21 novembro 2008

Pássaro

Para se motivar ele entendeu que a única forma capaz de dar conta de sua angústia era a possibilidade de se libertar do que ele chamava de pássaro.

O pássaro lhe dava asas, permitia sua fuga quando sempre assim a desejava, estranho porque a sua busca estava no conhecimento de algo pouco acessível ao seu modo de ver e perceber o mundo. Era uma busca filosófica. Mas isso deixemos para uma outra hora.

Ele estava apenas admirando uma janela, nada era siginifcativamente atraente para ele à sua frente. Motivar sua própria vida, era o que desejava naquele momento. Fechou a janela e logo depois os seus olhos. Acordou numa rua deserta, sem casas, apenas cercas de ambos os lados. O horizonte era formado por árvores espessas e de baixa estatura, podia crer que era um cerrado, mas logo deixou de pensar nisso.

Para qual lado seguir?

Ouviu se aproximar o som que por toda uma vida fez crescer a sua angústia. Era o pássaro.

As asas batiam com uma força espetacular e quando enfim ele pôde perceber aquele animal em pleno voo, quis arrancar suas próprias entranhas com a força de um Hércules.
Mas forças sempre lhe faltaram.

Eis a ave crescendo à sua frente. Fechou os olhos novamente e quando os abriu percebeu que estava no mesmo lugar. Quis saber se aquilo representava seu fim.

O pássaro voou sobre sua cabeça e logo se transformou em uma figura que ele jamais vira, muito mais grosseira e assustadora. Ele correu, correu até perder todas as energias de suas pernas.

Estava ali deitado em um solo arenoso, amargurado e pouco esperançoso, e sabia que permaneceria assim, com o pior dos sentimentos, o ódio de si mesmo.

Dias se passaram até conseguir se levantar e ao dar seu primeiro passo sabia que nenhum pássaro o atormentaria.

Sorriu enfim.

31 agosto 2008

Doce Café

Havia um significado no seu café, servido fora de hora e com muito açúcar.
Ela bateu na porta do meu quarto, seus olhos tristes queriam me dizer alguma coisa, mas tudo que ela fez foi me perguntar se eu estava afim de um café.

Depois que ela foi embora liguei a TV e adormeci.

Era muito difícil morar numa pensão, pois apesar de ter um quarto só pra mim, não conseguia evitar as consultas que me faziam. Aquele lugar tinha um dom para hospedar depressivos, amargurados e solitários carentes. Eu os recebia com paciência, e no fundo sentia que aquilo poderia me enriquecer de algum modo como experiência de vida. Mas não era fácil, o problema não estava em recebê-los ou escutá-los madrugada adentro, o fator mais complicador era a carga de energia negativa que eles deixavam naquele espaço que significava pra mim o meu principal refúgio de privacidade. Essa negatividade gerava em mim uma dor de cabeça insuportável.

E foi assim que ela se aproximou de mim.

Muito antes daquele café ultra doce, ela me parou na entrada da pensão e me perguntou se poderia, além de lavar as minhas roupas, também passá-las. Falei pra ela que o ato de passar minhas próprias roupas funcionava pra mim como uma terapia e que também não teria como lhe pagar por isso. Ela foi enfática e disse que faria tudo pelo mesmo preço.
Eu disse sim.

Duas vezes por semana eu encontrava minhas roupas limpas e passadas em cima da cama.

Desde então nunca mais conversei com ela, somente o essencial sobre os serviços que ela prestara pra mim.

Mas aí ela bate na porta com aquela xícara na mão e tudo o que percebo são seus olhos tristes. E num sentimento de orgulho próprio, fiquei com a certeza de que ela queria me falar alguma coisa que representasse o quanto eu era atraente para ela.
Vã inocência.

Dois dias depois, entrei no quarto e minhas roupas não estavam ali, ótimo pretexto para ir falar com ela.
Cheguei na lavanderia e ela se encontrava sentada num pequeno banco de madeira.
Não enxergava seus olhos, os quais me atraíram para aquela situação patética, mas via suas pernas sob uma saia encolhida até o meio das coxas.

Como é bom morar sozinho...

Perguntei sobre minhas roupas.
Ela respondeu que foram queimadas.

Nunca mais ninguém me procurou para pedir conselhos e nunca mais senti dores de cabeça.

06 junho 2008

É só um espelho

Ela não fuma. Tem 28 anos, cabelos vermelhos e respira a fumaça ao seu redor.
Está numa mesa de bar.

Um dia ela fumou.
Sem saber como descarregar as aflições de seu primeiro emprego, o cigarro era um refúgio, um prazer, uma satisfação para afastar de seu consciente tudo que a exigência de uma responsabilidade aos 17 anos lhe consumia.

Toma cerveja, está quente e a sua testa está suada. Deseja entrar naquela noite com muita vontade e libido, mas a maré não colabora. Nenhum dos fumantes ali está em seus planos, um outro bar é a sua meta. É nisso que pensa quando uma moça muito simpática lhe pergunta:

- Tem o telefone da Morgana?

Quer esfregar o suor da testa na boca dessa maldita moça simpática.
Morgana um dia foi sua amiga e um dia deixou de ser, então responde:

- Não.

Vai ao banheiro.
Uma moça, que também tem os cabelos avermelhados, fuma um cigarro e se contempla em frente ao espelho quebrado.
Tudo que ela faz é retocar o batom ao lado dessa fumante e pensa: "É só um espelho."

De manhã facilmente se lembra o quanto libidinosa foi a noite passada.

01 junho 2008

Varanda

Olhos vazios.
Ali naquela garagem tudo que ela lembrava era do momento em que ele se foi. Com a vassoura continuou varrendo o chão empoeirado, depois fechou o portão e o trancou com um grosso cadeado.
Com os mesmos olhos vazios olhou para a fachada da casa da garagem trancada, precisava de algo para continuar, pensou na festa mais à noite, seria bom ver pessoas falando alto, cerveja na mesa e outras coisas que distraem.

Chegou na festa que acontecia num pequeno apartamento no bairro de Sta. Cecília. Era no segundo andar e da pequena varanda se avistava uma pequena praça. Não havia tantas pessoas quanto ela imaginava que poderia haver, todos eram seus conhecidos e a dona da casa era uma moça baixinha de um sorriso aberto e gostoso. Elas se conheceram num curso de teatro, que frequentaram apenas duas aulas para se tornarem grandes amigas.

Seus vazios olhos não permitiram conversar com muitas pessoas, vagueou pela festa com uma taça de vinho e estava sempre sentada em algum canto do apartamento observando as pessoas.

Começava a amanhecer e ela estava sentada num puf de frente para a varanda, ao seu lado uma moça de saia comprida dormia no chão; na cozinha, a dona da casa guardava as sobras da festa; e perto da porta um casal conversava baixinho sentado no chão.

Pensou: outra festa que acaba. Lembrou de uma música de um banda chamada Drugstore: "Another Party is Over".
Desistiu de refletir sobre a garagem vazia, tudo estava varrido para sempre, ainda tinha vinho naquele final de festa e naquela varanda à sua frente estava uma pequena abertura para um dia que nasce, basta isso.

Chegou na parada de ônibus. Sentou nos bancos e esperou. Perto dela uma mulher de meia idade esperava o coletivo em pé, bolsa no ombro e uma sacola plástica pesada na mão, seu olhar também era vazio, mas parecia mais perdido.

E foi assim que dentro do ônibus ela resolveu continuar para nunca mais se perder.

08 maio 2008

Tristeza

Pois é,

FLA eliminado da Libertadores de forma trágica.
É triste, mas é só futebol, os 90 minutos passaram.
E tudo a fazer é continuar com o coração rubro-negro.

06 maio 2008

Alegria!!

Um dia Romário disse que no dia do seu nascimento Deus apontou o dedo e falou 'esse é o cara!', mas acredito que uns 15 anos depois o dedo divino tomou outra direção: Manoel de Brito Filho, quem é? É o iluminado OBINA, atacante do mengão e o atual salvador rubro-negro.

Eu estava lá, dia 4 de maio de 2008, junto com 80.000 pessoas no Maracanã e vendo o Flamengo sem rumo no primeiro tempo, que depois de um frango do goleiro Bruno perdia por 1x0 para o Botafogo. Segundo tempo: Entram Diego Tardelli e ele, OBINA. Na primeira bola na direção de sua cabeça, o rubro-negro empata. OBINA salva e abala as estruturas do Mário Filho.

Torcida não pára, empurra o Mengão e Diego Tardelli vira o jogo 2x1. Daí era só alegria, Botafogo acuado, Flamengo sobrando em campo. E mais uma vez a estrela brilha: OBINA faz o terceiro e somos bi-campeões do carioca.

Ao som de 'mamãe eu quero... dá a chupeta para o bebê não chorar' a torcida alvinegra deixa o estádio e ao fim do jogo é Mengão campeão e OBINA consagrado.

Mas é bom lembrar que o escolhido e verdadeiro salvador nasceu dia 3 de março de 1953, Artur Antunes Coimbra: ZICO!

02 maio 2008

Frutas & Vento

A hélice verde escuro de um ventilador gira.
O ventilador está no chão de uma casa cujo assoalho é de tacos.
Os cabelos pretos encaracolados de uma mulher de 25 anos esvoaçam com o vento que chega deste ventilador.
Os olhos dessa mulher estão adormecidos e os músculos da face relaxados.

Pedaços de frutas caem dentro do copo azul claro de um liquidificador.
Um copo de leite é derramado sobre essas frutas. Uma mão feminina tampa o copo do liquidificador.
A mesma mão, com unhas pintadas de ciano, aperta o botão da potência mais forte (talvez #3).
O liquidificador não funciona.
Na pia, ao lado do liquidificador, está a mulher de unhas ciano, ela tem 33 anos e está cabisbaixa com as mãos apoiadas na pia.
Essa mulher vai até a porta da cozinha, que está aberta, escora-se e ali fica parada.

Os pés da mulher de cabelos encaracolados repousam sobre uma almofada laranja.
Seus cabelos esvoaçam.

A mulher de unhas ciano tenta fazer o liquidificador funcionar na tomada do quarto.
Depois na tomada do outro quarto. Na tomada do banheiro.
Por fim numa tomada do corredor.
Sem sucesso.

A hélice verde escuro do ventilador pára de rodar.
Ouve-se o som ensurdecedor do liquidificar funcionando.
Os olhos da mulher de cabelos encaracolados se abrem.

A mulher de unhas ciano está em pé com o copo azul claro do liquidificador na mão. Ela diz:

-Essa é a única tomada que funciona na casa.

A mulher de cabelos encaracolados se levanta e vai ao banheiro.

21 abril 2008

Mudança e esperança

Há um tempo comento com meus próximos que vivemos um momento especial na América do Sul, e me preocupa talvez a pouca atenção que se dá ao que acontece nesse continente. A eleição de Lugo no Paraguai, seguida de um último grito de esperança dos paraguaios por mudança, insere o nosso vizinho no rol de governos de esquerda, eleitos democraticamente (nunca esqueçamos disso), que têm realizado novas perspectivas para um continente historicamente marginalizado e submisso às potências européias e estadunidense, submissão não somente econômica, mas também cultural.

O governo de Chavez não é igual ao Evo Morales, que não se iguala ao Rafael Corrêa, que difere dos Kirchner, estes não são semelhantes ao Lula, que muito menos se compara ao recém eleito Fernando Lugo. E essa é a principal característica, nenhum dos governos age como se existisse um modelo único de sulamerica, mas todos soltam a voz e ações para firmar uma identidade própria de seu país, uma soberania que esse continente jamais possuiu, e mais: lançam diálogos entre eles para que essa soberania se estabeleça numa harmonia justa. A Colômbia não pode lançar bombas em território vizinho, o petróleo venezuelano é extraído em território venezuelano, o gás boliviano está no solo boliviano, os brasileiros em seu próprio território não podem ler a cartilha do FMI para comprar leite, e sim, os paraguaios devem reivindicar um diálogo mais amplo para sua questão energética, pois precisará se desenvolver, criar recursos para um desenvolvimento de fato.

Aos que bravejam que esses governos, através de corrupção e desejo de poder, são iguais aos seus anteriores, pouco percebem as mudanças significativas que proprocionaram e que podemos fazer mais, começando por uma avaliação crítica desses governos principalmente para extrair das entranhas desse continente a corrupção e o poder pelo poder. Podemos fazer isso através de justa eleição dos representantes, colaborar na formação de novos quadros políticos, conscientizar que a sonegação de impostos gera mais corrupção, conscientizar nossos filhos que há um bem público, que eles não devem lutar somente pelo que é seu, que é preciso ser solidário, aceitar a diferença. Talvez assim, possamos verificar que a América do Sul entrou no século XXI dando um importante primeiro passo, e que os seguintes dependerão da nossa própria ação, espero que não se perceba isso tarde demais.

14 abril 2008

Para o alto e avante!

Pois é, o Clube de Regatas Flamengo foi a Cuzco e não sofreu nenhum avaria de oxigênio e ainda saiu de lá classificado para a próxima fase da Libertadores com uma vitória espetacular de 3x0 sobre o time local Cienciano.

Nem o mais otimista dos rubro-negros poderia imaginar isso, todos estávamos cientes de que tudo que se deveria conseguir ali era um empate, mas enfim saímos de alma lavada, inclusive o Toró, autor do segundo gol, e que na última partida do Mengão fora do Maracanã foi protagonista de uma inútil violência contra um gandula uruguaio, e com justiça fora expulso.

Mais uma vez o meu time do coração é só alegria e não deixo de imaginar os pobres vascaínos, sem essas gratas felicidades futebolísticas.

28 março 2008

Chão de pedras

Correu e caiu.
O braço ficou machucado e sangrava.
Ele se levantou e ficou olhando o ferimento, não sabia o que fazer.

Continuou correndo, suor e sangue escorriam pelo braço. Nos seus pensamentos uma dúvida: por que mudaram o horário?

45 anos de idade, e tudo que ele fazia agora era correr. Uma estrada de terra, poucas árvores, chão cheio de pedras.

Ele cansou, parou e decidiu não mais correr, o sangue escorria e coagulava. Enxugou o suor do rosto com a própria camisa.

Um velho empurrando uma bicicleta vinha em sua direção bem lentamente quando viu o seu braço machucado e perguntou se ele precisava de ajuda. A resposta foi que estava tudo bem, mas que ele precisava de água. O velho disse que sua água acabou há 5 quilômetros, e que se a sede fosse grande, era melhor voltar.

Voltar?

Aquele sangue coagulado era o seu orgulho. Parou para desprezar o tempo, mas ferir seu próprio orgulho seria algo demais.

O velho observava com olhos tristes e depois de um tempo se aproximou. O homem do braço machucado se afastou para sentar numa pedra, visivelmente ele não estava bem. O velho deixou a bicicleta ao lado do homem e seguiu seu caminho.

Horas se passaram.
Um homem com sede ao lado de uma bicicleta deitada no chão de pedras.
A noite parecia longe e mais longe ficou quando seu braço voltou a sangrar.

17 março 2008

Esquina






































Eu tinha 10 anos. Quinta série, período da tarde, Manaus.

Pouco antes de chegar no colégio, na esquina da avenida Eduardo Ribeiro com a rua Saldanha Marinho, a Kombi que me levava estava parada no sinal.

Eu era o último e o único a ser entregue naquela escola, portanto ali estava eu sozinho com o motorista,que do nada virou pra mim e disse:

"Se eu tivesse a tua idade, faria tudo diferente."

O sinal abriu, fui pra aula e essa imagem nunca mais saiu da minha cabeça.

Pequeno bilhete

E o correio havia chegado, com uma carta apenas.
O carimbo indicava uma agência do Amapá.
Dentro do envelope havia apenas um pequeno bilhete:

Ontem choveu, fiquei sem o carro, mas a viagem está confirmada.

Como é bom esperar por alguém que se expressa com poucas palavras.

(Início de uma história amazônica de 1986, autor desconhecido)

10 março 2008

Enveredar

Era ela, que estava numa parada de ônibus às seis da tarde não tão longe de onde eu estava, e começou a me dizer como estava frustrada.
Eu disse: Mas você sabe muito bem que eu não posso te ajudar.

A voz dela ficou mais grave, e então fiquei sabendo que ela estava cheia de sacolas do supermercado e impaciente com a espera do ônibus, que não parava de passar, mas sempre lotado. Mencionou novamente a sua frustração.

Propus que ela me esperasse na parada de ônibus, eu chegaria em 10 minutos.
Ela disse: Não!

Desligou dizendo que o ônibus havia chegado.

Eu disse: Alô.
Ele estava na casa da mãe dele, a dez minutos da parada de ônibus onde eu estava com várias sacolas de supermercado na mão.

Procurei entender porque eu estava com aquele sentimento horrível de frustração e ele seria uma pessoa ideal pra me ajudar nisso.
Mas por que a gente sempre acha que tem que ser ajudada? Aquele telefonema me trouxe outra frustração.
Pensei: Caralho!

Ele disse: Chego aí em dez minutos.
Desliguei com a desculpa que o ônibus havia chegado, e o coletivo realmente estava ali parado, mas muito lotado, vou esperar o próximo.

Eu pensei: Por que será que ela fala tanto no celular?
É a terceira vez desde que estou aqui esperando por um ônibus vazio, quero ir sentado e pronto!
Ela parecia aflita com alguma coisa, loira tingida, bonita, com uma sandália de plataforma que lhe dava mais uns 7 cm.
Ela estava suada e isso me atraía, tomara que peguemos o mesmo ônibus!

Virtude em Cícero

E, assim como cada espécie tem alguma propriedade que a distingue essencialmente, assim o homem tem uma, mas muito mais excelente: se assim se pode falar com propriedade da nossa alma, que, sendo uma emanação da mente divina, é de ordem superior, ela não pode ser comparada, ousamos dizer, senão com a mesma divindade. Esta alma, pois, quando a cultivamos, e quando a curamos das ilusões capazes de cegá-la, alcança este alto grau de inteligência que é a razão perfeita, e à qual damos o nome de virtude. Ora, se a felicidade de cada espécie consiste no modo de perfeição que lhe é próprio, a felicidade do homem consiste na virtude, uma vez que a virtude é a sua perfeição.

(Cícero, Tusculanas Livro V, XIII)

08 março 2008

Neblina Vermelha

Minhas pernas tremiam levemente.
Tudo o que meus olhos enxergavam era um abismo preenchido de neblina vermelha.

Os pensamentos apenas imaginavam aquela viagem, o corpo em queda livre e a neblina tocando a minha pele, um frio que me faria rever um passado, onde eu conhecia todas as minhas decisões e opções, escolhas feitas para viver até chegar na última das tentações.

Não, isto não podia ser um fim.

Quis acreditar que o abismo se tornaria um imenso túnel, uma travessia. O novo e o desconhecido estariam ali, do outro lado daquela atmosfera vermelha. Tempo? Sempre fiz minhas escolhas baseadas no tempo, agora o tempo seria o meu controlador, ele me forneceria essa nova experiência, não desejava pensar nele. E um frio atravessou minhas costas...

O concreto estava liso e os meus pés estavam prontos para escorregar para o mergulho. Aquele momento estava silencioso e a neblina parecia cada vez mais densa. Vermelho sempre foi a minha cor preferida, seria por acaso? Busquei o significado do vermelho pra mim, talvez representasse tudo o que eu acredito. Listei um a um até chegar no sangue.

Minhas pernas pararam de tremer.

03 março 2008

O passo em falso de Uribe

A Colômbia vai ferver.

A ação militar colombiana na fronteira do Equador foi um erro diplomático delicadíssimo, recentemente as FARC libertaram reféns de forma unliateral e o diálogos começavam a ter bons resultado. Mas de repente, Uribe acende o fósforo e despeja suas bombas em acampamento das FARC, como se dá isso?

A resposta é difícil e sem dúvida não se pode prever quais os resultados, Chavez e Correa reagiram de forma enérgica, mas são discursos de chefes de Estado, eleitos democraticamente, e foram vozes para dizer a Uribe que seus vizinhos não estão de acordo com ações "texanas", acampamento das FARC não é Iraque nem Afeganistão. E considero remota a possibilidade de uma guerra na América do Sul como profetiza Chavez, mas o que temo é a reação das FARC, acredito que não será com discursos inflamados na TV, e sim com as suas próprias armas e sequestros.

Uribe deu um passo em falso, e tomara que não tenha como resposta mais colombianos mortos por uma violência histórica e que deve ser interrompida não com bombas caindo do céu em território equatoriano, e sim com a flexibilidade do diálogo, ação esta que seu vizinho venezuelano, cheio de bravatas, petróleo e armas, se mostrou disposto a realizar.

Lembremos mais do sonho unificador de Bolívar do que da violência de suas batalhas, para nos unirmos temos armas que não matam.

29 fevereiro 2008

Tudo Era Macedônia

I

Rosa traz para a cozinha uma bandeja com vários copos.
Um deles está quebrado.
Rosa pega esse copo quebrado, lava ele com todo o cuidado. Depois de enxugá-lo ela ensaia movimentos de esgrima como se o copo fosse a espada.

Rosa: Eu ainda te mato, sua puta!


II

Rosa tomando um sorvete em um estacionamento, ela passeia entre os carros. De repente ela avista Gabriel, vai em sua direção, dá um beijo na boca dele, ele parece bastante cansado. Eles entram no carro, Rosa na direção. Ela liga o carro e depois joga o sorvete na cara de Gabriel.


III

Rosa na cozinha segura o copo quebrado. Surgem na porta Sueli e Rafael.

Sueli: Estamos indo.

Rosa esconde o copo atrás de si. Sueli se aproxima para beijar Rosa. Gabriel entra na cozinha.


IV

Rosa e Sueli estão na parada de ônibus, que está bem lotada.

Sueli: Desde quando você também pega esse ônibus?
Rosa: Desde a semana passada, por quê?
Sueli: É que talvez ele não seja o melhor para você.
Rosa: Você tem alguma outra sugestão?
Sueli: Tenho, mas aí você vai ter que ir para outra parada.


V

Rosa no banheiro lavando sua mão, que está toda cortada. Jorra muito sangue. Gabriel está ao seu lado.

Minutos antes na cozinha:
Sueli abraça Rosa. Escuta-se o som de vidro quebrando. Rosa solta um forte grito de dor.


VI

Rosa está numa parada de ônibus sozinha.


VII

Rafael está varrendo o chão da cozinha e catando os pedaços de vidro do chão. Sueli está sozinha na sala. De repente Sueli começa a rir. Rafael surge e pergunta do que ela ri. Sueli não consegue responder, pois o riso é incontrolável.


VIII

Rosa fecha a torneira, Gabriel começa a fazer um curativo.

Sueli não consegue parar de rir.
Rosa aparece na sala com metade da mão enfaixada, ainda sangra um pouco.
Rafael e Gabriel ficam constrangidos com a situação: Sueli às gargalhadas e Rosa ali parada, apenas observando e com sangue escorrendo pelo curativo.


IX

Rosa e Gabriel deitados na cama de um hotel barato. Ele está deitado de barriga pra cima. Ela está de bruços e folheando uma agenda.
Rosa folhea os mapas no final da agenda.

Gabriel: Em que país você está?
Rosa: Na Macedônia.
Gabriel: Você sabia que um dia tudo foi Macedônia?
Rosa: Tudo o quê?
Gabriel: Tudo ué, tudo isso que você tá olhando aí.

Rosa rasga a página que tem o mapa da Macedônia. Gabriel observa espantado.
Rosa se levanta e entra no banheiro.


X

Gabriel está na porta do banheiro de sua casa.
Do outro lado da porta escuta-se o choro contido de Rosa.
Pingos de sangue estão espalhados pelo chão.


XI

No quarto de hotel Rosa está junto à janela olhando a rua pelas frestas da veneziana. Gabriel dorme de barriga pra cima.
No cesto do banheiro está o mapa arrancado por Rosa.
Ao lado da Macedônia está escrito a lápis:

“Sueli”


XII

Sueli e Rosa estão na parada de ônibus, que está lotada.
Rosa está com a mão enfaixada.