I
Rosa traz para a cozinha uma bandeja com vários copos.
Um deles está quebrado.
Rosa pega esse copo quebrado, lava ele com todo o cuidado. Depois de enxugá-lo ela ensaia movimentos de esgrima como se o copo fosse a espada.
Rosa: Eu ainda te mato, sua puta!
II
Rosa tomando um sorvete em um estacionamento, ela passeia entre os carros. De repente ela avista Gabriel, vai em sua direção, dá um beijo na boca dele, ele parece bastante cansado. Eles entram no carro, Rosa na direção. Ela liga o carro e depois joga o sorvete na cara de Gabriel.
III
Rosa na cozinha segura o copo quebrado. Surgem na porta Sueli e Rafael.
Sueli: Estamos indo.
Rosa esconde o copo atrás de si. Sueli se aproxima para beijar Rosa. Gabriel entra na cozinha.
IV
Rosa e Sueli estão na parada de ônibus, que está bem lotada.
Sueli: Desde quando você também pega esse ônibus?
Rosa: Desde a semana passada, por quê?
Sueli: É que talvez ele não seja o melhor para você.
Rosa: Você tem alguma outra sugestão?
Sueli: Tenho, mas aí você vai ter que ir para outra parada.
V
Rosa no banheiro lavando sua mão, que está toda cortada. Jorra muito sangue. Gabriel está ao seu lado.
Minutos antes na cozinha:
Sueli abraça Rosa. Escuta-se o som de vidro quebrando. Rosa solta um forte grito de dor.
VI
Rosa está numa parada de ônibus sozinha.
VII
Rafael está varrendo o chão da cozinha e catando os pedaços de vidro do chão. Sueli está sozinha na sala. De repente Sueli começa a rir. Rafael surge e pergunta do que ela ri. Sueli não consegue responder, pois o riso é incontrolável.
VIII
Rosa fecha a torneira, Gabriel começa a fazer um curativo.
Sueli não consegue parar de rir.
Rosa aparece na sala com metade da mão enfaixada, ainda sangra um pouco.
Rafael e Gabriel ficam constrangidos com a situação: Sueli às gargalhadas e Rosa ali parada, apenas observando e com sangue escorrendo pelo curativo.
IX
Rosa e Gabriel deitados na cama de um hotel barato. Ele está deitado de barriga pra cima. Ela está de bruços e folheando uma agenda.
Rosa folhea os mapas no final da agenda.
Gabriel: Em que país você está?
Rosa: Na Macedônia.
Gabriel: Você sabia que um dia tudo foi Macedônia?
Rosa: Tudo o quê?
Gabriel: Tudo ué, tudo isso que você tá olhando aí.
Rosa rasga a página que tem o mapa da Macedônia. Gabriel observa espantado.
Rosa se levanta e entra no banheiro.
X
Gabriel está na porta do banheiro de sua casa.
Do outro lado da porta escuta-se o choro contido de Rosa.
Pingos de sangue estão espalhados pelo chão.
XI
No quarto de hotel Rosa está junto à janela olhando a rua pelas frestas da veneziana. Gabriel dorme de barriga pra cima.
No cesto do banheiro está o mapa arrancado por Rosa.
Ao lado da Macedônia está escrito a lápis:
“Sueli”
XII
Sueli e Rosa estão na parada de ônibus, que está lotada.
Rosa está com a mão enfaixada.
29 fevereiro 2008
25 fevereiro 2008
Águas no Maracanã
O segundo tempo da final da Taça Guanabara (primeiro turno do campeonato carioca) fez chover água do céu e o Fogão, que esquentou o gramado e a cabeça do Mengão no primeiro tempo, se apagou nas próprias lágrimas.
Mengão vitorioso e Botafogo chora, isso mesmo, de novo! Chora jogador, técnico, presidente e todos com a mesma história: passaram a mão no glorioso.
Como rubro-negro de coração, estou longe de chorar, só alegria, ainda mais ver o que o Joel (técnico do Flamengo) fez, as alterações no segundo tempo simplesmente acuaram o Botafogo, que então vencia por 1x0. Cuca (técnico do Botafogo) simplesmente não acreditou no que viu e fez uma alteração aos 12 minutos, porque sentiu que a coisa ir ferver para o fogão.
15 minutos/segundo tempo. Penalti para o flamengo. Pensei: Otimo, mas vai ser um saco ouvir botafoguense reclamando da arbitragem, mais uma vez!
O zaguerio do Botafogo praticamente arrancou a camisa do zagueiro flamenguista Fábio Luciano, e o pior, na cara do juiz, que ao ver um jogador quase sem camisa e arremessado ao chão não teve dúvida, era dentro da área e era penalti!
Ibson, o craque, bate com perfeição e o Mengão empata!
Daí em diante teve expulsões, brigas, chuva, emoção atrás de emoção. E eu ali na frente da tela de um computador ouvindo o jogo pela Rádio Globo, nenhuma TV transmitiu em São Paulo, absurdo! Sem contar que o pay per view custa 60,00!!! Mas enfim, meu coração bate por ti mengão, vamos ouvir na rádio!
E pra completar a emoção, Joel, vou me permitir a liberdade e o exagero de chamá-lo de gênio Joel, colocou mais um atacante em campo: Diego Tardelli. Não deu outra, gol de Tardelli nos acréscimos! Mengão 2x1, de virada.
Flamengo campeão da Taça Guanabara e está na final do campeonato.
Jogo emocionante, nada daquelas coisas patéticas dos campeonatos europeus, onde tudo é muito certinho e vemos apenas milionários exercitando suas habilidades. Acredito no futebol da raça, do choro, da emoção, dos cartões vermelhos, dos erros do juiz, assim a gente sente o coração mais de perto e tem a certeza de estar vivo!
Mengão vitorioso e Botafogo chora, isso mesmo, de novo! Chora jogador, técnico, presidente e todos com a mesma história: passaram a mão no glorioso.
Como rubro-negro de coração, estou longe de chorar, só alegria, ainda mais ver o que o Joel (técnico do Flamengo) fez, as alterações no segundo tempo simplesmente acuaram o Botafogo, que então vencia por 1x0. Cuca (técnico do Botafogo) simplesmente não acreditou no que viu e fez uma alteração aos 12 minutos, porque sentiu que a coisa ir ferver para o fogão.
15 minutos/segundo tempo. Penalti para o flamengo. Pensei: Otimo, mas vai ser um saco ouvir botafoguense reclamando da arbitragem, mais uma vez!
O zaguerio do Botafogo praticamente arrancou a camisa do zagueiro flamenguista Fábio Luciano, e o pior, na cara do juiz, que ao ver um jogador quase sem camisa e arremessado ao chão não teve dúvida, era dentro da área e era penalti!
Ibson, o craque, bate com perfeição e o Mengão empata!
Daí em diante teve expulsões, brigas, chuva, emoção atrás de emoção. E eu ali na frente da tela de um computador ouvindo o jogo pela Rádio Globo, nenhuma TV transmitiu em São Paulo, absurdo! Sem contar que o pay per view custa 60,00!!! Mas enfim, meu coração bate por ti mengão, vamos ouvir na rádio!
E pra completar a emoção, Joel, vou me permitir a liberdade e o exagero de chamá-lo de gênio Joel, colocou mais um atacante em campo: Diego Tardelli. Não deu outra, gol de Tardelli nos acréscimos! Mengão 2x1, de virada.
Flamengo campeão da Taça Guanabara e está na final do campeonato.
Jogo emocionante, nada daquelas coisas patéticas dos campeonatos europeus, onde tudo é muito certinho e vemos apenas milionários exercitando suas habilidades. Acredito no futebol da raça, do choro, da emoção, dos cartões vermelhos, dos erros do juiz, assim a gente sente o coração mais de perto e tem a certeza de estar vivo!
24 fevereiro 2008
Seja bem vindo ao encontro das águas
O encontro das águas é uma das principais atrações turísticas do Amazonas, onde o rio Negro, de águas escuras, encontra o rio Solimões, de águas barrentas.
O rio Solimões é nome do rio Amazonas desde que entra no estado do Amazonas, vindo do Peru, até o encontro das águas, em Manaus, a partir desse ponto até o oceano Atlântico ele passa a ser denominado rio Amazonas.
Para saber mais:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Encontro_das_águas
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Solimões
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_amazonas
23 fevereiro 2008
Cícero - envelhecer
Os frutos da velhice, tenho dito e repetido, são todas as lembranças do que anteriormente se adquiriu. Ora, tudo o que é conforme à natureza deve se considerar como bom. Que há de mais natural para um velho que a perspectiva de morrer? Quando a morte golpeia a juventude, a natureza resiste e se rebela. Assim como a morte de um adolescente me faz pensar numa chama viva apagada sob um jato d'água, a de um velho se assemelha a um fogo que suavemente se extingue. Os frutos verdes devem ser arrancados à força da árvore que os carrega; quando estão maduros, ao contrário, eles caem naturalmente. Do mesmo modo, a vida é arrancada à força aos adolescentes, enquanto deixa aos poucos os velhos quando chega sua hora. Consinto de tão boa vontade tudo isso que, quanto mais me aproximo da morte, parece que vou me aproximando da terra como quem chega ao porto após uma longa travessia.
(Cícero, "Saber Envelhecer")
(Cícero, "Saber Envelhecer")
21 fevereiro 2008
Questionabilidade
Ela preparava o recheio.
Na janela um pequeno vaso a observava.
Sua dúvida estava não mais no modo de preparo, mas se a ocasião era realmente a mais apropriada para mostrar a sua grande invenção culinária.
O tormento da incerteza lhe consumia e num repente ela parou tudo. Ela não podia se dar ao luxo de um intervalo, os minutos consumiam o desgaste no relógio de parede. Mas era preciso pensar!
Após contar e nomear todos os presentes à mesa na hora do jantar, ela se deu conta de uma coisa: uma pessoa em especial merecia provar aquela nova receita. O motivo? Esperemos um pouco.
Volta à cozinha, recomeça o trabalho com dedicação espartana.
Pronto, está pronto. 20h.
Um banho bem tomado, perfume no corpo, roupas leves.
Dia seguinte.
Sentada no sofá vermelho de sua sala, tudo que ela investiga em sua memória é onde havia errado. Todos os ingredientes estavam certos, o modo de preparo poderia até ser diferente, mas com toda a sua experiência era impossível errar, mas ela errou.
Foram somente duas vozes que citaram a estranheza, a primeira ficou incomodada com a pimenta. Pimenta? Sim, isso mesmo, a pimenta. Mas enfim, era um prato de inspiração indiana...
A segunda pessoa disse que... Ah, esta segunda pesssoa era quem realmente deveria provar o novo prato, o motivo? Ela com certeza não iria gostar, qualquer que fosse o cardápio. Elas se odiavam, e tudo por causa de um cabelereiro. Raios! Mas por que ela estava naquele jantar? Sabe aquelas coisas de grandes amigos em comum? Pois é...
Voltando, o comentário foi que tudo estava aguado.
Se havia sinceridade nesse comentário? Sem dúvida! Ali sentada em seu sofá vermelho ela lembrava o olhar de sua inimiga na noite anterior, pura sinceridade.
Esse foi o maior tormento, ela queria ouvir uma única reclamação, e sentir falsidade, mas aconteceu o contrário. Além de uma pessoa neutra ter reclamado da pimenta, a sincera crítica de uma rival a fez desmoronar.
E agora? Pimenta e água, como isso estava em exagero?
Tudo que ela podia crer era que a TPM a afetava com toda a sua força naquele mês, perdera a medida das coisas.
(e foi tudo o que ela disse ao caixa do banco)
Na janela um pequeno vaso a observava.
Sua dúvida estava não mais no modo de preparo, mas se a ocasião era realmente a mais apropriada para mostrar a sua grande invenção culinária.
O tormento da incerteza lhe consumia e num repente ela parou tudo. Ela não podia se dar ao luxo de um intervalo, os minutos consumiam o desgaste no relógio de parede. Mas era preciso pensar!
Após contar e nomear todos os presentes à mesa na hora do jantar, ela se deu conta de uma coisa: uma pessoa em especial merecia provar aquela nova receita. O motivo? Esperemos um pouco.
Volta à cozinha, recomeça o trabalho com dedicação espartana.
Pronto, está pronto. 20h.
Um banho bem tomado, perfume no corpo, roupas leves.
Dia seguinte.
Sentada no sofá vermelho de sua sala, tudo que ela investiga em sua memória é onde havia errado. Todos os ingredientes estavam certos, o modo de preparo poderia até ser diferente, mas com toda a sua experiência era impossível errar, mas ela errou.
Foram somente duas vozes que citaram a estranheza, a primeira ficou incomodada com a pimenta. Pimenta? Sim, isso mesmo, a pimenta. Mas enfim, era um prato de inspiração indiana...
A segunda pessoa disse que... Ah, esta segunda pesssoa era quem realmente deveria provar o novo prato, o motivo? Ela com certeza não iria gostar, qualquer que fosse o cardápio. Elas se odiavam, e tudo por causa de um cabelereiro. Raios! Mas por que ela estava naquele jantar? Sabe aquelas coisas de grandes amigos em comum? Pois é...
Voltando, o comentário foi que tudo estava aguado.
Se havia sinceridade nesse comentário? Sem dúvida! Ali sentada em seu sofá vermelho ela lembrava o olhar de sua inimiga na noite anterior, pura sinceridade.
Esse foi o maior tormento, ela queria ouvir uma única reclamação, e sentir falsidade, mas aconteceu o contrário. Além de uma pessoa neutra ter reclamado da pimenta, a sincera crítica de uma rival a fez desmoronar.
E agora? Pimenta e água, como isso estava em exagero?
Tudo que ela podia crer era que a TPM a afetava com toda a sua força naquele mês, perdera a medida das coisas.
(e foi tudo o que ela disse ao caixa do banco)
20 fevereiro 2008
Coletor e cobrador
Av. Paulista, manhã.
O ônibus pára no sinal. Eu estou sentado dentro desse ônibus, dois bancos para trás do cobrador.
Ao lado do ônibus está um caminhão de lixo.
O cobrador lê um jornal (que parece ser um daqueles distribuídos no metrô).
O coletor de lixo, pendurado na traseira do caminhão ao lado, se aproxima da janela do ônibus e fala ao cobrador:
- Que emprego bom esse hein!
O cobrador responde algo meio desconcertado. O coletor continua:
- Sai de casa e fala pra mulher que vai trabalhar e passa o dia passeando de ônibus.
O coletor solta uma risada. Um outro coletor, pele bem clara, olhos pequenos e pendurado na outra barra de ferro da traseira do caminhão, também sorri.
O cobrador ri e novamente responde algo meio desconcertado.
O coletor então diz que sabe que o trabalho do cobrador parece fácil, mas tem hora que a coisa aperta, fica difícil, com muita tensão. Em seguida forma na sua mão um revólver com os dedos. Na seuqencia ele completa:
- Deus é maior!
O cobrador responde que o trabalho do coletor também parece difícil. O coletor confirma dizendo que é bom por passear também, mas o cheiro, andar pendurado, risco de tontura na cabeça, e muitas outras coisas fazem o serviço mais duro, mas "Deus é maior".
O sinal abre.
Os dois trabalhadores se despedem, risos em seus rostos.
O ônibus vai mais rápido que o caminhão de lixo.
Penso: e o motrista do caminhão, como será?
Espero passar pela janela e quando vejo, lá está ele, um homem de meia idade manipulando um jornal (que parece ser um daqueles distribuídos no metrô) e o voltante de seu caminhão.
O ônibus pára no sinal. Eu estou sentado dentro desse ônibus, dois bancos para trás do cobrador.
Ao lado do ônibus está um caminhão de lixo.
O cobrador lê um jornal (que parece ser um daqueles distribuídos no metrô).
O coletor de lixo, pendurado na traseira do caminhão ao lado, se aproxima da janela do ônibus e fala ao cobrador:
- Que emprego bom esse hein!
O cobrador responde algo meio desconcertado. O coletor continua:
- Sai de casa e fala pra mulher que vai trabalhar e passa o dia passeando de ônibus.
O coletor solta uma risada. Um outro coletor, pele bem clara, olhos pequenos e pendurado na outra barra de ferro da traseira do caminhão, também sorri.
O cobrador ri e novamente responde algo meio desconcertado.
O coletor então diz que sabe que o trabalho do cobrador parece fácil, mas tem hora que a coisa aperta, fica difícil, com muita tensão. Em seguida forma na sua mão um revólver com os dedos. Na seuqencia ele completa:
- Deus é maior!
O cobrador responde que o trabalho do coletor também parece difícil. O coletor confirma dizendo que é bom por passear também, mas o cheiro, andar pendurado, risco de tontura na cabeça, e muitas outras coisas fazem o serviço mais duro, mas "Deus é maior".
O sinal abre.
Os dois trabalhadores se despedem, risos em seus rostos.
O ônibus vai mais rápido que o caminhão de lixo.
Penso: e o motrista do caminhão, como será?
Espero passar pela janela e quando vejo, lá está ele, um homem de meia idade manipulando um jornal (que parece ser um daqueles distribuídos no metrô) e o voltante de seu caminhão.
Futebol pela manhã
Futebol.
O brasileiro Mancini fez gol pela Roma na vitória contra o Real Madrid pela liga dos campeões.
Vi essa notícia em dois noticiários pela manhã, ambas narradas com um entiusiasmo pelo sucesso do futebol brasileiro.
Argh.
O brasileiro Mancini fez gol pela Roma na vitória contra o Real Madrid pela liga dos campeões.
Vi essa notícia em dois noticiários pela manhã, ambas narradas com um entiusiasmo pelo sucesso do futebol brasileiro.
Argh.
There will be blood
There will be blood é there will be blood.
A tradução não foi feliz para o recente filme de Paul Thomas Anderson, a expressão 'Sangue Negro' é até compreensível no filme, mas o título original é o tom do filme.
Filmaço, ele exploode na tela, um verdadeiro filme de cinema em tempos que muitos consideram que ver em casa ou no computador não faz a menor diferença. Os enquadramentos são cuidadosos para expor uma narrativa linear mas perpendicularizada com os elementos que compõem a vida ebuliçada do personagem interpretado por Daniel Day Lewis. O desenho de som do filme constrói um envolvimento perturbador, uma concepção rara de ser ver.
No início do século XXI trazer um enredo que se passa no início do século XX e sobre o petróleo, é por si só uma reflexão importante para pensarmos quais valores construíram o século passado e que herdamos numa selvageria individualista.
A tradução não foi feliz para o recente filme de Paul Thomas Anderson, a expressão 'Sangue Negro' é até compreensível no filme, mas o título original é o tom do filme.
Filmaço, ele exploode na tela, um verdadeiro filme de cinema em tempos que muitos consideram que ver em casa ou no computador não faz a menor diferença. Os enquadramentos são cuidadosos para expor uma narrativa linear mas perpendicularizada com os elementos que compõem a vida ebuliçada do personagem interpretado por Daniel Day Lewis. O desenho de som do filme constrói um envolvimento perturbador, uma concepção rara de ser ver.
No início do século XXI trazer um enredo que se passa no início do século XX e sobre o petróleo, é por si só uma reflexão importante para pensarmos quais valores construíram o século passado e que herdamos numa selvageria individualista.
30 abril 2007
Um pensamento
Uma mulher acha que um ex-namorado seu é muito egoísta, e por conta disso não suporta ver sua cara. Mas, por motivos que jamais poderemos saber, ela emprestou dinheiro a ele.
Tudo que ela quer agora é esse dinheiro de volta. Esse dinheiro demora, desculpas e mais desculpas. Mas são desculpas sinceras pois ele não tem onde cair morto.
Se tiver que cair, cairá no porta-mala de seu carro, tudo que ele possui.
E o pior, ele não a ama!
Uma mulher acha que um ex-namorado seu é muito egoísta, e por conta disso não suporta ver sua cara. Mas, por motivos que jamais poderemos saber, ela emprestou dinheiro a ele.
Tudo que ela quer agora é esse dinheiro de volta. Esse dinheiro demora, desculpas e mais desculpas. Mas são desculpas sinceras pois ele não tem onde cair morto.
Se tiver que cair, cairá no porta-mala de seu carro, tudo que ele possui.
E o pior, ele não a ama!
29 abril 2007
Do infinito
Nada pode parecer com o infinito se cada olhar se dirigir apenas para o concreto
Permitir o abstrato...
O universo se cria em cada ligação do próprio pensamento com a percepção da realidade
Deixe-se criar continuamente
Permitir o abstrato...
O universo se cria em cada ligação do próprio pensamento com a percepção da realidade
Deixe-se criar continuamente
26 abril 2007
Retorno
Um retorno é sempre possível, não para uma mera repetição.
Nada de repetições!
Acredito na vida contínua, no cada segundo mais deiferente daquele que passou.
Mas retornemos ao retorno... é bom voltar para desfrutar como nunca foi antes
Para eclipsar vestígios do que ficou e sentir o presente como essencial para a própria existência.
Permitir o segundo depois...e outro depois.. e mais outro depois.
This life minds me of a carroussel...
Assim diria Drugstore na voz de Isabel Monteiro ('Accelerate' in Drugstore, 1995)
Nada de repetições!
Acredito na vida contínua, no cada segundo mais deiferente daquele que passou.
Mas retornemos ao retorno... é bom voltar para desfrutar como nunca foi antes
Para eclipsar vestígios do que ficou e sentir o presente como essencial para a própria existência.
Permitir o segundo depois...e outro depois.. e mais outro depois.
This life minds me of a carroussel...
Assim diria Drugstore na voz de Isabel Monteiro ('Accelerate' in Drugstore, 1995)
21 outubro 2006
Mostra Londrina de Cinema
Esta semana ocorre a 8ª Mostra Londrina de Cinema, vou à Londrina desde a primeira edição desta mostra, que começou como uma mostra de Super 8 e o que vejo é o amadurecimento e fortalecimento do audiovisual nesta cidade a partir deste evento.
A hospitalidade, marca registrada de Londrina, aumenta o fazer 'se sentir em casa' tão comum para quem visita esta cidade. Outra marca bem interessante, desde os tempos de Super 8, é o fato de reunir realizadores e pessoas ligadas ao audiovisual e a partir disto se falar muito de cinema nos dias em que se passa pela mostra. E todo esse papo não rola com formalidades, é conversa em bar, almoço, na van, por onde se pára lá está a turma da mostra debatendo cinema, o que torna o ambiente muito produtivo intelectualmente. Rola muito outros papos também, para não acharem que há uma bitolação cinematográfica.
Enfium, ir 8 anos à Londrina me fez conhcer muita gente e ter amigos bem considerados.
Para conhecer mais a mostra: www.mostralondrinadecinema.com.br
A hospitalidade, marca registrada de Londrina, aumenta o fazer 'se sentir em casa' tão comum para quem visita esta cidade. Outra marca bem interessante, desde os tempos de Super 8, é o fato de reunir realizadores e pessoas ligadas ao audiovisual e a partir disto se falar muito de cinema nos dias em que se passa pela mostra. E todo esse papo não rola com formalidades, é conversa em bar, almoço, na van, por onde se pára lá está a turma da mostra debatendo cinema, o que torna o ambiente muito produtivo intelectualmente. Rola muito outros papos também, para não acharem que há uma bitolação cinematográfica.
Enfium, ir 8 anos à Londrina me fez conhcer muita gente e ter amigos bem considerados.
Para conhecer mais a mostra: www.mostralondrinadecinema.com.br
03 outubro 2006
Manuela, deputada federal mais votada no RS
(Abaixo entrevista de Manuela D'Ávila antes das eleições nas quais ela se elegeu deputada federal pelo RS. A entrevista foi para o blog Nova Corja: http://www.insanus.org/novacorja)
Manuela d'Ávila se tornou uma das vereadoras mais conhecidas de Porto Alegre nesta gestão. Sangue novo na casa, socialista do PCdoB, vinda do movimento estudantil, as câmeras se focaram nela. Chegou a ser considerada musa da Câmara, mas argumenta que, sendo a mais jovem entre as vereadoras, é fácil levar o prêmio. O sucesso nas urnas é tanto que, neste pleito, concorre a deputada federal, com a esperança de puxar o PCdoB para além dos 5% de votos exigidos pela cláusula de barreira.
Os repórteres de Nova Corja Marcelo Träsel e Daniel Gallas visitaram a vereadora em seu gabinete há cerca de dois meses. Por absoluta negligência e vagabundagem, até hoje a entrevista não fora transcrita. Felizmente Rodrigo Alvares se irritou com a situação e decidiu fazê-lo. A conversa de mais de uma hora será publicada em partes.
Manuela nos recebeu desconfiada. Brincando, disse aos assessores: "nossos inimigos estão aqui". Alertou-nos mais de uma vez que não ficaria barato se descontextualizássemos ou mentíssemos pura e simplesmente. Já teve problemas com a imprensa. Queremos crer que em pouco tempo o gelo quebrou e conseguimos mostrar a pureza de nossos objetivos. A saber, ter uma visão nova da política municipal, pelos olhos de uma protagonista ainda não contaminada por mandatos sucessivos.
O gabinete de Manuela é todo cor-de-rosa. O rádio tocava rock quando chegamos. Nas paredes, clipping de notícias sobre seu mandato. Os assessores são todos bastante jovens. A vereadora fala rápido, gesticula muito e solta alguns palavrões de vez em quando. Fuma. Não é o estereótipo do político de esquerda, porém. Em momento algum tentou fazer proselitismo e diz que gostaria de ver uma esquerda mais leve e solta. Para ter uma idéia, assista aqui a um pequeno vídeo.
Träsel: A gente ficou interessado em saber como uma pessoa mais jovem na política vê a situação em Porto Alegre e no Brasil de uma maneira geral.
Gallas: É mais ou menos o que o Marcelo falou: é jovem, tá começando agora num ambiente em que boa parte dos jovens não está pensando muito em política ou se preocupando muito com política. E, se está pensando, é de uma forma bem contestadora, desiludida, não acho que é um cenário muito bonito.
Manuela: Tem algum momento da história que o cenário da política tenha sido bonito?
Gallas: Tem momentos da história que foram mais...
Manuela: Alguns foram poetizados. No Brasil, na história recente, pelo menos na Republicana não tem...
Gallas: Acho que foram momentos de otimismo, como na Redemocratização. Teve momentos em que todo mundo achou que dava, que as coisas iam para a frente. Agora, é o contrário: parece que toda a Redemocratização foi um fiasco. Mas a nossa idéia era falar da tua personalidade, que está entrando na política agora, justamente representando boa parte dessas pessoas, porque teus eleitores são jovens.
Manuela: Uma parte grande deles.
Gallas: Não todos?
Manuela: Uma parte bem siginificativa de gente mais velha, de professor universitário. Acho que é uma visão... Aqui, eu sou a única que trabalho nisso, a gente trabalha mais na questão da juventude, né? Agora, se for pegar dentro das universidades, na UFRGS, por exemplo, tem uma parte muito grande de professores que votaram em mim. Apoiaram a campanha, tipo o (Paulo) Vizentini, que é uma referência de pensamento de esquerda, com um voto significativo. E tem uma parte muito, e é engraçado, porque é a antítese do que as pessoas acham, de pessoas bem mais velhas, acima de 60 anos. É impressionante. Se passar uma manhã comigo no Brique, tu vai ficar impressionado. Muita gente de 50, 60 anos para cima vem falar comigo, se identificando como eleitores e tal. Óbvio que é fundamentalmente a juventude, mas não é só.
Gallas: Outro motivo para a gente vir falar contigo, não é só questão de seres jovem, mas também de esquerda...
Manuela: Tu vai dar pau na esquerda no blog?
Träsel: Pau a gente gosta de dar em todo mundo, mas como a esquerda tá no governo a gente...
Manuela: Tá, mas eu só vou falar um negócio para vocês. Por isso, é até bom que esteja gravado, pra vocês lembrarem disso. Porque se tem uma coisa que eu não suporto são mentiras. Pode colocar qualquer coisa que eu disse, agora tirar do contexto coisas que eu disse que nem tem uns colegas de vocês — nossos — fazem não é legal.
Träsel: É por isso que a gente se afastou da profissão também.
Manuela: É, porque tirar de contexto é diferente de colocar. Eu conheço o blog de vocês. Se vocês quiserem debochar da minha cara, debochar...
Träsel: Na verdade, a idéia é fazer mais um pingue-pongue.
Manuela: Não, só para combinar isso. Porque eu fico... Por exemplo, o Diego Casagrande tem a capacidade de inventar o que tu não dissestes. Então, ele já se complicou um pouco comigo por causa disso. A gente consefuiu se resolver numa boa, só nós dois. Porque eu, meu bem...
Träsel: Outra razão para a gente fazer essa entrevista é que chega todo ano eleitoral e a gente fica meio insatisfeito com a cobertura dos jornais. Como tem aquela história de dar o mesmo espaço para todo mundo, acabam não fazendo nada mais aprofundado.
Manuela: E sempre criam um mecanismo de não dar, né?
Träsel: É, tem isso. Então a nossa idéia era...
Manuela: Não, eu dei na boa [a entrevista ], meu. Mas sinceramente, quando eu li o bilhete, "ou eu vou dizer que não vou dar, mandar tomar no cu, não é isso? Não tenho que dar...".
Träsel: De onde vem o teu interesse em política? Especialmente política de esquerda, do Partido Comunista. É de família?
Manuela: Não é de família. Eu não sou neta de ninguém, que inventam que eu sou. Essa é outra mentira que falam. Tem jornalista que sabe que eu não sou, que já liguei pessoalmente para ele e ele continua dizendo que eu sou neta da Jussara Cony. Quando eu não sou neta, sou filha. Quando não sou filha, sou sobrinha. Quando eu não sou nada, inventam outro, tipo o Nereu D'Avila (PDT-RS). Não sou parente de ninguém próximo à política. É foda, entendeu? Aí é isso, eu teria orgulho de ser neta de qualquer pessoa que fosse. Tudo o que é jovem não é acostumado a ver a realidade como ela é. Tu tem uma fase da tua infância onde tu não é formado para ser crítico, né? Aí chega uma que tu começa a te dar conta das coisas, passa a observar mais ao teu redor. Eu até tenho uma tese que é a seguinte: as pessoas que são lógicas, que pensam, elas não podem viver em um mundo sem se questionar sobre ele. Não adianta, não é normal ter crianças passando fome, tem coisas não são normais. Eu tinha tudo. Eu comia, eu tinha casa, tinha família, tinha escola, e aí tu vai olhando para os lados e as pessoas não têm. Eu morei no interior por 12 anos. No interior, tem um convívio muito maior entre quem tem as coisas e quem não tem acesso às coisas.
Gallas: Tu morou em qual cidade?
Manuela: Eu morei em várias cidades. Morei em Pedro Osório, em Rio Grande, em São Lourenço.
Gallas: Filha de militar...
Manuela: Isso é machismo! Eu sou filha de mulher juiza [risos]. Então, o que acontece: no interior, tu convive mais. Aqui, não. Aqui o cara estuda em colégio particular e só convive com gente que nem ele. Lógico que essa questão aumentou na última década, mas já existia. Uma criança não anda sozinha pela rua, não vai no mercado. No interior, vai. Então, o que acontece, é que na cidade menor tu convive com essas pessoas. Tão dentro da tua sala de aula, pode até ser dentro da escola particular, como eu estudei. Só que não é o particular Dohms que eu estudei em Porto Alegre, que é uma escola supercara. É uma particular "escola de irmã", então metade da turma tem bolsa. Aí, tu tem tudo e o teu colega não tem nada. Então, acho que na adolescência tu te pergunta sobre isso. É normal. O que acontece na vida das pessoas: ou elas se acomodam — acomodam esse sentimento dentro delas. Sinceramente, acho que qualquer pessoa lógica, que pense, tem que se perguntar: ou tu acomoda ou tu instiga ele. O que aconteceu comigo, foi que a história de vida da minha mãe foi construída com muito sofrimento, mesmo. Com uma caminhada dura, que fizeram com que eu continuasse me questionando. Então, se com uns quinze anos eu já me identificava na época com o PT, que era o maior partido... Que é o partido com quem o povo se identifica, como sendo partido de esquerda. Comecei a tentar participar mais das coisas, teve a eleição de 1998. Participavba de comícios, bandeiraços, coisas assim, né, que já são uma forma de participação. Aí em 1999 eu entrei na UFRGS e na PUCRS ao mesmo tempo. E aí tu toma uma porrada na cara mesmo, que a universidade talvez seja o ambiente que mais te proporciona. E aí eu entrei no auge da Comunicação da PUCRS. Na UFRGS, era o auge da crise, não tinha nada, tinha uma máquina fotográfica pra fazer Comunicação. Vocês dois vieram da Fabico, sabem disso. Eu tinha aula numa sala que até o ano passado tinha a mesma goteira em cima. A URFGS acabada e a PUC com uma megaestrutura. Hoje já diminuiu o abismo entre a Fabico e a Famecos. Era assim, desproporcional, a gente tinha estúdio de cinema com tudo, e a federal nada. Então aí tu te dá conta. Tu vai te perguntando mais por que aquilo acontece. Aí tu vai ver teus colegas de aula. Metade da minha turma não se formou. Por quê? Porque não tinha grana para pagar. A universidade, eu acho que é o ambiente que mais te permite conviver com isso, de tu te questionar. Porque tu te dá conta de que quem tá ali vai ser a elite, não a financeira, mas a elite pensante do país. É isso. Ainda hoje, quem constrói o Brasil é quem sai da universidade.
Träsel: Mas qual é a tua avaliação do intercâmbio de idéias da elite pensante na universidade? Foi lá que teve mais contato com idéias...
Manuela: Tem muito limite, tem muito limite. A universidade foi pensada na última década, pelo Fernando Henrique, para ser um ambiente acrítico. É só tu ver a redução do investimento em pesquisa. Nas Humanas teve um fracasso de investimento. Por quê? Pra formular menos. Então tu sai de uma ditadura militar, tem um processo de redemocratização com um turbilhão de idéias. Todo mundo querendo a queda do Muro do Berlim. Pô, um monte de coisa. Tem gente que se abala. Fim da Esquerda, [Francis] Fukuyama, acabou a História. E aí vem um ambiente muito propício ao pensamento. E aí vem quem? Vem o tio FH e não investe mais nisso. E tu tem uma resistência dentro da faculdade, de pesquisadores, mas tem um limite que é pensado. Não é pensado, assim, maquiavelicamente, mas que é fruto de uma política, que é o neoliberalismo, que pensava um desenvolvimento dependente para o Brasil. Então, para responder à tua pergunta. Eu comecei a militar na greve. Nos apitaços, acampamentos - que inclusive depois geravam muitos filhos. Tinha vários namoros, casamentos, que aconteciam depois. É bom, né? Eu, pelo menos, luto para que o jovem de esquerda seja igual aos outros. Bom, mas aí eu me filiei na UJS [União da Juventude Socialista], que é a nossa organização de juventude do movimento estudantil.
Träsel: Da qual tu é presidente.
Manuela: Agora eu sou presidente estadual. O nosso presidente foi para a Executiva da UNE. Eu tinha sido presidente da UJS de Porto Alegre, bem antes. Nem me lembro o ano. 2001, acho. Em que ano a gente tá, 2006? Então foi em 2002. [Confirma com uma assessora]. Aí foi isso. Eu me organizei, depois de um ano, eu me filiei ao PC do B, porque eu não tinha convicção, queria entender a diferença entre o PC do B e do PT do ponto de vista de militante mesmo. Eu queria militar em um partido que...
Träsel: E qual é a diferença?
Manuela: A principal é para que serve tudo que a gente faz. Acho que essa é a principal. Nós não perdemos esse horizonte. Eu consigo entender a visão de vários petistas que não compreendem - não da direção, digo de pessoas que se identificam com o PT -, se identificavam com o PT e estão extremamente frustradas, porque não entendem o governo Lula historicamente. O governo Lula, pra gente, tem um objetivo claro: acumular força. Acumular força para quê? Para o nosso país crescer, se desenvolver. Para criar um ambiente democrático, né, porque o ambiente que o Fernando Henrique pensava não era um ambiente democrático. Um momento em que movimento social toma pau do exército, para não se manifestar. Então, criar um ambiente democrático para tu chegar no objetivo mais além, que é o Socialismo. A gente tá acumulando forças. Se eu entendesse como um fim nele mesmo, falava "porra, ele é o fim dele mesmo e não tá fazendo nenhuma transformação radical".
Gallas: Então, historicamente, o PT tenta acumular forças, mas de uma forma democrática.
Manuela: O PT, eu não sei. Nós fazemos isso, né? Nós queremos construir o Socialismo. O Socialismo é o nosso norte. Vamos fazer de conta que a gente tá numa estrada, tá? A nossa estrada, mas o mais longe que a gente consegue enxergar agora é o Socialismo, a gente é comunista. Vamos falar até o Socialismo.
Gallas: Mas qual o horizonte do PT, na tua opinião?
Manuela: Eu acho que alguns setores do PT defendem o Socialismo. E acham que o PT é um partido que constrói o Socialismo. Enfim, é legítimo que eles achem isso. Tem muito comunista no PT. Não acho que os comunistas todos estão no PC do B e tal. Agora, o PT, historicamente, é um partido em disputa. Tem um setor mais avançado e tem setor que defende uma Social-Democracia com direitos, talvez parecida com o que existiu em alguns momentos na Europa, mas que se mostrou fracassada. Mas acho que é isso, uma disputa.
Gallas: Tu acha que no PCdoB não tem disputa?
Manuela: Não, pra nós é muito claro isso. Essa é a diferença de um partido que não tem tendências. Então, nós temos isso muito claro. O PT é um partido que reivindica a construção de uma outra sociedade mas não aponta o Socialismo como a única alternativa deles. Acho que isso é o que melhor define.
Gallas: Por que a Câmara como espaço de atuação política?
Manuela: Porque a gente fez uma avaliação na época da eleição. Eu era da UNE. Tanto que eu me afastei da gestão quando concorri. A gente fez uma avaliação de que Porto Alegre... Primeiro, a gente sempre teve uma visão crítica com relação ao tratamento dado à temática de juventude. Há algum tempo a gente desenvolve isso. Subestimam mesmo o papel da juventude, com uma visão eleitoreira. De "bom, o quanto se tem que trabalhar essa temática porque é um contingente eleitoral grande". Essa é uma lógica que predomina no Brasil. E a gente fez a avaliação de que não existia esse espaço, porque nós, nos 16 anos de Administração Popular, embora a gente tenha tido alguns avanços na temática, tudo ainda foi muito limitado. A prova maior disso veio depois, né? Acho que a eleição confirmou que existia esse espaço. Confirmou mais: que poucos enxengarvam na esquerda algum tipo de renovação. Renovação política. É muito mais arejada a nossa campanha. Alguns tentam desqualificar, porque têm uma visão dogmática do que é esquerda. Reproduzem o dogmatismo da esquerda da década passada. Tentam desqualificar dizendo que é despolitização, porque transformava a política em algo mais simples para as pessoas compreenderem. Isso marcou a nossa idéia de que havia necessidade de renovar e de que havia a necessidade de trabalhar a juventude de uma maneira séria e sistemática em Porto Alegre. Não só eventualmente, quando desse na telha. E a maior prova disso é que depois que a gente veio para cá tudo, tudo, tudo, qualquer coisa que tu pensar relacionada à juventude, nunca existia em Porto Alegre. Nada. Tinha idéia, a gente ia conversando, fazendo reunião. Tínhamos as nossas propostas de candidatura. Depois que a gente encaminhou todas elas, bem, aí nos seis primeiros meses de mandato a gente tinha projeto com o que a gente propôs na campanha. Aí qualquer idéia que surgisse, a gente ia e lia para ver se algo a respeito tinha ou estava sendo feito, e não tinha nada. Única coisa que existia era o Dia Municipal do Grafite.
Manuela d'Ávila se tornou uma das vereadoras mais conhecidas de Porto Alegre nesta gestão. Sangue novo na casa, socialista do PCdoB, vinda do movimento estudantil, as câmeras se focaram nela. Chegou a ser considerada musa da Câmara, mas argumenta que, sendo a mais jovem entre as vereadoras, é fácil levar o prêmio. O sucesso nas urnas é tanto que, neste pleito, concorre a deputada federal, com a esperança de puxar o PCdoB para além dos 5% de votos exigidos pela cláusula de barreira.
Os repórteres de Nova Corja Marcelo Träsel e Daniel Gallas visitaram a vereadora em seu gabinete há cerca de dois meses. Por absoluta negligência e vagabundagem, até hoje a entrevista não fora transcrita. Felizmente Rodrigo Alvares se irritou com a situação e decidiu fazê-lo. A conversa de mais de uma hora será publicada em partes.
Manuela nos recebeu desconfiada. Brincando, disse aos assessores: "nossos inimigos estão aqui". Alertou-nos mais de uma vez que não ficaria barato se descontextualizássemos ou mentíssemos pura e simplesmente. Já teve problemas com a imprensa. Queremos crer que em pouco tempo o gelo quebrou e conseguimos mostrar a pureza de nossos objetivos. A saber, ter uma visão nova da política municipal, pelos olhos de uma protagonista ainda não contaminada por mandatos sucessivos.
O gabinete de Manuela é todo cor-de-rosa. O rádio tocava rock quando chegamos. Nas paredes, clipping de notícias sobre seu mandato. Os assessores são todos bastante jovens. A vereadora fala rápido, gesticula muito e solta alguns palavrões de vez em quando. Fuma. Não é o estereótipo do político de esquerda, porém. Em momento algum tentou fazer proselitismo e diz que gostaria de ver uma esquerda mais leve e solta. Para ter uma idéia, assista aqui a um pequeno vídeo.
Träsel: A gente ficou interessado em saber como uma pessoa mais jovem na política vê a situação em Porto Alegre e no Brasil de uma maneira geral.
Gallas: É mais ou menos o que o Marcelo falou: é jovem, tá começando agora num ambiente em que boa parte dos jovens não está pensando muito em política ou se preocupando muito com política. E, se está pensando, é de uma forma bem contestadora, desiludida, não acho que é um cenário muito bonito.
Manuela: Tem algum momento da história que o cenário da política tenha sido bonito?
Gallas: Tem momentos da história que foram mais...
Manuela: Alguns foram poetizados. No Brasil, na história recente, pelo menos na Republicana não tem...
Gallas: Acho que foram momentos de otimismo, como na Redemocratização. Teve momentos em que todo mundo achou que dava, que as coisas iam para a frente. Agora, é o contrário: parece que toda a Redemocratização foi um fiasco. Mas a nossa idéia era falar da tua personalidade, que está entrando na política agora, justamente representando boa parte dessas pessoas, porque teus eleitores são jovens.
Manuela: Uma parte grande deles.
Gallas: Não todos?
Manuela: Uma parte bem siginificativa de gente mais velha, de professor universitário. Acho que é uma visão... Aqui, eu sou a única que trabalho nisso, a gente trabalha mais na questão da juventude, né? Agora, se for pegar dentro das universidades, na UFRGS, por exemplo, tem uma parte muito grande de professores que votaram em mim. Apoiaram a campanha, tipo o (Paulo) Vizentini, que é uma referência de pensamento de esquerda, com um voto significativo. E tem uma parte muito, e é engraçado, porque é a antítese do que as pessoas acham, de pessoas bem mais velhas, acima de 60 anos. É impressionante. Se passar uma manhã comigo no Brique, tu vai ficar impressionado. Muita gente de 50, 60 anos para cima vem falar comigo, se identificando como eleitores e tal. Óbvio que é fundamentalmente a juventude, mas não é só.
Gallas: Outro motivo para a gente vir falar contigo, não é só questão de seres jovem, mas também de esquerda...
Manuela: Tu vai dar pau na esquerda no blog?
Träsel: Pau a gente gosta de dar em todo mundo, mas como a esquerda tá no governo a gente...
Manuela: Tá, mas eu só vou falar um negócio para vocês. Por isso, é até bom que esteja gravado, pra vocês lembrarem disso. Porque se tem uma coisa que eu não suporto são mentiras. Pode colocar qualquer coisa que eu disse, agora tirar do contexto coisas que eu disse que nem tem uns colegas de vocês — nossos — fazem não é legal.
Träsel: É por isso que a gente se afastou da profissão também.
Manuela: É, porque tirar de contexto é diferente de colocar. Eu conheço o blog de vocês. Se vocês quiserem debochar da minha cara, debochar...
Träsel: Na verdade, a idéia é fazer mais um pingue-pongue.
Manuela: Não, só para combinar isso. Porque eu fico... Por exemplo, o Diego Casagrande tem a capacidade de inventar o que tu não dissestes. Então, ele já se complicou um pouco comigo por causa disso. A gente consefuiu se resolver numa boa, só nós dois. Porque eu, meu bem...
Träsel: Outra razão para a gente fazer essa entrevista é que chega todo ano eleitoral e a gente fica meio insatisfeito com a cobertura dos jornais. Como tem aquela história de dar o mesmo espaço para todo mundo, acabam não fazendo nada mais aprofundado.
Manuela: E sempre criam um mecanismo de não dar, né?
Träsel: É, tem isso. Então a nossa idéia era...
Manuela: Não, eu dei na boa [a entrevista ], meu. Mas sinceramente, quando eu li o bilhete, "ou eu vou dizer que não vou dar, mandar tomar no cu, não é isso? Não tenho que dar...".
Träsel: De onde vem o teu interesse em política? Especialmente política de esquerda, do Partido Comunista. É de família?
Manuela: Não é de família. Eu não sou neta de ninguém, que inventam que eu sou. Essa é outra mentira que falam. Tem jornalista que sabe que eu não sou, que já liguei pessoalmente para ele e ele continua dizendo que eu sou neta da Jussara Cony. Quando eu não sou neta, sou filha. Quando não sou filha, sou sobrinha. Quando eu não sou nada, inventam outro, tipo o Nereu D'Avila (PDT-RS). Não sou parente de ninguém próximo à política. É foda, entendeu? Aí é isso, eu teria orgulho de ser neta de qualquer pessoa que fosse. Tudo o que é jovem não é acostumado a ver a realidade como ela é. Tu tem uma fase da tua infância onde tu não é formado para ser crítico, né? Aí chega uma que tu começa a te dar conta das coisas, passa a observar mais ao teu redor. Eu até tenho uma tese que é a seguinte: as pessoas que são lógicas, que pensam, elas não podem viver em um mundo sem se questionar sobre ele. Não adianta, não é normal ter crianças passando fome, tem coisas não são normais. Eu tinha tudo. Eu comia, eu tinha casa, tinha família, tinha escola, e aí tu vai olhando para os lados e as pessoas não têm. Eu morei no interior por 12 anos. No interior, tem um convívio muito maior entre quem tem as coisas e quem não tem acesso às coisas.
Gallas: Tu morou em qual cidade?
Manuela: Eu morei em várias cidades. Morei em Pedro Osório, em Rio Grande, em São Lourenço.
Gallas: Filha de militar...
Manuela: Isso é machismo! Eu sou filha de mulher juiza [risos]. Então, o que acontece: no interior, tu convive mais. Aqui, não. Aqui o cara estuda em colégio particular e só convive com gente que nem ele. Lógico que essa questão aumentou na última década, mas já existia. Uma criança não anda sozinha pela rua, não vai no mercado. No interior, vai. Então, o que acontece, é que na cidade menor tu convive com essas pessoas. Tão dentro da tua sala de aula, pode até ser dentro da escola particular, como eu estudei. Só que não é o particular Dohms que eu estudei em Porto Alegre, que é uma escola supercara. É uma particular "escola de irmã", então metade da turma tem bolsa. Aí, tu tem tudo e o teu colega não tem nada. Então, acho que na adolescência tu te pergunta sobre isso. É normal. O que acontece na vida das pessoas: ou elas se acomodam — acomodam esse sentimento dentro delas. Sinceramente, acho que qualquer pessoa lógica, que pense, tem que se perguntar: ou tu acomoda ou tu instiga ele. O que aconteceu comigo, foi que a história de vida da minha mãe foi construída com muito sofrimento, mesmo. Com uma caminhada dura, que fizeram com que eu continuasse me questionando. Então, se com uns quinze anos eu já me identificava na época com o PT, que era o maior partido... Que é o partido com quem o povo se identifica, como sendo partido de esquerda. Comecei a tentar participar mais das coisas, teve a eleição de 1998. Participavba de comícios, bandeiraços, coisas assim, né, que já são uma forma de participação. Aí em 1999 eu entrei na UFRGS e na PUCRS ao mesmo tempo. E aí tu toma uma porrada na cara mesmo, que a universidade talvez seja o ambiente que mais te proporciona. E aí eu entrei no auge da Comunicação da PUCRS. Na UFRGS, era o auge da crise, não tinha nada, tinha uma máquina fotográfica pra fazer Comunicação. Vocês dois vieram da Fabico, sabem disso. Eu tinha aula numa sala que até o ano passado tinha a mesma goteira em cima. A URFGS acabada e a PUC com uma megaestrutura. Hoje já diminuiu o abismo entre a Fabico e a Famecos. Era assim, desproporcional, a gente tinha estúdio de cinema com tudo, e a federal nada. Então aí tu te dá conta. Tu vai te perguntando mais por que aquilo acontece. Aí tu vai ver teus colegas de aula. Metade da minha turma não se formou. Por quê? Porque não tinha grana para pagar. A universidade, eu acho que é o ambiente que mais te permite conviver com isso, de tu te questionar. Porque tu te dá conta de que quem tá ali vai ser a elite, não a financeira, mas a elite pensante do país. É isso. Ainda hoje, quem constrói o Brasil é quem sai da universidade.
Träsel: Mas qual é a tua avaliação do intercâmbio de idéias da elite pensante na universidade? Foi lá que teve mais contato com idéias...
Manuela: Tem muito limite, tem muito limite. A universidade foi pensada na última década, pelo Fernando Henrique, para ser um ambiente acrítico. É só tu ver a redução do investimento em pesquisa. Nas Humanas teve um fracasso de investimento. Por quê? Pra formular menos. Então tu sai de uma ditadura militar, tem um processo de redemocratização com um turbilhão de idéias. Todo mundo querendo a queda do Muro do Berlim. Pô, um monte de coisa. Tem gente que se abala. Fim da Esquerda, [Francis] Fukuyama, acabou a História. E aí vem um ambiente muito propício ao pensamento. E aí vem quem? Vem o tio FH e não investe mais nisso. E tu tem uma resistência dentro da faculdade, de pesquisadores, mas tem um limite que é pensado. Não é pensado, assim, maquiavelicamente, mas que é fruto de uma política, que é o neoliberalismo, que pensava um desenvolvimento dependente para o Brasil. Então, para responder à tua pergunta. Eu comecei a militar na greve. Nos apitaços, acampamentos - que inclusive depois geravam muitos filhos. Tinha vários namoros, casamentos, que aconteciam depois. É bom, né? Eu, pelo menos, luto para que o jovem de esquerda seja igual aos outros. Bom, mas aí eu me filiei na UJS [União da Juventude Socialista], que é a nossa organização de juventude do movimento estudantil.
Träsel: Da qual tu é presidente.
Manuela: Agora eu sou presidente estadual. O nosso presidente foi para a Executiva da UNE. Eu tinha sido presidente da UJS de Porto Alegre, bem antes. Nem me lembro o ano. 2001, acho. Em que ano a gente tá, 2006? Então foi em 2002. [Confirma com uma assessora]. Aí foi isso. Eu me organizei, depois de um ano, eu me filiei ao PC do B, porque eu não tinha convicção, queria entender a diferença entre o PC do B e do PT do ponto de vista de militante mesmo. Eu queria militar em um partido que...
Träsel: E qual é a diferença?
Manuela: A principal é para que serve tudo que a gente faz. Acho que essa é a principal. Nós não perdemos esse horizonte. Eu consigo entender a visão de vários petistas que não compreendem - não da direção, digo de pessoas que se identificam com o PT -, se identificavam com o PT e estão extremamente frustradas, porque não entendem o governo Lula historicamente. O governo Lula, pra gente, tem um objetivo claro: acumular força. Acumular força para quê? Para o nosso país crescer, se desenvolver. Para criar um ambiente democrático, né, porque o ambiente que o Fernando Henrique pensava não era um ambiente democrático. Um momento em que movimento social toma pau do exército, para não se manifestar. Então, criar um ambiente democrático para tu chegar no objetivo mais além, que é o Socialismo. A gente tá acumulando forças. Se eu entendesse como um fim nele mesmo, falava "porra, ele é o fim dele mesmo e não tá fazendo nenhuma transformação radical".
Gallas: Então, historicamente, o PT tenta acumular forças, mas de uma forma democrática.
Manuela: O PT, eu não sei. Nós fazemos isso, né? Nós queremos construir o Socialismo. O Socialismo é o nosso norte. Vamos fazer de conta que a gente tá numa estrada, tá? A nossa estrada, mas o mais longe que a gente consegue enxergar agora é o Socialismo, a gente é comunista. Vamos falar até o Socialismo.
Gallas: Mas qual o horizonte do PT, na tua opinião?
Manuela: Eu acho que alguns setores do PT defendem o Socialismo. E acham que o PT é um partido que constrói o Socialismo. Enfim, é legítimo que eles achem isso. Tem muito comunista no PT. Não acho que os comunistas todos estão no PC do B e tal. Agora, o PT, historicamente, é um partido em disputa. Tem um setor mais avançado e tem setor que defende uma Social-Democracia com direitos, talvez parecida com o que existiu em alguns momentos na Europa, mas que se mostrou fracassada. Mas acho que é isso, uma disputa.
Gallas: Tu acha que no PCdoB não tem disputa?
Manuela: Não, pra nós é muito claro isso. Essa é a diferença de um partido que não tem tendências. Então, nós temos isso muito claro. O PT é um partido que reivindica a construção de uma outra sociedade mas não aponta o Socialismo como a única alternativa deles. Acho que isso é o que melhor define.
Gallas: Por que a Câmara como espaço de atuação política?
Manuela: Porque a gente fez uma avaliação na época da eleição. Eu era da UNE. Tanto que eu me afastei da gestão quando concorri. A gente fez uma avaliação de que Porto Alegre... Primeiro, a gente sempre teve uma visão crítica com relação ao tratamento dado à temática de juventude. Há algum tempo a gente desenvolve isso. Subestimam mesmo o papel da juventude, com uma visão eleitoreira. De "bom, o quanto se tem que trabalhar essa temática porque é um contingente eleitoral grande". Essa é uma lógica que predomina no Brasil. E a gente fez a avaliação de que não existia esse espaço, porque nós, nos 16 anos de Administração Popular, embora a gente tenha tido alguns avanços na temática, tudo ainda foi muito limitado. A prova maior disso veio depois, né? Acho que a eleição confirmou que existia esse espaço. Confirmou mais: que poucos enxengarvam na esquerda algum tipo de renovação. Renovação política. É muito mais arejada a nossa campanha. Alguns tentam desqualificar, porque têm uma visão dogmática do que é esquerda. Reproduzem o dogmatismo da esquerda da década passada. Tentam desqualificar dizendo que é despolitização, porque transformava a política em algo mais simples para as pessoas compreenderem. Isso marcou a nossa idéia de que havia necessidade de renovar e de que havia a necessidade de trabalhar a juventude de uma maneira séria e sistemática em Porto Alegre. Não só eventualmente, quando desse na telha. E a maior prova disso é que depois que a gente veio para cá tudo, tudo, tudo, qualquer coisa que tu pensar relacionada à juventude, nunca existia em Porto Alegre. Nada. Tinha idéia, a gente ia conversando, fazendo reunião. Tínhamos as nossas propostas de candidatura. Depois que a gente encaminhou todas elas, bem, aí nos seis primeiros meses de mandato a gente tinha projeto com o que a gente propôs na campanha. Aí qualquer idéia que surgisse, a gente ia e lia para ver se algo a respeito tinha ou estava sendo feito, e não tinha nada. Única coisa que existia era o Dia Municipal do Grafite.
02 outubro 2006
Pente Fino no WC

Salve Salve!
Imperdível a peça "Pente Fino", encenada no banheiro masculino do Hotel Renaissance em São Paulo. Texto de Cristopher Welzenbach com adaptação de Daniel Gaggini e Luciana Rossi.
Os meandros de negociações sórdidas nos bastidores inescrupulosos da política brasileira é o que espectador encontra nessa brilhante montagem que possui, além de um bom texto, interpretações cheias de nuances que dão força a cada personagem com peculiar maestria.
A peça se passa num banheiro masculino e o público acompanha a peça ao redor como num teatro de arena e ainda com a liberdade de movimentação para experimentar melhores angulos para ver o espetáculo.
Banheiro Masculino do Teatro Renaissance (Al. Santos, 2233)
Sexta: 21:45
Sabado: 21:15
Domingo: 18:15
www.wcpentefino.com.br
Segundo Turno
E vamos ao segundo turno!
Mas não posso deixar de constatar aqui vitórias positivas:
4 estados: AC, PI, SE e espetacularmente BA
2 importantes segundos turnos: PA e com muita torcida RS
E deixo também um saudoso abraço às deputadas federais do PC do B Perpétua (AC) e Manuela (RS), ambas as mais votadas em seus estados.
Mas não posso deixar de constatar aqui vitórias positivas:
4 estados: AC, PI, SE e espetacularmente BA
2 importantes segundos turnos: PA e com muita torcida RS
E deixo também um saudoso abraço às deputadas federais do PC do B Perpétua (AC) e Manuela (RS), ambas as mais votadas em seus estados.
Cinema, Aspirinas e Urubus

Salve Salve!
Cinema, Aspirinas e Urubus volta às telas paulistanas, por favor aqueles que ainda não viram, aproveitem, um belo filme com uma bela sensibilidade acerca do que é possível nas relações humanas.
E pra quem viu, mais uma oportunidade para rever, rever e rever.
Sem dúvida é um filme para impregnar em nossas retinas e nas nossas almas.
Reserva Cultural (Av. Paulista, 900)
13:30; 17:40; 19:40
p.s.: Este filme é indicado pelo Brasil para uma indicação ao Oscar.
Palavras de Cicero
as melhores armas para a velhice são o conhecimento e a prática das virtudes. Cultivados em qualquer idade, eles dão frutos soberbos no término de uma existência bem vivida. Eles não somente jamais nos abandonam, mesmo no último momento da vida - o que já é muito importante -, como também a simples consciência de ter vivido sabiamente, associada à lembrança de seus próprios benefícios, é uma sensação das mais agradáveis.
(Saber Envelhecer, de Cícero)
(Saber Envelhecer, de Cícero)
26 setembro 2006
Do coloquio a reflexao
Para quem ainda não conhece todas as minhas facetas, entre várias atividades que exerço está o estudo de filosofia, sou graduado nesta área e no momento estou fazendo mestrado em filosofia política, o objeto do meu estudo é a corrupção em Maquiavel. Faço o mestrado na Universidade São Judas Tadeu, e esta semana ocorre por lá o Simpósio Multidisciplinar, evento que conta com simpósios e palestras das diversas áreas de estudo da universidade.
Ontem, numa segunda-feira fria e tipicamente paulistana, ocorreu o II Mini Colóquio: As Margens da Filosofia, que teve apresentações de três professores da São Judas: Eunice Ostrensky, Hélio Salles Gentil e Paulo Jonas Lima Piva. O objetivo deste colóquio é a exposição de outras áreas que podem promover a reflexão em filosofia, mesmo que não estejam diretamente associadas ao estudo de filosofia.
A Profa Eunice, que me orienta no mestrado, fez uma exposição acerca do Rei Lear, texto daquele meu xará inglês, o Shakespeare, o Prof. Hélio falou de Cortázar e o Prof Piva fez uma inflamada apresentação do filósofo francês Michel Onfray. Será impossível expor aqui todo o conteúdo das três apresentações, ou até mesmo elaborar um texto que possa dar conta de todas as nuances do que foi falado por lá, mas colocarei dois detalhes que me chamaram a atenção.
Primeiro foi o fato de que os três comentaram sobre, isto já na minha óptica, fuga. Fugir não no sentido negativo, de abandono, e sim de fugir para buscar algo novo. A Eunice trouxe algumas considerações interessantes sobre a tragédia do Rei Lear nas quais o excesso de poder de um rei pode se tornar um elemento desestabilizador da ordem, o estado das coisas esteabelecido pelas relações na família do rei se torna um câncer à medida que tudo é colocado à prova. Ao se buscar o rompimento desse estado das coisas, o que se apresenta é uma descida ao inferno, tudo se desfaz, inclusive a razão. Verifico nisto que a fuga se deve dar antes que, através da razão, possamos nos dar conta que um vicioso estado das coisas se estabeleceu.
Cortázar, autor que é uma lacuna no meu repertório literário, por si só desperta curiosidade, mas na exposicão do Hélio ganhou uma dimensão peculiar. Um dos pontos levantados foi sobre uma 'constante lúdica' e 'um lançamento ao aberto', que pode ser verificado nos textos de Cortázar. Isto pode também se configurar como uma fuga, uma disposição ao lúdico que permite que o conhecimento de mundo fuja de padrões, que se rompa com o estado das coisas à medida que a imaginação possa permitir. E isto nos dá uma dimensão do que é se admirar com o mundo pela primeira vez, mas pra isso acredito que devemos nos permitir, exercitar o ato de se lançar ao aberto. Podemos fugir sim, sempre que possamos causar rupturas para o novo. A exposição do Hélio termina com uma frase curiosa :"deixar os cronópios nos abrir as portas da admiração". Não se pergunte o que é cronópio, apenas deixer que ela abra a porta.
Após um breve intervalo, sobe no púlpito, convidando para a mesa o espítiro do Marques de Sade, o Piva com uma apresentação inflamada sobre o ateísmo militante de Michel Onfray. Outra vez me permito enxergar um comportamento de fuga, configurada pela não aceitação da ordem estabelecida pelas religiões monoteístas, o que é uma porta que se abre, é acima de tudo se permitir desfrutar de você mesmo e dos seus semelhantes, sem restrições de ideais ou culpa. Mas o que me chamou a atenção está associado ao segundo ponto que eu gostaria de levantar, que são as nossas possibilidades de absorver um mundo moldado por paradigmas sempre estabelecidos por conta de uma manipulação.
Se Shakespeare pretendia expor sua visão sobre a sórdida realidade, e se Cortázar pretende extrapolar qualquer realismo e se Onfray luta por uma nova ordem, isso tudo nos faz enxergar que a história da humanidade é uma história da manipulação, o que pra mim não é uma novidade, mas faz crer que o inferno se estabelece como regra. Então o ato de fugir é não uma reação e sim uma ação natural do homem, a reação se estabelece nas resistências às fugas.
Talvez eu tenha viajado demais, mas o teatro, a literatura e a própria filosofia apontaram para uma fuga, ou melhor, abriram uma porta como sempre fazem, cabe agora eu admirar!
Ontem, numa segunda-feira fria e tipicamente paulistana, ocorreu o II Mini Colóquio: As Margens da Filosofia, que teve apresentações de três professores da São Judas: Eunice Ostrensky, Hélio Salles Gentil e Paulo Jonas Lima Piva. O objetivo deste colóquio é a exposição de outras áreas que podem promover a reflexão em filosofia, mesmo que não estejam diretamente associadas ao estudo de filosofia.
A Profa Eunice, que me orienta no mestrado, fez uma exposição acerca do Rei Lear, texto daquele meu xará inglês, o Shakespeare, o Prof. Hélio falou de Cortázar e o Prof Piva fez uma inflamada apresentação do filósofo francês Michel Onfray. Será impossível expor aqui todo o conteúdo das três apresentações, ou até mesmo elaborar um texto que possa dar conta de todas as nuances do que foi falado por lá, mas colocarei dois detalhes que me chamaram a atenção.
Primeiro foi o fato de que os três comentaram sobre, isto já na minha óptica, fuga. Fugir não no sentido negativo, de abandono, e sim de fugir para buscar algo novo. A Eunice trouxe algumas considerações interessantes sobre a tragédia do Rei Lear nas quais o excesso de poder de um rei pode se tornar um elemento desestabilizador da ordem, o estado das coisas esteabelecido pelas relações na família do rei se torna um câncer à medida que tudo é colocado à prova. Ao se buscar o rompimento desse estado das coisas, o que se apresenta é uma descida ao inferno, tudo se desfaz, inclusive a razão. Verifico nisto que a fuga se deve dar antes que, através da razão, possamos nos dar conta que um vicioso estado das coisas se estabeleceu.
Cortázar, autor que é uma lacuna no meu repertório literário, por si só desperta curiosidade, mas na exposicão do Hélio ganhou uma dimensão peculiar. Um dos pontos levantados foi sobre uma 'constante lúdica' e 'um lançamento ao aberto', que pode ser verificado nos textos de Cortázar. Isto pode também se configurar como uma fuga, uma disposição ao lúdico que permite que o conhecimento de mundo fuja de padrões, que se rompa com o estado das coisas à medida que a imaginação possa permitir. E isto nos dá uma dimensão do que é se admirar com o mundo pela primeira vez, mas pra isso acredito que devemos nos permitir, exercitar o ato de se lançar ao aberto. Podemos fugir sim, sempre que possamos causar rupturas para o novo. A exposição do Hélio termina com uma frase curiosa :"deixar os cronópios nos abrir as portas da admiração". Não se pergunte o que é cronópio, apenas deixer que ela abra a porta.
Após um breve intervalo, sobe no púlpito, convidando para a mesa o espítiro do Marques de Sade, o Piva com uma apresentação inflamada sobre o ateísmo militante de Michel Onfray. Outra vez me permito enxergar um comportamento de fuga, configurada pela não aceitação da ordem estabelecida pelas religiões monoteístas, o que é uma porta que se abre, é acima de tudo se permitir desfrutar de você mesmo e dos seus semelhantes, sem restrições de ideais ou culpa. Mas o que me chamou a atenção está associado ao segundo ponto que eu gostaria de levantar, que são as nossas possibilidades de absorver um mundo moldado por paradigmas sempre estabelecidos por conta de uma manipulação.
Se Shakespeare pretendia expor sua visão sobre a sórdida realidade, e se Cortázar pretende extrapolar qualquer realismo e se Onfray luta por uma nova ordem, isso tudo nos faz enxergar que a história da humanidade é uma história da manipulação, o que pra mim não é uma novidade, mas faz crer que o inferno se estabelece como regra. Então o ato de fugir é não uma reação e sim uma ação natural do homem, a reação se estabelece nas resistências às fugas.
Talvez eu tenha viajado demais, mas o teatro, a literatura e a própria filosofia apontaram para uma fuga, ou melhor, abriram uma porta como sempre fazem, cabe agora eu admirar!
18 setembro 2006
Gustavo Acioli
Participo da equipe do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo desde 2005 na produção das mostras brasileiras, e uma entre as infinitas satisfações que este trabalho me traz é a possibilidade de conhecer pessoas de vários cantos do Brasil e do planeta.
E foi nesse meu primeiro ano de festival que conheci Gustavo Acioli, que estava com o inquietante curta "Mora na Filosofia". Seu trabalho anterior chamado "Nada a Declarar" já havia me instigado em vários aspectos, principalmente pela forma de apresentar alguns problemas político-sociais que acredito que devem ser debatidos.
Também músico, Gustavo Acioli lançou o CD "eu, camelô de mim", trabalho feito com uma sonoridade que traz um estilo peculiar, bom pra ouvir e refletir.
E tem mais, ainda este ano chega às telas seu primeiro longa-metragem "Incuráveis".
Deixo aqui a sugestão pra conhecer também o Acioli através do site www.acioli.com, lá é possível assistir aos seus curtas.
E foi nesse meu primeiro ano de festival que conheci Gustavo Acioli, que estava com o inquietante curta "Mora na Filosofia". Seu trabalho anterior chamado "Nada a Declarar" já havia me instigado em vários aspectos, principalmente pela forma de apresentar alguns problemas político-sociais que acredito que devem ser debatidos.
Também músico, Gustavo Acioli lançou o CD "eu, camelô de mim", trabalho feito com uma sonoridade que traz um estilo peculiar, bom pra ouvir e refletir.
E tem mais, ainda este ano chega às telas seu primeiro longa-metragem "Incuráveis".
Deixo aqui a sugestão pra conhecer também o Acioli através do site www.acioli.com, lá é possível assistir aos seus curtas.
Otimismo/Pessimismo
Passeando pelos canais de TV pesquei uma entrevista do Cacá Diegues e de lá trago pra cá uma interessante frase, que chegou até ele em maio de 68.
"Vamos deixar o pessimismo para quando tudo estiver bem"
"Vamos deixar o pessimismo para quando tudo estiver bem"
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