do século passado (aquele chamado vinte).

Da entrada ao final, a experiência no museu é muito particular.

E a terça-feira se tornou única pelo momento que vivi à frente de uma tela na qual o visitante pode escolher um gol para ver ou rever, sempre comentado por alguma figura do meio boleiro. De primeira escolhi Flamengo 1 x 0 Vasco na final do carioca de 1978, que deu início a um dos períodos mais cheios de glórias do meu mengão, e é sempre bom ver o vicevasquinho tomar gol. Em seguida o gol do Nunes na conquista do primeiro brasileiro em 1980 (Flamengo 3 x 2 Atlético/MG). Por fim resolvi ver o gol do italiano Paolo Rossi na derrota brasileira na Copa da Espanha.

Segundos depois meus olhos estavam úmidos.

Se existe uma recordação de infância marcante, sem dúvida foi aquela segunda-feira 5 de julho de 1982. A partir do ponto de vista de um garoto de 7 anos, tudo em volta era euforia naquela copa, a primeira da qual me lembro. A festa havia começado bem antes do mundial, todos falavam da seleção e a minha ansiedade em saber como era uma copa crescia a cada dia. Começa o torneio, ruas pintadas, tudo colorido e os dias de jogos da seleção eram feriados na essência.

Até que chega o jogo contra a Itália.

Ver novamente aquelas cenas no museu me jogou diretamente para a casa no bairro do Vieralves em Manaus, onde eu estava com a minha mãe e outros amigos dela. O Brasil passava sufoco, mas era o Brasil de Falcão, cuja comemoração do gol de empate é a imagem mais marcante que tenho, com ele eu gritei e pulei assim como todos em minha volta, a seleção chegaria lá. Não chegou.

O gol de Paolo Rossi era inaceitável. Um silêncio estranho.

Terminou o jogo e tudo era esquisito, não parecia real. Eu não conseguia me acostumar com a idéia que não haveria outro jogo do Brasil naquela copa.
Os feriados acabaram!

O vídeo também acabou e eu fiquei parado por um breve momento, era minha infância revisitada de uma forma diferente. Uma época distante, que pertence ao século chamado vinte, assim como aquela copa.

E na ansiedade de ter uma copa muito mais perto de mim em 2014, saí do museu com a plena convicção de que muita coisa vale a pena nessa existência, não importa o século.

21 setembro 2009

Goiamum: primeiras noites

Já passam das 21h de um domingo, e ao ar livre um grupo de pessoas discute vários temas ligados a um documentário chamado "Sangue do Barro", de Fábio DeSilva e Maryland Brito, que foi exibido ali em praça pública. Esse vídeo é uma produção do Rio Grande do Norte para o DocTV e é sobre um fato que aconteceu em uma cidade do interior potiguar onde um homem chamado Genildo fez uma chacina e matou 14 pessoas. O debate é caloroso principalmente por levantar a questão da homofobia, que aparece no documentário como um das possíveis motivações de Genildo, cujos rumores na cidade de que ele havia largado a esposa por ser homossexual lhe causaram transtornos que resultaram na matança.

Noite de segunda. Mesma praça.
Na tela trechos de "A Idade da Terra" de Glauber Rocha, e um senhor, que se protege do sereno utilizando uma curiosa cartola verde amarela, trafega entre as cadeiras para o público e, por algumas vezes, passa em frente ao projetor gerando na projeção lindas silhuetas negras de sua cartola. Até que surge na obra de Glauber Rocha Antônio Pitanga totalmente desnudo pulando de cima de uma árvore. Eis que a Cartola Negra se fixa na Tela Branca. Escondendo em alguns raros momentos o sexo de Pitanga, o nosso personagem da cartola se transforma também em uma das enigmáticas e alegóricas criações de Glauber. Pedro, um entusiasmado jovem organizador do Goiamum, se aproxima do homem da Cartola, não sabe o que fazer, trocam algumas palavras, mas o homem continua em frente ao projetor e a Cartola Negra continua na tela. Pedro desiste e depois de mais um tempo o homem que interagiu com Glauber também desiste, segue seu caminho e sua cartola verde amarela continua em sua cabeça recebendo o frescor do sereno de Natal.

Exibição ao ar livre tem seu charme, e em Natal não poderia ser diferente com o Goiamum Audiovisual, que tem uma peculiar energia. Energia que vem de um lado pelo Cineclube Natal, responsável em pensar a programação, e por outro lado com a Zoon, uma produtora local muito antenada com novas alternativas de desenvolver o audiovisual no estado. Junção bem desenhada e que promove uma diversificada malha de atividades ao longo de duas semanas na capital potiguar.

O telefone tocou, hora de ir para mais uma noite ao ar livre.

19 setembro 2009

Lagoa

O sol cansava a vista, toda a luz daquele momento parecia conspirar contra qualquer possibilidade de lucidez.

Um rei esperava a sua rainha. Mas que tipo de distância os separava? O rei sabia que em algum momento praticou o pior tipo de soberania sobre os protegidos de sua rainha. Fez tratados sórdidos, trocou favores escusos e tramou contra a vida de muitos que apenas tinham a própria existência como moeda de troca.

A rainha sentia o peso da humilhação.

Enxugou o suor de seus seios e ficou parada debaixo de uma árvore, seus pés latejavam de dor. Resolveu não mais seguir. Não conseguia imaginar a distância naquele momento. A rainha descansou e quis não acreditar que seu sono acontecia longe de seus ricos e confortáveis leitos, mas tudo era mais forte.

O rei mordia os próprios lábios. Na sua mão suada um pedaço de papel que ele desejou nunca ter existido começava a se umedecer. Nas linhas escritas às pressas estava uma grave advertência: que o rei não tentasse nenhum resgate, ela tiraria a própria vida.

Dramático mas honesto, pensou a rainha.

Ao acordar lembrou de cada linha que escrevera. O sol ainda ardia em sua nuca e quis refrescar os pés. Como encontraria uma lagoa naqueles rincões do reino? Não sabia o que fazer e lembrou de um provérbio que escutara quando era criança.

“A única distância entre você e o paraíso é o piscar dos seus olhos, e quando esse piscar tem a duração de um sonho, descobres que o paraíso também envelhece”.

Ela voltará, repetia o rei. Nunca se soube de onde ele tinha isso como certo, talvez a sua loucura estivesse nas suas certezas. E todos dizem que quando o sol se escondeu atrás das nuvens e um leve frescor surgiu no enorme salão, o rei gritou e expressou sua raiva golpeando fortemente sua cabeça contra a mesa de madeira.

Seguindo a trilha de sua fuga, a rainha caminhou em passos apressados. Nenhum cansaço lhe tiraria a determinação de encontrar a lagoa para seus pés. Molhou um lenço em sua testa e o sugou com toda a força de sua boca.

No salão do reino uma espessa mancha de sangue escorria pela mesa.

Na frente dos olhos da rainha nenhum paraíso surgia.

O reino estava sem herdeiros.

E por longos séculos uma rainha foi vista vagando pelos cantos mais remotos daquele reino. Sempre em dias de forte sol e calor.

05 setembro 2009

Flerte de um silêncio

Costumava ser uma sombra
Flertou com uma brisa
E o silêncio de uma dor surgiu

Suportou

Ali havia esperança

03 setembro 2009

Água Provinciana

Um carro pára na chuva, o motorista olha pelo retrovisor e vê a pista seca, ele dá ré até o local seco e resolve descer do carro. Ele encontra um guarda-chuva e vê seu carro indo embora, sozinho.

A chuva dá ré e o motorista começa a correr, a chuva tenta alcançá-lo quando de repente ele vê o seu carro vindo em sua direção.

Ele abre o guarda-chuva e corre na direção do carro, mas o carro vai freando até parar bem na frente dele. Ofegante, ele olha para trás e percebe que não tem mais chuva, fecha o guarda-chuva e entra no carro. Quando ele dá a partida começa a chover intensamente somente dentro do automóvel.

30 agosto 2009

O limbo de MK

MK sabia que estava muito perto de todos que queria encontrar, mas por algum motivo não entrou na rua certa. Eram 16 horas e MK tinha exatamente cinco minutos para chegar, caso contrário ficaria de fora.

MK sempre gostou de ser pontual, mas naquele dia isso falharia, pois na noite anterior estivera nos fundos de um bar, rindo à toa e com os olhos fixos num objetivo muito claro, mas nada aconteceu e foi pra casa com a certeza de que havia sido mais uma noite perdida. É incrível imaginar o quanto de nosso tempo passamos mergulhados em uma busca frenética, MK acordou com esse pensamento.

Os cinco minutos se passaram e MK resolveu usar seu celular, tentou explicar mas de nada adiantou. Todos lhe escaparam por conta de uma pontualidade idiota, assim a definiu MK.

MK não conseguiu alcançar dois desejos em menos de 24 horas, sentia que tudo lhe parecia um limbo, de onde não conseguia sair, desejou desabafar com alguém. Mas seria impossível obter uma real compreensão de qualquer interlocutor. Calculou que o seu desejo da noite anterior era mais forte que o daquela tarde, sabia ainda que esse último não foi alcançado por conta do primeiro.

Porém tudo era realmente um limbo, as ruas se entrelaçaram à frente de MK e o fim de tarde lhe parecia assustador, não queria mais estar ali. MK usou novamente o celular, pediu ajuda e se tranquilizou momentaneamente até descobrir que o auxílio demoraria pelo menos três horas para chegar.

Um gosto amargo apareceu na boca de MK.

Muitos carros circulavam na pequena via em que se encontrava, o barulho lhe incomodava, diferente do ensurdecedor vozerio da noite anterior naquele bar escuro e apertado. O limbo parecia uma estufa de teto baixo, sufocante pela sensação de estar longe de tudo, MK descobriu que a sua solidão alcançou um nível extremo.

MK desistiu e pensou por onde poderia recomeçar, percebeu então que o início é o segundo seguinte e nada deveria ser feito enquanto o limbo não fosse superado.

Não há mais notícias de MK, a lenda mais difundida é que MK se apaixonou novamente.

24 fevereiro 2009

Carnaval e Coração

A Mocidade Alegre acabou de vencer o carnaval aqui em São Paulo, o tema foi o coração, o que levou meu pai, cardiologista, a desfilar no Anhembi pela segunda vez. Pois é, a primeira foi por conta de uma de suas paixões: a Colômbia; e dessa vez foi sua outra paixão: a profissão que exerce há 34 anos.

Trinta e quatro anos tenho eu também, e uma de minhas paixões é o Clube de Regatas Flamengo, que iniciou o carnaval 2009 deixando toda uma nação triste e decepcionada ao sofrer uma derrota para o Resende. Nunca ouviu falar nesse time? Procure no Google, mas evite a notícia do placar de sábado passado. Porém no crepúsculo dessa terça-feira de carnaval descobri algo bem inusitado.

Ali estava eu no sofá, clico no controle remoto e está iniciando um programa ótimo do SporTV, "Encontros para a História", e no encontro da vez estavam escalados Neguinho da Beija-Flor e Júnior. A conversa foi ótima, cheia de emoções (para lágrimas) e diversões (para risadas), mas foi uma resposta do Júnior que fez meu coração rubro-negro emocionadamente bater ainda mais forte.

O jornalista perguntou ao Júnior qual o momento mais marcante de sua carreira, ele responde que é comum ir para algo mais pessoal e narrou uma história que, segundo ele, nunca vai cansar de falar sobre ela. Ele estava jogando na Itália, já há uns 5 anos, e o Zico deu um VHS com várias imagens de seus gols ao filho do Júnior chamado Rodrigo.

Um dia Junior chegou em casa e seu filho estava vendo essa fita.
Rodrigo perguntou ao pai:
-Pai, quando eu vou te ver jogar no Maracanã?

Isso desabou o ídolo rubro-negro que pensou: vou voltar ao Brasil agora!
Era um momento delicado, pois Júnior estava com 35 anos, mas mesmo assim decidiu e veio jogar novamente no Flamengo.
Aí ele conta que quando o Flamengo ganhou o carioca em 1991 em cima do Fluminense e ao terminar o jogo ele foi abraçar seu filho, que chorava na beira do gramado, simplesmente esse momento se tornou um dos mais significativos pra ele.

E onde eu entro? Bem, graças ao Certo Flamenguista Rodrigo, o flamenguista aqui pôde ver o Júnior jogar ao vivo no ano de 1992, e para um rubro-negro que não viu nos gramados aquele Flamengo campeão do mundo no início dos anos 80, quando Júnior e companhia esbajavam um belissimo futebol, isso sem dúvida era uma dádiva muito grande.

Como foi bom ver o camisa 5 com todo o seu talento! E com um desfecho fabuloso: o Mengão foi campeão brasileiro de 92.

Obrigado Rodrigo, obrigado Júnior.

09 fevereiro 2009

Meninos, eu não ouvi

[Abaixo segue um texto de Reignaldo Veloso, amigo e companheiro, sobre a celebração do centenário do nascimento de Dom Hélder]

Recife, 08.02.09

Foi muito bom, foi uma graça, ter tido Dom Geraldo Lírio, Presidente da CNBB, na presidência da celebração de ação de graças pelo Centenário de Nascimento de Dom Helder Câmara, muito embora tenha sentido a ausência de Dom Paulo Evaristo Arns, de Dom José Maria Pires, Dom Thomás Balduíno, de Dom Valdir Calheiros, de Dom Clemente Isnard, de Dom Pedro Casaldáliga, Dom Orlando Dotti, de Dom Angélico Sândalo, de Dom Moacyr Greick, de Dom Erwin Kräutler, de Dom Afonso Gregori, de Dom Manoel João Francisco, de Dom Franco Masserdotti, de remanescentes da mais significativa e honrosa plêiade de pastores que esse país já conheceu, mandados por Deus, em boa hora, para resgatar a essência do Evangelho, o compromisso com o excluído, no seio de uma Igreja, que tem passado séculos tentando alargar o buraco da agulha e emagrecer o camelo. Certamente, estes evangélicos pastores não foram representados por Dom José Cardoso Sobrinho, Sua Excelência o Indesejado, cuja presença foi a nota mais destoante deste inesquecível evento.

Foi muito bom o devoto Senador Marco Maciel ter escutado da boca do Presidente da CNBB o relato bastante detalhado sobre o que significou para a Igreja e, particularmente, para a pessoa e o ministério de Dom Helder, textualmente, “o Golpe militar”, que implantou no país a mais longa e cruel ditadura da sua história, decretou o silêncio, a não existência do Bispo dos Pobres e engendrou o assassinato do Pe. Antônio Henrique Pereira Neto (dia 27.05.69, o seu martírio completará 40 anos! E é bem provável que o Senador saiba quem possa ter sido o responsável).

Mas teria sido muito bom que a profética homilia de Dom Geraldo, tão explícita sobre a ditadura militar, tivesse sido igualmente explícita com relação à ditadura eclesiástica que fechou o Instituto de Teologia do Recife, o ITER, e o Seminário do Regional Nordeste 2, o SERENE 2. Sua Excelência, o arcebispo merecia ter passado pelo mesmo constrangimento que Sua Eminência, mo Senador. Pe. José Comblim, Prof. Zildo Rocha, Dom Sebastião Armando, Bispo Anglicano, Pe. Ernane Pinheiro, que estiveram à frente dessas duas importantes criações do gênio pastoral de Dom Helder, e estavam presentes à celebração do seu Centenário... o antropólogo José Maria Tavares, que chegara de Estrasburgo e fora seminarista da primeira leva do SERENE e de estudantes do ITER... os professores Degislando e Artur Peregrino, da UNICAP, que participaram das últimas turmas do ITER e do SERENE... Ir. Visitatio e Ir. Ivone Gerbara, que talvez aí estiveram, mas não cheguei a vê-las... e muitos outros e outras, padres, religiosas e agentes pastorais aí presentes... todos eles e elas mereciam ter ouvido uma palavra que, de certa forma, resgatasse o mérito de um Seminário e de um Instituto de Teologia, criados para formar presbíteros e animadores pastorais, capazes de se inserirem no meio do povo da periferia, como pobres no meio dos pobres, a fim de caminhar com eles para um mundo de dignidade, de justiça, onde todos pudessem “ter vida e vida em plenitude”, sonho de Dom Helder e, muito antes dele, do Mestre dos Mestres, JESUS.

Dom Geraldo, o senhor terá tido seus motivos ou conveniências, facilmente compreensíveis e identificáveis nos meios clericais, mas ficou devendo a nós esta profecia, porque, no seio da própria Igreja, “eu tive fome e sede de justiça e não me destes de comer, nem me destes de beber; estive nu e desabrigado, doente, perseguido, preso, e não vos solidarizastes comigo”. Mas não seja por isso. O senhor ainda tem muito chão e muito tempo pela frente. Deus o abençoe em seu ministério episcopal, à frente da CNBB.

Reginaldo Veloso, presbítero das CEBs
Assessor do Movimento de Trabalhadores Cristãos
Consultor do Movimento de Adolescentes e Crianças
Mestre em Teologia, PUG, Roma 1962
Mestre em História da Igreja, PUG, Roma 1965

e-mail: reginaldoveloso@uol.com.br

09 janeiro 2009

Ali

Lígia foi para o extremo leste daquele continente.
Lá estava pronta para um documentário fazer
Família, parentes distantes, histórias antigas e recentes
Ligia olhou para o mar.
Ficar então decidiu e montou uma banda de rock.

21 dezembro 2008

Cabelos castanhos com luzes [PARTE II]

Primeira ligação.
Do outro lado uma voz rouca de mulher atendeu muito rápido, Maria gaguejou um pouco no início mas logo falou o que queria com muita segurança.

Antes da segunda ligação refletiu sobre a noite anterior e percebeu uma coisa que talvez tenha lhe magoado.

No balcão de um bar repousava um copo de cerveja, na testa suor e na cabeça uma crise infernal. O estrangeiro que não era estrangeiro não parava de pensar em Maria, porém percebeu o quanto foi rude, após o beijo da praça não guardou nada dela, nem telefone, nem e-mail, nada! Era só o começo.

Segunda ligação.
Ninguém atendeu.

Terceira ligação.
A amiga de Maria atendeu e disse que não podia fazer nada, se a segunda ligação não atendeu é porque não havia ninguém.
Sua nuca suava novamente.

Duas mulheres de cabelos amarelos faziam suas unhas, as suas manicures eram jovens e franzinas. Um falante cabeleireiro massageava a cabeça de Maria do lado oposto do apertado salão. Um ventilador no canto refrescava levemente o ambiente.
Os longos cabelos de Maria agora eram curtos, chanel.
Maria saiu do salão carregando uma charmosa bolsa de pano.

Forte calor. Maria atravessou a cidade.
Colocou sua bolsa de pano sobre um balcão e iniciou uma negociação que demorou muito mais do que ela gostaria que tivesse durado.
Enfim conseguiu um bom dinheiro por seus cabelos. Eles despertavam muito o desejo. Mas agora era passado, seu cabelo estava chanel e pronto.

Maria resolveu dois problemas de uma só vez: dispensou a peruca da segunda ligação e conseguiu o dinheiro que precisava para o assunto da primeira.

A mulher de voz rouca recebeu Maria num apartamento muito aconchegante. Maria tinha imaginação, por isso criou um universo bem diferente para aquele apartamento, havia gostado da idéia de imaginá-lo com cores escuras e fortes, e também com muitos gatos circulando pelos ambientes. Porém aquele lar possuía paredes de cores claras e um cachorrinho meigo. A mulher de voz rouca lhe entregou um papel excessivamente colorido, Maria prontamente repassou o dinheiro a ela, que não conferiu o valor e apenas orientou Maria para que não transformasse aquilo em vício.

O plano de Maria parecia um desafio, ela buscava uma aventura, sem dúvida. Ao pensar em aventura, novamente lembrou-se da noite anterior, não conseguia chegar a uma conclusão se havia gostado ou não, talvez não tenha entendido o desfecho. Resolveu não mais pensar nisso.

O estrangeiro que não era estrangeiro estava em outra cidade, talvez ali pudesse encontrar um pouco de Maria, lembrava dela nua na cama, de bruços, contando sobre os prazeres que aquela cidade pode oferecer, um lugar preparado para os errantes, para aqueles que mergulham no desejo de se perder. Ele percorria as ruas com Maria em seus pensamentos, não compreendia o porquê de sua ações naquela despedida em que sentiu o beijo dela pela última vez. Gostaria de encontrar Maria nem que fosse em outra mulher. Estava atordoado.
Transou intensamente com três prostitutas naquele dia.

Não tão longe desse sofrido amante, Maria desembarcava com seus cabelos curtos e o convite colorido.
Foi a um hotel e dormiu.

(continua...)

19 dezembro 2008

Centavos

Zélia faz faxina.
Cássia guarda os centavos.
Roberta pede para Cássia pintar seus cabelos.
Nena não gosta de Roberta.

Zélia faz novamente a faxina.
Cássia conta seus centavos.
Roberta não gosta da tinta de seus cabelos.
Nena transa com o namorado de Roberta.

Zélia não faz a faxina, acabou a água sanitária.
Cássia acha 10 centavos na calçada.
Roberta chora.
Nena cuida de uma velha senhora

Zélia é casada com o irmão de Cássia, que é namorado de Roberta.

Nena pinta seus cabelos de loiro.

16 dezembro 2008

A Janela de Bogdanovich

Num desses fins de ano em que passei em São Paulo busquei aproveitar o tempo para conhecer um período do cinema americano um tanto obscuro pra mim: os anos 70. Conheço uma certa filmografia dessa época como os filmes de Scorsese, Kubrick, Woody Allen, Spielberg, Altman, entre outros, mas queria ir além e conhecer outros filmes e diretores. A motivação para esse estudo surgiu quando assisti aos extras de Touro Indomável, onde em um determinado momento se comenta que muito provavelmente alguns anos depois de sua realização (1980) nenhum estúdio toparia produzi-lo. Será que este filme, além de ser uma das obras mais expressivas de Martin Scorsese, também estaria marcando o fim de uma era dentro do cinema americano? Isso talvez possa ser melhor digerido ao ler o livro "Easy Riders, Raging Bulls" de Peter Biskind, no qual ele aborda esse período dos anos 70 do cinema americano que na verdade tem sua gênese já no final dos anos 60. Longe de fazer uma análise detalhada desse período ou tentar um denominador comum entre os filmes, buscarei aqui expor um pouco de minhas impressões através de um filme de Peter Bogdanovich chamado "A Última Sessão de Cinema" (1971).

Nova-iorquino, filho de imigrantes sérvios, Bogdanovich inicou sua carreira programando filmes no MOMA de Nova York e também como critico de cinema, inspirado, não por acaso, nos ventos que chegavam na América a partir da Nouvelle Vague francesa. Aos 32 anos dirigiu "A Últiima Sessão de Cinema", um filme que se passa numa pequena cidade dos EUA no início dos anos 50, e que traz em sua narrativa as experiências vividas por jovens principalmente nas suas descobertas sobre sexo e amor. A cidade, situada no Texas, está em pleno declínio, e o vazio e a melancolia tediosa se manifesta no único cinema que ali existe e que está às vésperas de seu fechamento, causado principalmente pelo advento da televisão. Toda essa atmosfera de abandono e decadência está expressa na fotografia em preto e branco do filme, mas também nas relações entre seus personagens. Os adolescentes são os protagonistas, que ao investirem em suas descobertas encontram castelos de areia, que se desmancham pela falta de consistência gerada principalmente pelos valores que aquela pequena comunidade impõe aos seus habitantes, baseados na hipocrisia e numa falsa moral. Os adultos, coadjuvantes na história, representam a decadência em si, todas as perspectivas de suas vidas não extrapolam os limites daquela cidade que definha lentamente e promove distâncias entre as pessoas.

É um corte na montagem do filme que me chamou a atenção pelo seu significado dentro de toda a narrativa. Jeff Bridges interpreta Duane, um jovem inconseqüente que flerta desde o início com Jacy, interpretada pela jovem Cybill Shepherd, e que faz parte da elite da cidade. Chega o aguardado momento em que irão para a cama pela primeira vez, fato que gerara em Duane uma forte expectativa por se tratar de uma conquista comparável à vitória de um campeonato, principalmente por causa de sua condição social, inferior à dela. Eles se encontram em um simples motel, as amigas de Jacy aguardam ansiosamente do lado de fora. Porém a medida que as coisas evoluem dentro do quarto, Duane percebe que Jacy não corresponde em nada ao que ele esperava daquele encontro, e ela ao perceber que ele se frustrara, revolta-se e surge uma discussão na qual Duane não encontra argumentos e deixa o quarto. Ao sair, ele passa pela amigas de Jacy com um semblante de satisfação, as moças então adentram no quarto e encontram Jacy descabelada, enrolada no lençol e simulando que fora algo maravilhoso. Logo em seguida vemos vários jovens da cidade num coral na escola cantando em tons firmes uma canção de exaltação ao estado do Texas. Essas duas cenas justapostas, a hipocrisia de uma jovem perante as amigas e o hino a uma honra perdida no tempo, conseguiu resumir toda uma afirmação de valores decadentes da sociedade americana, que no início dos anos 70 estavam sendo questionados com toda força pelos jovens cineastas que então surgiam e traziam para as telas personagens como Duane e Jacy, cidadãos americanos sem glamour, pessoas comuns de cidades comuns e que vivenciam seus dilemas imersos em um vazio propiciado pelas exigências da sociedade para que eles sejam quem ela deseja que eles sejam e não eles mesmos, com seus defeitos e angústias.

Bogdanovich faz parte de uma geração que nos trouxe excelentes diretores como Scorsese, Terrence Malick, John Schlesinger, Cassavetes, cujos filmes desse período buscavam uma reflexão mais profunda da América em sua volta, cada filme era questionador, o que enriquece a função do cinema como uma janela para que possamos nos lançar no autoconhecimento e assim pensar no que realmente é preciso para transformar não somente a sociedade, mas também nossas relações mais próximas com os que nos cercam.

A Última Sessão de Cinema (The Last Picture Show), EUA, 1971.

04 dezembro 2008

Cabelos castanhos com luzes

Fazia muito calor.
Maria estava completamente suada. Não havia dançado, encontrava-se ali apenas para encontrar uma amiga de sua confiança. O lugar era muito abafado.

Cerca de 30 minutos antes, Maria fechava uma porta atrás de si, um estrangeiro lhe devia dinheiro e disse que não lhe pagaria nenhum tostão, não havia gostado do seu serviço. Calma, Maria não é garota de programa, ela é uma fazedora de desenhos. O dinheiro, pelo menos aquele, era essencial para o plano de Maria.

Porão, música alta, suor e uma frustração misturada com revolta percorriam as veias de Maria. Ela decide conversar.

Expõe tudo sobre o estrangeiro a um outro estrangeiro que não era estrangeiro, este lhe ouvia, opinava discretamente e aproximava cada vez mais o seu rosto do dela. O suor descia pela nuca de Maria, sua cabeça girava, tudo estava realmente confuso naquele momento. Maria tinha um plano.

O estrangeiro que não era estrangeiro desapareceu daquele porão, Maria se afastara dele por um momento, um outro escutador estava presente e parecia mais atraente. Na verdade, esse outro escutador não precisava escutar nada, Maria nada queria lhe contar, apenas lhe beijar.

Maria, com o plano plenamente concebido em sua cabeça, decide ir embora, não é possível precisar se o outro escutador trocou beijos com ela ou não. Maria já estava no pé da escada.

Duas horas antes, a amiga de Maria, por telefone, lhe falou da festa no porão abafado, fazia um tempo que elas não se viam. No plano de Maria essa sua amiga era fundamental, pois é uma pessoa comunicativa e que sabe fazer amizades muito rapidamente.

No porão, já com a nuca e a testa suando, Maria encontrou sua amiga com um grupo de estrangeiros. No intervalo entre o primeiro e o segundo escutador as duas conversaram muito rapidamente sobre o plano. Somente três pessoas escutaram Maria naquela noite. Sua amiga gostou daquilo que chamou de um dos planos mais engenhosos para se conseguir algo tão exótico, Maria tinha imaginação, era o que lhe levava a crer ter acertado ao seguir a profissão de fazedora de desenhos, muito ao contrário do que pensava o estrangeiro caloteiro. A amiga lhe deu dois números de telefone e falou: "Amanhã às duas da tarde".

Trinta minutos depois, ali estava Maria no pé da escada e de repente o estrangeiro que não era estrangeiro surge e aproxima o seu rosto do modo que ele desejou a noite toda. Beijou Maria na boca. Maria correspondeu. Os dois estavam suados, ela um pouco mais que ele.

Um táxi, ruas desertas e dois amantes.

A madrugada avança, Maria e o estrangeiro que não era estrangeiro estão juntos num quarto, abraçados. Para ele foi um momento único, admirou a boca de Maria como nunca fizera antes com outra mulher e não cansava de sentir de perto aqueles olhos tão intensos.

Uma da tarde do dia seguinte.
Maria se veste, às duas terá que fazer as ligações.

Eles caminham pelas ruas, Maria conta aventuras de algumas viagens, ele a escuta e não pára de pensar nela.
A despedida é numa praça, seguem para lados opostos após um beijo, que jamais será esquecido por ele.

Apressadamente Maria dá prosseguimento ao seu plano.
No caminho até sua casa vem à sua mente um problema: o plano precisa de dinheiro, e ela contava com o valor do calote que levou.

(continua...)

[AGORA PENSE EM ALGO EXÓTICO E SUGIRA PARA O PLANO DE MARIA. ESCREVA NO COMENTÁRIO. Tyler Durden Fora do Caos TORCERÁ POR SUA IMAGINAÇÃO]

21 novembro 2008

Pássaro

Para se motivar ele entendeu que a única forma capaz de dar conta de sua angústia era a possibilidade de se libertar do que ele chamava de pássaro.

O pássaro lhe dava asas, permitia sua fuga quando sempre assim a desejava, estranho porque a sua busca estava no conhecimento de algo pouco acessível ao seu modo de ver e perceber o mundo. Era uma busca filosófica. Mas isso deixemos para uma outra hora.

Ele estava apenas admirando uma janela, nada era siginifcativamente atraente para ele à sua frente. Motivar sua própria vida, era o que desejava naquele momento. Fechou a janela e logo depois os seus olhos. Acordou numa rua deserta, sem casas, apenas cercas de ambos os lados. O horizonte era formado por árvores espessas e de baixa estatura, podia crer que era um cerrado, mas logo deixou de pensar nisso.

Para qual lado seguir?

Ouviu se aproximar o som que por toda uma vida fez crescer a sua angústia. Era o pássaro.

As asas batiam com uma força espetacular e quando enfim ele pôde perceber aquele animal em pleno voo, quis arrancar suas próprias entranhas com a força de um Hércules.
Mas forças sempre lhe faltaram.

Eis a ave crescendo à sua frente. Fechou os olhos novamente e quando os abriu percebeu que estava no mesmo lugar. Quis saber se aquilo representava seu fim.

O pássaro voou sobre sua cabeça e logo se transformou em uma figura que ele jamais vira, muito mais grosseira e assustadora. Ele correu, correu até perder todas as energias de suas pernas.

Estava ali deitado em um solo arenoso, amargurado e pouco esperançoso, e sabia que permaneceria assim, com o pior dos sentimentos, o ódio de si mesmo.

Dias se passaram até conseguir se levantar e ao dar seu primeiro passo sabia que nenhum pássaro o atormentaria.

Sorriu enfim.

31 agosto 2008

Doce Café

Havia um significado no seu café, servido fora de hora e com muito açúcar.
Ela bateu na porta do meu quarto, seus olhos tristes queriam me dizer alguma coisa, mas tudo que ela fez foi me perguntar se eu estava afim de um café.

Depois que ela foi embora liguei a TV e adormeci.

Era muito difícil morar numa pensão, pois apesar de ter um quarto só pra mim, não conseguia evitar as consultas que me faziam. Aquele lugar tinha um dom para hospedar depressivos, amargurados e solitários carentes. Eu os recebia com paciência, e no fundo sentia que aquilo poderia me enriquecer de algum modo como experiência de vida. Mas não era fácil, o problema não estava em recebê-los ou escutá-los madrugada adentro, o fator mais complicador era a carga de energia negativa que eles deixavam naquele espaço que significava pra mim o meu principal refúgio de privacidade. Essa negatividade gerava em mim uma dor de cabeça insuportável.

E foi assim que ela se aproximou de mim.

Muito antes daquele café ultra doce, ela me parou na entrada da pensão e me perguntou se poderia, além de lavar as minhas roupas, também passá-las. Falei pra ela que o ato de passar minhas próprias roupas funcionava pra mim como uma terapia e que também não teria como lhe pagar por isso. Ela foi enfática e disse que faria tudo pelo mesmo preço.
Eu disse sim.

Duas vezes por semana eu encontrava minhas roupas limpas e passadas em cima da cama.

Desde então nunca mais conversei com ela, somente o essencial sobre os serviços que ela prestara pra mim.

Mas aí ela bate na porta com aquela xícara na mão e tudo o que percebo são seus olhos tristes. E num sentimento de orgulho próprio, fiquei com a certeza de que ela queria me falar alguma coisa que representasse o quanto eu era atraente para ela.
Vã inocência.

Dois dias depois, entrei no quarto e minhas roupas não estavam ali, ótimo pretexto para ir falar com ela.
Cheguei na lavanderia e ela se encontrava sentada num pequeno banco de madeira.
Não enxergava seus olhos, os quais me atraíram para aquela situação patética, mas via suas pernas sob uma saia encolhida até o meio das coxas.

Como é bom morar sozinho...

Perguntei sobre minhas roupas.
Ela respondeu que foram queimadas.

Nunca mais ninguém me procurou para pedir conselhos e nunca mais senti dores de cabeça.

06 junho 2008

É só um espelho

Ela não fuma. Tem 28 anos, cabelos vermelhos e respira a fumaça ao seu redor.
Está numa mesa de bar.

Um dia ela fumou.
Sem saber como descarregar as aflições de seu primeiro emprego, o cigarro era um refúgio, um prazer, uma satisfação para afastar de seu consciente tudo que a exigência de uma responsabilidade aos 17 anos lhe consumia.

Toma cerveja, está quente e a sua testa está suada. Deseja entrar naquela noite com muita vontade e libido, mas a maré não colabora. Nenhum dos fumantes ali está em seus planos, um outro bar é a sua meta. É nisso que pensa quando uma moça muito simpática lhe pergunta:

- Tem o telefone da Morgana?

Quer esfregar o suor da testa na boca dessa maldita moça simpática.
Morgana um dia foi sua amiga e um dia deixou de ser, então responde:

- Não.

Vai ao banheiro.
Uma moça, que também tem os cabelos avermelhados, fuma um cigarro e se contempla em frente ao espelho quebrado.
Tudo que ela faz é retocar o batom ao lado dessa fumante e pensa: "É só um espelho."

De manhã facilmente se lembra o quanto libidinosa foi a noite passada.

01 junho 2008

Varanda

Olhos vazios.
Ali naquela garagem tudo que ela lembrava era do momento em que ele se foi. Com a vassoura continuou varrendo o chão empoeirado, depois fechou o portão e o trancou com um grosso cadeado.
Com os mesmos olhos vazios olhou para a fachada da casa da garagem trancada, precisava de algo para continuar, pensou na festa mais à noite, seria bom ver pessoas falando alto, cerveja na mesa e outras coisas que distraem.

Chegou na festa que acontecia num pequeno apartamento no bairro de Sta. Cecília. Era no segundo andar e da pequena varanda se avistava uma pequena praça. Não havia tantas pessoas quanto ela imaginava que poderia haver, todos eram seus conhecidos e a dona da casa era uma moça baixinha de um sorriso aberto e gostoso. Elas se conheceram num curso de teatro, que frequentaram apenas duas aulas para se tornarem grandes amigas.

Seus vazios olhos não permitiram conversar com muitas pessoas, vagueou pela festa com uma taça de vinho e estava sempre sentada em algum canto do apartamento observando as pessoas.

Começava a amanhecer e ela estava sentada num puf de frente para a varanda, ao seu lado uma moça de saia comprida dormia no chão; na cozinha, a dona da casa guardava as sobras da festa; e perto da porta um casal conversava baixinho sentado no chão.

Pensou: outra festa que acaba. Lembrou de uma música de um banda chamada Drugstore: "Another Party is Over".
Desistiu de refletir sobre a garagem vazia, tudo estava varrido para sempre, ainda tinha vinho naquele final de festa e naquela varanda à sua frente estava uma pequena abertura para um dia que nasce, basta isso.

Chegou na parada de ônibus. Sentou nos bancos e esperou. Perto dela uma mulher de meia idade esperava o coletivo em pé, bolsa no ombro e uma sacola plástica pesada na mão, seu olhar também era vazio, mas parecia mais perdido.

E foi assim que dentro do ônibus ela resolveu continuar para nunca mais se perder.

08 maio 2008

Tristeza

Pois é,

FLA eliminado da Libertadores de forma trágica.
É triste, mas é só futebol, os 90 minutos passaram.
E tudo a fazer é continuar com o coração rubro-negro.

06 maio 2008

Alegria!!

Um dia Romário disse que no dia do seu nascimento Deus apontou o dedo e falou 'esse é o cara!', mas acredito que uns 15 anos depois o dedo divino tomou outra direção: Manoel de Brito Filho, quem é? É o iluminado OBINA, atacante do mengão e o atual salvador rubro-negro.

Eu estava lá, dia 4 de maio de 2008, junto com 80.000 pessoas no Maracanã e vendo o Flamengo sem rumo no primeiro tempo, que depois de um frango do goleiro Bruno perdia por 1x0 para o Botafogo. Segundo tempo: Entram Diego Tardelli e ele, OBINA. Na primeira bola na direção de sua cabeça, o rubro-negro empata. OBINA salva e abala as estruturas do Mário Filho.

Torcida não pára, empurra o Mengão e Diego Tardelli vira o jogo 2x1. Daí era só alegria, Botafogo acuado, Flamengo sobrando em campo. E mais uma vez a estrela brilha: OBINA faz o terceiro e somos bi-campeões do carioca.

Ao som de 'mamãe eu quero... dá a chupeta para o bebê não chorar' a torcida alvinegra deixa o estádio e ao fim do jogo é Mengão campeão e OBINA consagrado.

Mas é bom lembrar que o escolhido e verdadeiro salvador nasceu dia 3 de março de 1953, Artur Antunes Coimbra: ZICO!