20 julho 2013

Compreender o que é a Militancia no Século XXI



O companheiro Mário novamente nos lançou uma colaboração importante para reflexão nesses dias que vivemos, o seu texto “Quemtem medo do novo” traz elementos que podem fincar certas bases para aprimorarmos o pensamento. Iniciarei com um desabafo que pode me custar muitas críticas, mas prefiro, nesse momento, ser bem sincero.

Não sou entusiasta das manifestações. Também não condeno a ida às ruas. Melhor transporte público, melhor saúde, melhor educação, menos privatizações, também é ÓBVIO que sou a favor dessas reinvindicações. E me diga, quem não é? Ah, os governantes corruptos, os capitalistas de direita, os grandes grupos de comunicação, sim, sim e sim. Pois bem, vivemos mesmo uma luta ideologicamente dialética?

Falta-me entusiasmo por uma simples falta de identificação, apesar de que OBVIAMENTE me identifico com as reinvindicações. O motivo também não é o “medo do novo”, quem me conhece mais de perto sabe o quanto sou muito ligado à juventude, principalmente na área cultural. Inclusive, enquanto muitos criticam as novas gerações, eu apoio e as compreendo, enxergo que a tecnologia e o seu pensamento menos estanque em conceitos predefinidos leva essa juventude a ser mais incisiva em suas colocações.

A falta de identificação vem porque acredito que estamos num processo lento, repito: LENTO de transformações profundas nesse país. Lutei muito para que 2002 fosse um ano realmente de virada histórica para o Brasil, e foi! E minha luta não estava baseada em ideais perfeitos, cheios de éticas inabaláveis ou romanticamente revolucionários, estava baseada no sentimento de que precisávamos começar a transformação. Já disse diversas vezes: a minha admiração pelo Lula não vem porque ele salvou esse país, ele apenas começou o processo, nada está salvo e precisamos compreender que continuamos sendo um país pobre!

Além de pobre temos dois canceres: corrupção e cultural neoliberal. Ambos estão fincados culturalmente, ou melhor, ideologicamente, nos cidadãos. Fala-se em corrupção dos governantes, mas no seio da população todos nós alimentamos o caixa dois de redes capitalistas, de traficantes de maconha (sou a favor da legalização), de mafiosos da pirataria e buscamos sonegar impostos quando podemos. A cultura neoliberal do estado mínimo está no constante discurso de que o Estado e a política atrapalham o cotidiano, aí surgem os discursos que não tem investimento pra educação, saúde, bla bla bla.

Além dos cânceres corrupção e cultura neoliberal, precisamos frear o monstro consumista, a cultura do ter e somente ter. A economia brasileira se fortaleceu nos últimos dez anos e nos levou a comprar mais e alargar os mercados internacionais de atuação do país, porém culturalmente pouco avançamos, e os conceitos de cidadania, de bens públicos e de coletividade se perdem cada vez mais. Se o capitalismo está em crise, o seu legado tem sido o individualismo cada vez mais agressivo.

Como muitos compreendem a justiça nos dias de hoje? Compreendem que se eu tenho algo, ninguém tem o direito de tirar de mim. Eu, particularmente, compreendo justiça como ninguém ter a necessidade de ter que tirar algo de alguém. É óbvio que jamais teremos uma sociedade 100% livre de assaltos ou roubos, mas a justiça precisa estar direcionada às causas das desigualdades sociais, que hoje é gerada pela cultura consumista.

Daí vem a minha única divergência ao texto do companheiro Mário, não considero que “uma consciência nova, anticapitalista” está se formando. Enxergo exatamente o contrário, é justamente a consciência capitalista do consumo, do real conhecimento das relações produto-consumidor, que está gerando insatisfação generalizada. Os cidadãos desejam consumir com qualidade. Não está em debate como construir um Estado forte e capaz de dar conta do nosso crescimento e demandas políticas e sociais, está em debate apenas a crítica, a insatisfação consumista. E pior: como se as nossas carências não fossem históricas.

Sugiro a leitura do seguinte artigo escrito por Wolfgang Streeck publicado na edição 79 da revista Piauí: clique aqui.

Volto a dar as mãos ao Mário na sua reflexão do papel de um partido comunista. Sim, um verdadeiro partido comunista deve ser o responsável em fertilizar o NOVO. Esse NOVO não está integralmente nas manifestações recentes, está apenas em parte, e precisamos compreender melhor o que é o NOVO no momento em que o país se encontra, no momento em que um processo de transformações está em curso, longe de estar consolidado e que está sendo duramente atacado e minado pelos mais diversos setores da sociedade, incluindo aí não as manifestações em si, mas suas nocivas reverberações.

Ao escrever a frase “parece que sua experiência [do PC do B] não foi suficiente para entender seu papel” no projeto de reformas do governo do PT nos últimos dez anos, Mário traz uma observação rica e concisamente importante. Não entrarei na questão que o Mário comentou sobre a opção pela socialdemocracia do partido, mas apenas observarei que a fertilização do novo não surge em função da não compreensão de uma participação histórica e que atualmente se faz necessária pela nítida falta de uma força à esquerda da própria esquerda no país.

“Sem o vigor e a virilidade de outrora”: novamente Mário nos coloca uma impotência de nosso partido, este que deveria estar à frente dessa força à esquerda que precisamos. Como eu disse acima, vivemos um momento de transformações que sim, como nunca antes na história desse país, são progressistas e que precisam se manter para que avancemos principalmente em soberania. As ruas mostraram que há insatisfação para avançarmos mais e mais rapidamente, só que defendo o pensamento de que o processo é lento e que a necessidade urgente é o empurrão à esquerda.

Esse movimento precisa se dar com a fortificação do nosso partido, historicamente compromissado com essa ação. E o movimento é renovar suas fileiras, compreender detidamente o que significa uma militância no século XXI, compreender mais de perto a comunicação mais adequada com os trabalhadores e mais, com os microempresários, pequenos produtores agrícolas, trabalhadores informais e os autônomos. Precisamos ir além dos sindicatos, centros acadêmicos, grêmios estudantis e lideranças comunitárias. Precisamos compreender que a nossa comunicação deve estar relacionada com as tecnologias, os debates virtuais e a multiplicidade de opiniões.

Reforço que o papel do partido precisa estar fortificado na sua comunicação, que é por onde passa o trem da História atualmente, e que segundo o companheiro Mário, parece que estamos perdendo, concluo que ainda não, até mesmo porque hoje a analogia mais adequada para o transporte da História é o avião, cuja decolagem precisa obviamente de um piloto, apenas precisamos do brevê e assumir a cabine antes da decolagem, assumir como verdadeiros militantes!

03 julho 2013

Estado e Comunicação

O texto aqui surge da reflexão sobre a necessidade de uma compreensão do papel do Estado nos dias atuais, e como isso evidencia a luta de classes e pode, com mecanismos de comunicação, aprimorar a organização dos trabalhadores. A referência é o livro de Lenin “O Estado e a Revolução”, por um lado como uma lanterna que ilumina o caminho para uma clareza dos conceitos fundamentais e assim fortalecer as bases do conhecimento do Estado, e por outro lado num aspecto mais crítico a essa obra em função de se abrir o debate para a realidade do século XXI. Iniciarei com o trecho de uma carta de Marx que é citada por Lenin nesse livro:

“O que eu fiz de novo consiste na demonstração seguinte: 1º que a existência das classes só se prende a certas batalhas históricas relacionadas com o desenvolvimento da produção; 2º que a luta das classes conduz necessariamente à ditadura do proletariado; 3º que essa própria ditadura é apenas a transição para a supressão de todas as classes e para a formação de uma sociedade sem classes.”

A análise de Lenin sobre essa passagem é interessante, ele destaca que a luta de classes não é o essencial do pensamento de Marx, até mesmo porque isso já havia sido desenvolvido por pensadores anteriores. Lenin destaca o seguinte:

“Quem só reconhece a luta de classes não é ainda marxista e pode muito bem não sair dos quadros do pensamento burguês e da política burguesa. Limitar o marxismo à luta de classes é truncá-lo, reduzi-lo ao que é aceitável para a burguesia. Só é marxista aquele que estende o reconhecimento da luta de classes ao reconhecimento da ditadura do proletariado. A diferença mais profunda ente o marxista e o pequeno (ou grande) burguês ordinário está aí. É sobre essa pedra de toque que é preciso experimentar a compreensão efetiva do marxismo e a adesão ao marxismo.”

Pois bem, vivemos atualmente em uma luta de classes e o caminho precisa ser direcionado à ditadura do proletariado, não temos as condições para a eliminação direta das classes e conforme exposto por Marx, isto seria uma terceira etapa exatamente sob a ditadura do proletariado. Faço inicialmente uma provocação: levando-se em conta a cultura capitalista imersa nos valores contemporâneos, sobre quais bases um marxista, por meio de um processo de comunicação, aproxima-se de um trabalhador assalariado comum e lhe orienta sobre a luta de classes vivida por todos nós e que, ao contrário do que esse trabalhador possa imaginar, o caminho para uma sociedade justa não passa pelo seu desejo de ascensão social, e que ele deverá fazer parte de uma revolução?

Obviamente que um marxista não é um pregador de praça pública, se bem que isso também pode ser necessário, mas a trajetória dos marxistas atualmente é pela sua organização, há um partido com uma orientação para a constituição da vanguarda que deverá conduzir os trabalhadores assalariados comuns para a revolução, para o caminho do socialismo. Assim, meu ponto de vista é que a comunicação socialista precisa ampliar para junto dos trabalhadores a compreensão do que é um Estado e como uma cidadania progressista estimula a vontade de participação e aí sim abrir caminhos para quais transformações, ou revoluções, podem realmente ser estabelecidas.

Segundo Lenin, há dois processos no caminho para o Estado sem classes, o que na verdade seria um não-Estado, pois o Estado existe como instrumento de opressão de uma classe sobre a outra, extingue-se as classes, o Estado perde sua função. O primeiro processo é a necessidade de uma revolução violenta para derrubar o Estado burguês ou capitalista; o segundo é o definhamento do Estado proletário ou ditadura do proletariado. A condução dos dois processos está nas mãos do proletariado ou classe trabalhadora. Lenin diz:

“A substituição do Estado burguês pelo Estado proletário não é possível sem uma revolução violenta. A abolição do Estado proletário, isto é, a abolição de todo e qualquer Estado, só é possível pelo ‘definhamento’”

Lanço outra provocação: será que a nossa comunicação está dando conta de deixar claro o significado desses dois processos (revolução violenta e definhamento)? Como adaptamos esses dois estágios para os dias atuais? O ponto de partida é a organização dos trabalhadores assalariados, incluindo aí autônomos e trabalhadores que possuem seus próprios negócios em escalas bem menores do que dos grandes capitalistas. Essa organização passa pela comunicação, fazer com que esses trabalhadores compreendam primeiramente a qual classe pertencem, como o Estado atual é opressor e por fim o seu papel como classe.

Eis que surge uma dificuldade, os valores da sociedade capitalista e de consumo, reforçados pelo neoliberalismo, leva ao individualismo mais agressivo, aquele em que o indivíduo se vê como não relacionado diretamente ao Estado, pois este se ausentou de um papel preponderante na sua formação; temos saúde, educação e lazer como bens privados, como mercadorias. O Estado se faz presente para esse indivíduo de formação capitalista apenas para a sua segurança, que nos dias de hoje, em especial no Brasil, recebe fortes críticas.

Outro aspecto que lança os cidadãos contra o Estado são os impostos, é quase senso comum que a carga tributária é abusiva e as pessoas gostariam muito de se afastar de suas relações com o Estado por conta dessa carga. Ainda segundo esses valores, o Estado não é reconhecido como um instrumento de opressão, pelo contrário, é visto como uma instituição fraca e que cada indivíduo é capaz de sobreviver sem ele. Ironicamente, há o sentimento em alguns cidadãos de que não há necessidade de viver com a presença de um Estado, sendo preferível sem ele e com os recursos capitalistas necessários.

O Estado oprime principalmente por conta de suas relações econômicas, pois faz assegurar os valores capitalistas que formam culturalmente o indivíduo, vivemos uma opressão cultural, norteada expressivamente pelo consumismo; “eu posso ter”, “eu posso pagar”. Quando Lenin fala de uma substituição violenta, enxergo que hoje isso não passaria necessariamente por armas e mortes, e sim excluir consideravelmente o apego ao consumismo. A luta hoje é ideológica e as armas são os mecanismos de comunicação.

A comunicação deve seguir o caminho para expor uma real compreensão da máquina do Estado nos dias de hoje. Lenin cita a máquina composta por uma burocracia administrativa e um exército permanente, que possuem o objetivo de defender os interesses da classe opressora. A revolução, segundo ele, visa destruir essa máquina e substituí-la por uma nova com a classe trabalhadora à frente. Acrescento que atualmente essa máquina possui ainda os meios de comunicação junto a ela, estes defendem os interesses lançando uma cruzada ideológica do individualismo, do consumismo e da vitória do capitalismo, quando bem sabemos que o sistema capitalista vive uma crise sem saída.

Lenin diz:

“É precisamente a pequena burguesia que se deixa atrair pela grande burguesia e subordinar-se a ela, graças a esse aparelho que dá ás camadas superiores do campesinato, dos pequenos artesãos, dos comerciantes, etc., empregos relativamente cômodos, tranquilos e honoríficos, cujos titulares se elevam acima do povo.”

Precisamos romper esse elo de atração, que hoje é fortificado ideologicamente pelos prazeres do capitalismo que, segundo a burguesia, venceu e se solidificou como modelo, ideologicamente o espaço para o socialismo está sendo minado. Antes de avançarmos na transformação do Estado há uma necessidade de vencer a luta ideológica. Como enxergo o caminho para a luta? Começarei novamente citando Lenin:

“A revolução capaz de arrastar a maioria do movimento só poderia ser “popular” com a condição de englobar o proletariado e os camponeses. Essas duas classes constituíam, então, ‘o povo’. Essas duas classes são solidárias, visto que a ‘máquina burocrática e militar do Estado’ as oprime, as esmaga e as explora. [...] sem essa aliança não há democracia sólida nem transformação social possível.”

O caminho se abre quando iniciarmos a verdadeira solidariedade entre as classes, quando for possível a compreensão, pelo próprio conjunto dos trabalhadores, de que eles formam um ‘povo’, e que essa constituição passa por um comprometimento solidário de classe. Nos dias atuais temos o contrário, não se busca uma solidariedade em função de um bem comum, a resolução dos problemas mais imediatos parece constituir a única pauta entre os trabalhadores, que enxergo como um reflexo direto da cultura consumista comentada mais acima. Como nos adverte Lenin, precisamos fortalecer essa aliança entre o conjunto de trabalhadores.

Mas qual comunicação é possível? Eis o nosso desafio como marxistas, por um lado é mais do que necessário um domínio de tecnologia, reconhecer que uma geração inteira está crescendo para tocar uma tela muito mais do que escrever num papel. Por outro lado, aprimorar e renovar os termos buscando uma melhor compreensão de conceitos fundamentais, entre eles o papel do Estado no século XXI, suas características primordiais, sua relação com o indivíduo culturalmente formado sob o capitalismo mais agressivo.

Para isso, o desafio nos lança para a nossa capacidade de organização, reunião de discussões capazes de promover o sentimento de reflexão e participação. Visando a reunião solidária dos trabalhadores, precisamos debater amplamente o Estado, suas constituições e instituições, e por quais mecanismos ele opera junto aos cidadãos. Precisamos buscar os meios para potencializar os encontros e as exposições. Não podemos ficar parados para incentivar apenas a agitação política, precisamos reunir, aglutinar para conversar e lidar com as contradições.

Vivemos numa sociedade da informação, estarmos intrinsecamente envolvidos com as suas próprias necessidades nos levará a ter mais armas para a luta. A derrubada violenta prevista por Lenin se concretizará quando fizermos cair as barreiras da ideologia capitalista cravadas atualmente na cultura e na informação. Devemos partir para dentro dos valores consumistas e miná-los por meio das nossas armas da comunicação. Precisamos nos preparar adequadamente.

26 junho 2013

Navegantes - Programa 2

Quando: 29 de junho de 2013
Onde: Editora FiloCzar - Rua Durval Guerra de Azevedo, 511 Pq. Sto. Antônio
Horário: 17h
Para saber mais sobre o Navegantes clique aqui.


"A CANGA"
PB / 12 minutos / 2001
Dir: Marcus Villar
Sinopse: Num descampado, no meio de uma lavoura seca, um velho agricultor obriga os filhos a colocar, nos ombros, uma canga de boi. A esposa e a nora também são forçadas a ajudar no trabalho. Fora de si, o velho perde o controle da situação e a família reage provocando um desfecho inusitado.

"DIAS DE GREVE"
DF / 25 minutos / 2009
Dir: Adriley Queiroz
Sinopse: Uma greve de serralheiros é deflagrada em uma periferia da capital federal. Neste período, muito mais que um despertar para uma consciência de classe, os operários redescobrem uma cidade e um tempo que não mais lhes pertencem.

"A HISTÓRIA DA ETERNIDADE"
PE / 10 minutos / 2000
Dir: Camilo Cavalcante
Sinopse: Acontecimentos que representam um amplo panorama da civilização ocidental e tudo que o ser humano é capaz, desde trucidar seu semelhante brutalmente até inventar a arte para libertar os sonhos estão presentes neste exercício visceral que expõe, sem concessões, a eterna tragédia humana.

"ACERCADACANA"
PE / 19 minutos / 2009
Dir: Felipe Peres Calheiros
Sinopse: Nos anos 1990, com a valorização do etanol e a expansão do latifúndio canavieiro, 15 mil famílias foram expulsas de seus sítios na zona da mata de Pernambuco. Maria Francisca decidiu resistir.

18 junho 2013

Crônica dos Olhos Profundos

Novamente uma necessidade, os olhos fundos de uma garota de 25 anos me dizem que algo está distante de mim. Meus músculos doem, o pescoço me dilacera a alma por meio da dor. Preciso pensar, concentrar... Ela está olhando para mim.

Ao encontro dela eu pensei, único objetivo mais lúcido naquele momento, meu cérebro errante e etilicamente amaldiçoado coordenava meu pensamento para tocá-la.

Foi então que percebi a sua distância, o quanto eu não era minimamente legível para a sua compreensão. Compreenderei melhor o seu sorriso do que o seu toque.

A realidade entre nós reina de forma absoluta.

Rudimentar é o sonho que nos alimenta, não exige nada apenas que nos aliviemos da própria realidade e a conduza conforme nossos anseios.

13 junho 2013

Dois Quarteirões Antes

Meu relato alguns minutos e dois quarteirões antes da intolerância policial ter reprimido com violência extrema a manifestação contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, conhecida como Revolta da Salada, e que seguia pacífica:

São Paulo, 13 de junho de 2013. 18:30h.

Acabei de passar no meio da manifestação na pça da República.

Tudo na paz.

Não nos deixemos apavorar por essa mídia que nos joga pra dentro de seus apocalipses.

Lojistas estão assustados, do meu lado o vendedor comparando com aquele dia do PCC em 2006, que também foi reflexo da datenização de nossos meios de comunicação.

Vamos celebrar nossa democracia em vez de criar fins dos tempos.

Um novo tempo começou.

Manifeste! Grite! Liberte-se!

TRAJETO

Saí do lgo do Arouche, cruzei a pça da república (no momento da passeata), rua 7 de abril, teatro municipal, viaduto do chá (fechado com a PM armada até os dentes), pça do patriarca (onde tomei uma bênção de sto antonio, padres estavam abençoando quem quisesse), rua direita, pça da sé, pça João mendes (por onde passou um ônibus elétrico pichado c/ os dizeres: Jovem, Comunista, Revolução), mais a frente meia dúzia de manifestantes pichavam uma agência da Caixa, pça da Liberdade, Kintaro (onde aprecio essa agradável noite que será completada com muito amor).

12 junho 2013

Precisamos não retroceder

Não fui um cara pintada, mas lutei, e muito, contra o nefasto neoliberalismo dos anos 90, fui militante antiFHC, mas não participei de passeatas e nem briguei com a PM. Apenas estudei, li a História e aprimorei meu conhecimentos políticos e históricos. 2002 representou uma virada fundamental em nosso país e considero que 2012 foi pra sampa. É ÓBVIO, repito, é ÓBVIO que há erros, tropeços e falhas. Pra isso temos uma democracia plenamente conquistada. Por favor, não vamos retroceder, estamos num caminho certo, vamos valorizá-lo e construir juntos, porque o neoliberalismo não descansa e está nos rondando. Lutemos por um humanismo e principalmente por diálogos, nem que seja para que eles ocorram com meus netos, mas que ocorram. Até a vitória sempre!

25 maio 2013

Elefante Vermelho

Recentemente, o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, foi o entrevistado do programa Roda Viva na TV Cultura e lá foi questionado sobre os estádios para a Copa do Mundo nas cidades de Manaus e Cuiabá, o questionamento se referiu principalmente à necessidade de possuir estádios modernos (diga-se padrão FIFA) em cidades cujo futebol local possui pouca expressividade no país, pois seus clubes jogam apenas a quarta divisão do Brasileirão.

Os estádios de Manaus e Cuiabá já são considerados por muita gente Brasil afora como verdadeiros elefantes brancos.

A resposta de Aldo, num viés de nacionalismo e integração nacional, foi mostrar que cidades da Amazônia e Pantanal merecem ver jogos da Copa e que isso não precisa ser privilégio apenas da região sul e sudeste, pois tal privilégio poderia até caracterizar preconceito. O ministro salientou também que esses novos estádios também serão arenas multiuso, o que levará mais espetáculos a essas cidades e com isso movimentá-las culturalmente e financeiramente.

Analisemos.

Fui criado em Manaus, sou apaxionado por futebol e durante a minha infância e adolescência assisti a três Copas do Mundo (82, 86 e 90), todas pela TV (com narração de Luciano do Vale, Osmar Santos e Galvão Bueno, respectivamente). Lembro que minha mãe sempre trocava a TV de casa por uma nova na época da Copa. Vimos o Caniggia receber o passe do Maradona e reforçar o nosso fiasco na Itália num aparelho Sharp de 20 polegadas. Alimentei desde criança um grande sonho de um dia poder ver uma Copa ao vivo.

Hoje moro em São Paulo, privilegiado por estádios e clubes de expressão, e caso tudo der certo (dinheiro, diponibilidade de ingresso e eu permanecer vivo até lá) realizarei o sonho de infância utilizando meu bilhete único no metrô. E se tudo der mais certo ainda ($$) farei questão de ver um jogo da Copa no Vivaldão (ops, Arena Amazõnia, que é, argh, um nome escroto, burguês, importação medíocre, etc, etc, etc).

Depois de tantos parênteses, o que eu quero dizer é que concordo com Aldo Rebelo de que sim, essas cidades, independentemente do que representa seu futebol no país, devem receber jogos da Copa, em 2014 um adolescente de 15 anos poderá ter acesso a isso em Manaus, coisa que eu não tive, fico feliz por ele e por esse Brasil mais democrático e igualitário que vem sendo construído nos últimos 10 anos.

Agora, o que eu não concordo é que essas vantagens apontadas por Aldo maquiem problemas crônicos que a realização dessa Copa está nos trazendo. O ministro, assim como eu, é do PC do B, partido da base do governo federal, portanto um militante com pensamentos progressistas, somos responsáveis por uma análise crítica e precisa dos fatos. A defesa de Aldo de que a Copa é importante para o país por X e Y deveria seguir junto com um ataque reconhecendo que as propostas de modificações urbanísticas, principalmente de mobilidade urbana, foram jogadas no lixo.

E o meio? O meio de campo é a ação da política, onde a disputa é mais delicada. O trabalho do ministro Aldo tem sido exemplar, acredito que sua força política tenha feito valer muitos dos interesses do país e ele busca muito isso em suas ações. Os problemas no nosso país não são os elefantes, assim como também não são os tomates, temos que enxergar aqueles seres invisíveis que apenas desejam se beneficiar de obras públicas sem a compreensão de que o termo 'público' deve ir na direção de um coletivo e não somente de privilegiados.

Sem dúvida alguma eu ficaria muito mais feliz que o adolescente de 15 anos de idade em Manaus utilizasse um transporte público muito melhor do que eu usava em 1990, mas por lá pouca coisa mudou. Troco isso por qualquer estádio ou copa do mundo. Em Manaus será feriado em dias dos jogos da Copa, isso é uma vergonha!

Um bando de abutres que também são conhecidos como empreiteiros, viram na Copa do Mundo um único objetivo: enriquecer de forma grosseira e indigesta. Muito se falou que teríamos um legado urbanístico como Barcelona, Sindey e outras cidades e países que receberam competições como Copa e Olímpiada. Cadê?

Os estádios serão elefantes brancos não por conta do futebol praticado em Cuiabá e Manaus. E sim por conta de que eles foram construídos para não somente agradar o padrão FIFA, mas também os bolsos de construtoras e investidores da construção que caíram como abutres nos orçamentos superfaturados para essas construções.

Poderíamos ter estádios mais modestos e eficientes, que após a Copa atendessem perfeitamente às realidades locais, seja para futebol, seja para eventos. Não sou contra pessoas ganharem dinheiro. Sim, a vinda da Copa seria para favorecer economicamente profissionais da construção, mas também para favorecer socialmente as populações das localidades, o momento do ps nos permitiria mostrar a força econômica agregada a uma vontade política popular e social.

Mas vontade política parece não ganhar força quando culturalmente vivemos sob o individualismo e consumismo agressivos.

Precisamos de um elefante vermelho que realmente incomode aqueles que enxergam apenas seu próprio umbigo.

19 maio 2013

Nuvem

O desejo mais imediato naquela rodoviária é abandonar as suas pesadas malas. Duas valises cheias de esperança, mas que talvez o melhor destino para elas não é o mesmo que o seu.

Roberta se desloca para um lugar à beira-mar e suas malas não precisam ir. Há meses percorrendo diversos lugares, ela lembra que chegou naquela cidade por acaso e que todos os acasos que viveu ali durante vinte dias foram felizes e intensos, o que pra ela é muito importante.

É preciso seguir...

E por que diabos as suas malas só cresciam?

O ônibus parti em alguns minutos e Roberta gosta da sensação de não ter ninguém para lhe dizer tchau. Uma sensação boa. Pensa o quanto é difícil se desfazer tão rapidamente de duas malas grandes e volumosas.

Com o desespero de que não gostaria de resolver o problema de suas malas junto ao mar, Roberta surta e desfere chutes fortes nessas malditas malas. Muita raiva.

Obviamente isso chama a atenção de pessoas na rodoviária, algumas soltam risadinhas. Um segurança se aproxima e pergunta se está tudo bem. Sem responder, ela recolhe as malas, vai à plataforma e as despacha no bagageiro do ônibus que a levará ao mar.

Roberta encosta sua cabeça na poltrona sem o alívio que desejava. Pelo menos um novo destino desconhecido irá lhe sorrir daqui a 15 horas.   

18 maio 2013

A surdez de nossos semelhantes

Sua amiga telefonou e informou que o atraso seria de trinta minutos. Estava muito calor e ela atravessou a rua, onde um pequeno restaurante de comida caseira saciaria a sua fome. Mas era a dor em seu ombro direito que precisava passar, até aquele momento nenhum relaxante muscular nem remédio para dor conseguira aliviá-la. Merda! ela pensou, seus 28 anos de idade pareciam ser os últimos de sua vida.

O frango grelhado com arroz e feijão veio bem saboroso. A salada era pobre, mas o tomate era incrivelmente vermelho. Na mesa à sua frente duas amigas com uniforme de administrativo de hospital conversavam euforicamente. Ao ouvir essa conversa com mais atenção, ela percebeu que pareciam falar de pousadas ou hospedagens, pensou que se tratava de alguma viagem, mas à medida que raspava o prato de comida caseira foi percebendo algo mais cruel.

As duas mulheres, ambas na faixa dos 40 anos, debatiam sobre lar de idosos, nitidamente para hospedar o parente de uma delas. O suor nas axilas pareciam mais úmidos e a dor no ombro estalava. Inconformada com a frieza com que as mulheres ao seu lado conversavam sobre o assunto, ela as chamou e ao se virarem perguntou:

- Desculpe a intromissão, mas em algum momento vocês se colocaram no lugar desta senhora?

Um silêncio estranho flutuou entre as três mulheres, e a resposta veio seca:

- Este assunto não é da sua conta.

As amigas se levantaram apressadamente, dirigiram-se ao caixa e sumiram na rua.

Ao menos a dor do estômago estava aliviada, mas a dor no ombro se encontrava agora acompanhada da dor da indiferença. Desejou ser surda ou ao menos mais indiferente a tudo ao seu redor. Sua amiga chegou mais atrasada do que havia prometido e foram às compras.  

13 abril 2013

Navegantes - Programa 1

Quando: 13 de abril de 2013
Onde: Editora FiloCzar - Rua Durval Guerra de Azevedo, 511
Horário: 17h

"ÁGUAS DE ROMANZA"
CE / 15 minutos / 2002
Dir: Gláucia Soare e Patrícia Baía 
Sinopse: No sertão nordestino uma menina sonha em conhecer a chuva. Sua avó, velha e doente, deseja realzar o sonho da neta. Um caixeiro viajante é a única esperança.

"VINIL VERDE"
PE / 13 minutos / 2004
Dir: Kleber Mendonça Filho
Sinopse: Mãe dá a Filha uma caixa cheia de velhos disquinhos coloridos. A menina pode ouvi-los, exceto o de vinil verde.

"O DIVINO, DE REPENTE"
SP / 6 minutos / 2009
Dir: Fábio Yamaji
Sinopse: Ubiraci Crispim de Freitas, personagem real conhecido por Divino, canta repentes e conta sua vida neste documentário animado com ficção experimental.    

"CUIDADO COM O MACHADO"
Nova Zelândia / 2 minutos / 2008
Dir: Jason Stutter
Sinopse: Um menino, pés descalços e um machado.   

23 março 2013

Reencontro

Rita tentava explicar a origem do seu nome. A sua bisavó havia segurado a onda da família, pois ficara viúva aos 23 anos de idade. De qualquer forma, para Rita era bonito levar o nome de uma guerreira. A sua interlocutora era uma moça com a mesma idade: 20 anos.

Elas haviam se conhecido numa festa em Barcelona promovida por estudantes brasileiros. Ambas eram turistas na cidade. Conversaram a noite inteira e se identificaram em muitos aspectos.

Nesse reencontro algo estava no ar. Rita se sentiu confusa com o distanciamento de sua amiga. Se bem que na verdade, a pergunta era se aquela jovem de cabelos tingidos era de fato sua amiga.

O bar estava lotado, o que de certa forma excitava Rita.

Depois da bisavó, Rita falou de sua avó e por fim falou de sua mãe. A desconfiança que ela depositava na mãe era extrema, ela não conseguia nenhum canal de comunicação. As duas pareciam inimigas, apesar de terem tido poucos conflitos. Rita desabafou que no fundo não admirava sua mãe.

A outra moça ficou se perguntando por que a necessidade de tanta exposição da vida pessoal. E mais, o que será que se perdeu na travessia do Atlântico, Rita deixara de ser uma pessoa atraente.

A nostalgia é traiçoeira. Seria muito mais interessante Rita ser apenas uma instigante pessoa conhecida numa festa perdida em Barcelona. Agora era possível ver que não havia necessidade de ser mais do que isso.

Cada vez mais a necessidade de reencontro se torna apenas um bom motivo para nos decepcionarmos com as pessoas, desacreditarmos em nossas heroínas. Os mitos não se perdem na travessia de um oceano, pensou a moça com cabelos tingidos, os mitos se perdem na vida comum.

22 março 2013

Compreensão e marcha

A primeira vez que li “O Manifesto do Partido Comunista”, de Karl Marx e Friederich Engels, foi antes do meu início na militância do PC do B. Era o início dos anos 90, ser comunista parecia ser a coisa mais anacrônica de todos os tempos...

Mas cresci com a minha mãe se declarando uma simpatizante do comunismo e não uma comunista de fato, cresci com ela dizendo que um homem como Fidel Castro só nasce a cada cem anos, cresci com ela me mostrando o que é justiça social, comentando que em sociedades comunistas os valores à educação e cultura são primordiais, cresci com ela falando de Olga Benário e me contextualizando as músicas de Chico Buarque. Em 1982, quando eu tinha 7 anos de idade, ela me levou para ver a vitória de um governador do PMDB numa importante avenida de Manaus, durante a eleição ela havia deixado bem claro que o oponente do PDS fazia parte da inimiga ditadura, a redemocratização engatinhava e o meu Flamengo era o melhor time do mundo.

Sim, eu fui politicamente influenciado, apesar de nunca ter visto minha mãe militando nas fileiras de algum partido ou recebendo visitas de comunistas.

Um ano antes da queda do muro de Berlin, numa viagem de férias à Natal (RN), comprei uma biografia do Che Guevara no aeroporto de Manaus, fiquei encantado com a trajetória desse revolucionário e na capital potiguar comprei uma camisa com o rosto do Che (sim, eu também tive uma camisa dessas, mas foi a única) e com os dizeres “Um dia voltarei e serei milhões”. Considerei isso bem profético e me considerei dentro desses milhões da camiseta.

Caiu o muro de Berlin, o Collor foi eleito, me mudei para São Paulo, não fui um cara pintada, o Collor saiu, Itamar entrou, FHC também, plano real, bla bla bla. Entre o fim de 93 e início de 94, retiro emprestado na biblioteca do Centro Cultural São Paulo um exemplar do “Manifesto”. Eu havia decidido que pra fazer parte daquela frase profética da camiseta eu precisava ler e estudar antes, pois uma coisa que minha mãe também me dizia era que um comunista antes de tudo era um estudioso, uma pessoa culta e que não discutia com qualquer um, pois sua sabedoria era superior. Resolvi começar pelo começo.

Lembro que minhas primeiras impressões da leitura haviam sido de compreensão, enfim eu pude ter acesso a certos conceitos que me pareciam nebulosos, o principal foi compreender o significado de luta de classes. Em seguida, compreender o conceito de burguesia, sua função histórica e seu papel na luta de classes. E por fim o caráter revolucionário para se alcançar o socialismo, a necessidade de um processo de revolução e alcançar o poder. O curioso é que depois disso, mesmo com meus poucos conhecimentos, uma compreensão maior sobre a revolução de outubro e as revoluções cubana e chinesa me deram uma dimensão dos desafios de um processo revolucionário.

Deixei de frequentar o PC do B por mais de dez anos e recentemente voltei, e a partir de um encontro da célula da cultura do Distrital Centro para um debate acerca de “O Manifesto do Partido Comunista”, e por considerar desafiante a ação política nos dias atuais, trago aqui uma reflexão pessoal sobre duas passagens desse livro. A primeira diz:

“teoricamente, [os comunistas] têm sobre o resto do proletariado a vantagem de uma compreensão nítida das condições, da marcha e dos fins gerais do movimento proletário”.

Considero que essa afirmação sobre a compreensão do movimento proletário também lança sobre os comunistas uma de suas principais responsabilidades, que é ser um conhecedor da História, incluindo a do seu próprio tempo, e mais, conhecer não somente os fatos, mas também como as relações na sociedade se estabelecem nos diversos meios e circunstâncias. Nos dias de hoje, a nitidez da compreensão, na minha opinião, parte de não isolarmos, em um círculo fechado e intransigente, as nossas ideias e convicções acerca do que é necessário para o caminho ao socialismo, a marcha precisa cada vez mais ser construída com uma imersão nas problemáticas dos dias de hoje, e um ponto que considero abalado é o sentimento e conceito de cidadania. Por meio de um individualismo agressivo, cuja gênese está no consumismo sem freios como modo de vida, as relações entre as pessoas se afastam de uma percepção acerca do bem comum, do viver em coletividade e, o que considero mais triste, lutar por transformações a favor de uma realidade mais justa para esse coletivo.

Quando iniciei minha militância no PC do B em 1995, numa época que para muitos é conhecida como o fim das ideologias, o que amadureci no partido foi a real compreensão da política. Ali, por meio de estudos e debates, verifiquei o compromisso de um partido não somente a favor dos trabalhadores, mas também com a construção do socialismo. Lembro da lúcida compreensão de que esse socialismo no Brasil somente poderia se dar perante as próprias características desse país, sem a adoção de um modelo, apenas com uma avaliação clara e eficiente das experiências socialistas até então.

O que desejo ilustrar é que com a militância partidária pude identificar a importância de um partido na marcha citada no trecho citado do “Manifesto” e o seu papel como vanguarda. Para isso foi fundamental para essa minha compreensão o livro “Que Fazer?” de Lenin, que até hoje é meu livro de cabeceira. Fui verificando que muito mais que a revolução, que talvez eu jamais vivenciaria, o importante naquele momento (e ainda hoje) era ajudar no fortalecimento do partido, auxiliar nesse compromisso de vanguarda.

Sou cético quanto à possibilidade de presenciar a experiência de uma revolução socialista no Brasil, até mesmo por conta de uma avaliação pessoal que eu tenho, positiva até certo ponto, do nosso processo democrático, o que pode levar a outro texto em breve. Porém, parto do princípio que a marcha precisa ser em direção a essa revolução. Eis que volto à atenção que chamei para não nos fecharmos nos próprios círculos. O avanço parte de uma aproximação para debatermos junto aos mais diversos segmentos da sociedade sobre o papel da cidadania nos dias de hoje.

Se o partido é uma vanguarda, o desfaio se faz atualmente para muito além da conscientização de classe, há uma necessidade urgente de conscientização cidadã e republicana. Refiro-me à conscientização por parte da sociedade dos valores das instituições democráticas, uma consciência capaz de marchar contra o câncer chamado corrupção, que abala os eleitores, que gera neles um sentimento de desconfiança quase constante, que gera neles um sentimento de descaso. Sugiro abrirmos com força o debate acerca da reforma política. Acredito que seria um passo importante para destacarmos no seio da sociedade, a sua principal arma: a responsabilidade de seu próprio voto.

A segunda passagem:

“Quando se fala de ideias que revolucionam uma sociedade inteira, isto quer dizer que, no seio da sociedade velha, se formaram os elementos de uma nova sociedade e que a dissolução das velhas ideias marcha de par com a dissolução das antigas condições de vida. [...] quando, no século XVIII, as ideias cristãs cederam lugar às ideias racionalistas, a sociedade feudal travava sua batalha decisiva contra a burguesia então revolucionária. As ideias de liberdade religiosa e de liberdade de consciência não fizeram mais que proclamar o império da livre concorrência no domínio do conhecimento.”

As ideias racionalistas citadas no texto se referem à herança iluminista, que promoveu a hegemonia do conhecimento e do progresso sobre o misticismo religioso e a metafísica. A partir daí temos, como ilustra o “Manifesto”, o “império da livre concorrência no domínio do conhecimento”, uma ação exclusivista que pautou o capitalismo mais feroz ao longo do século XX em nome da liberdade. Liberdade é outra palavra que precisamos cuidar tanto quanto cidadania.

Aqui lanço um pensamento para avaliarmos as premissas do Iluminismo e suas consequências perante a evolução do capital. Um texto de Kant chamado “Resposta à pergunta: Que é Esclarecimento [Aufklärung]” se torna pontual, nele há uma ode a um futuro iluminado pelo avanço do pensamento, onde o acesso às potencialidades do conhecimento poderiam sim trazer uma perspectiva a um novo homem. Pelo que pudemos perceber, o capital se apropriou disso para tornar seus procedimentos mais liberais e assim prezar por uma liberdade que no fundo se tornou opressora.

Marx e Engels identificaram isso no nascedouro, e hoje acredito que tal passagem possa ser revisitada para termos um diálogo franco com as questões de nosso século, onde a tecnologia não pode nos intimidar, precisamos celebrar o seu avanço, mas repensá-la para um contexto humanista e de uma sociedade justa. A liberdade a partir do conhecimento pensada em conexão com a cidadania. Que um cidadão possa saber do lugar que ocupa numa sociedade, que seus anseios possam superar a esfera individualista e serem direcionados para uma ação edificadora.

Retomo o termo ‘marcha’ do “Manifesto” para compreendermos nosso papel nessa longa trajetória a nossa frente, cada passo precisa ser firme, e ele precisa ter essa firmeza no sentido de fortalecimento do partido, compreendido como vanguarda, e precisa ser revolucionário, no sentido de que não caminhamos com armas de fogo e sim com o esclarecimento não somente para nós mesmos, mas primordialmente para uma sociedade que precisa ser desperta para o seu compromisso de cidadania.