05 outubro 2010

Quando o Chile me afastou de Clarissa

Conheci um pouco mais sobre a revolução chilena feita por  Salvador Allende enquanto esteve no poder entre 1970 e 1973 através do livro "A Revolução Chilena", da coleção Revoluções do Século XX (editora Unesp) e escrito por Peter Winn. Foi uma experiência interessante. Ao longo das páginas fui vivenciando intensamente os momentos do 'Caminho Para o Socialismo' que Allende buscou estabelecer até a sua trágica morte.

Entre as muitas coisas que me despertaram diversas reflexões está  a sensibilidade perante uma experiência histórica. Como identificar que estamos em um processo histórico importante e que devemos realmente tomar cuidado com cada um de nossos passos? Maquiavel falava de prudência ('prudenzia' em italiano),  termo diferente do que conhecemos hoje e que consistia em uma característica de poucos, que conseguiam enxergar um pouco mais além e definir seus atos sem passos em falso, prudente não era saber evitar e sim saber agir. Mas como alcançar esse nível?


Um dos capítulos do livro é justamente 'vivendo a revolução', talvez  'viver' exija muito mais força de vontade e empenho do que 'fazer' a revolução. Um dia uma chilena chamada Esmeralda me disse que era um tempo em que eles estavam vivendo algo muito especial e não perceberam isso. Aqui eu aproximo a História de nossa percepção política.


Um dos pontos em 'viver a revolução' foi justamente a ação dos chilenos em acelerar todos os processos pensados para se alcançar o socialismo. Hoje, mais de 30 anos depois, consigo enxergar o quanto isso foi fatal para Allende, porém uma lição mais positiva é a vontade que um povo historicamente reprimido possuía em fazer valer o que considerava justo: igualdade social.


Como canalizar essa vontade? Novamente Maquiavel nos diz que para isso é necessário promover conflitos internos, duelos de posições, mas recomenda ele: que sejam promovidos com a finalidade única do bem comum, sem prejuízo à liberdade da pátria nem à ação de um agente externo. Mas isso não havia no Chile, de um lado uma classe média que pensava em seu próprio bem, do outro trabalhadores urbanos e rurais buscando seu espaço, para o bem comum, porém sem o devido debate com a classe média.


No meio estava Allende que buscou a todo custo equilibrar todos os conflitos, foi um negociador nato, mas não conseguiu segurar algo muito mais forte: os interesses dos EUA.


A política não se constrói com principes encantados, Allende não era um, assim como Lula nunca se destinou a ser. É preciso percebermos nossa trajetória histórica de um continente explorado e subjugado. E a partir dessa percepção reconhecermos os pequenos avanços que temos com propostas como foi a de Allende e então assumirmos o compromisso mais importante numa democracia: avançar ainda mais, não fugir da responsabilidade , irmos para o debate e construirmos instituições fortes que possam aos poucos promover a justiça social. É lento, não precisamos acelerar.


Me afastei de Clarissa durante três semanas, imerso nas páginas sobre a revolução de Allende, mas voltei à obra de Erico Veríssimo para junto de sua inspirada prosa enriquecer minha sensibilidade e cidadania.

02 outubro 2010

Belos cortes

Era o ano de 1994, o gerente da locadora em que eu trabalhava sugeriu que assistisse a um filme chamado   "Cães de Aluguel". No dia seguinte, cheguei para trabalhar extremamente entusiasmado com o que eu havia visto e falei para o gerente: eis o novo Scorsese!




A partir de então, o diretor desse filme, Quentin Tarantino, entrou em definitivo na minha lista de favoritos.

E o que me fez conectá-lo com Scorsese não foi somente o apuro nas cenas de violência, mas principalmente a montagem de Sally Menke. Uma das sequências que mais me impressiona até hoje em "Cães de Aluguel" é aquela em que Mr. Orange (Tim Roth) está sendo treinado por um agente negro para saber inventar e contar histórias de forma convincente, eis que entra a maestria de Menke. Ao longo dessa narrativa mesclam-se flash fowards com flash backs e bum... lá estamos divdindo a personalidade de Mr. Orange, entramos em sua essência através de uma contrução de cenas com ritmos e cortes precisos, considero uma das soluções mais magníficas para um vai e vem não linear.

Com tristeza recebi a notícia do falecimento de Menke no dia 27 de setembro, mas sua obra ficou. Com certeza junto com Thelma Schoonmaker, a fiel escudeira montadora de Scorsese, Sally Menke está no mais alto patamar da montagem no cinema.

Sally, nunca tive a oportunidade de te falar pessoalmente, mas tu és uma mulher de belos cortes. Au revoir.

28 setembro 2010

O suor em suas mãos

Lúcia estava correndo, suas pernas aceleravam em ruas escuras, a sua cidade parecia não ter mais fim, prédios, carros, mendigos, engravatados, tudo era cenário na sua desesperada corrida.

De repente ela percebeu que puxava alguém pela mão, era uma outra mulher de cabelos encaracolados cuja mão suava muito. Lúcia sentia que logo perderia o fôlego, mas seu instinto lhe fazia correr cada vez mais...


A mulher escorregou de suas mãos, ela se virou para tentar recuperá-la, mas viu aquela estranha desapercer em um buraco no meio do asfalto. Lúcia não queria se desesperar. Enxugou o suor da outra que ainda permanecia em sua mão e voltou a correr.


A cidade desapareceu.


Lúcia parou bruscamente, estava com medo.


Ouviu uma voz de criança: "Continue!"


Lúcia desabou no chão, sentiu um frio no corpo... teve a impressão de que nada lhe cercava... Andou para a esquerda e não encontrou limites... Suspeitou de ter encontrado o vazio que tanto procurava, a felicidade estava em seu corpo, pensou.


Mas um dia ela chorou, pois percebeu que a vazia vastidão ao seu redor havia chegado em seu coração.

15 setembro 2010

O Grito das Formigas



Chamou a minha atenção a inquietação da fé e a busca de algo sagrado capaz de aproximar o espírito de uma verdade interior que está presente no filme "O Grito das Formigas" (2006), do iraniano Mohsen Makhmalbaf. No enredo um homem e uma mulher recém-casados viajam pela Índia em uma jornada espiritual, ela extremamente religiosa e buscando um sentido para sua fé e ele um ateu que se põe à prova a medida que experimenta as intensas diversidades religiosas de um país.

O filme causou em mim reflexões sobre os contatos que temos com experiências espirituais, inclusive nas condições mais céticas possíveis. Acredito que não há necessidade de encontrarmos um sentido forte quando trabalhamos a própria espiritualidade, é possível termos um caminho a seguir, o qual se torna menos pedregoso quando aliviamos a carga. E como se desfazer dessa carga?

A obra de Makhmalbaf está longe de responder a essa pergunta, porém consegue dentro de uma narrativa sólida com imagens e situações construídas não pelo possível exotismo que um país como a Índia poderias nos oferecer, e sim pelos conflitos internos de seus personagens, a câmera navega pelos universos interiores a partir de uma exploração muito cuidadosa dos pontos de vista de cada um, o espectador é a todo momento convidado a sentir cada experiência. Não há respostas, há um filme provocador.


11 setembro 2010

Saquê número 1

Olhei para o casal de mãos dadas e pensei: na idade dele eu gostaria de ter ficado com uma garota como esta. Mas o que de fato me atraía na companheira daquele rapaz? Talvez ela reunisse todas as qualidades que admiro em uma mulher, não estou certo disso, já nem lembro dela tão bem assim... Quantos pensamentos confusos!

Isso me fez lembrar da primeira vez em que tomei Saquê.

Pouco mais de cinco da manhã de um dia no meio da semana. A moça de olhos graúdos e cabelos escuros curtos dançava freneticamente na pista. Muita cerveja na minha cabeça. Ao meu redor havia homens que desejavam mulheres, e mulheres que desejavam dinheiro.

Ela parou de dançar e fui em sua direção, eu lhe disse algo confuso, ela riu e me falou que os caras de uma mesa estavam pagando muito mais e que ela não podia ficar comigo ali. Dei de ombros e ela se afastou. Voltei a beber cerveja.

Novamente ela dançava na pista, não compreendo até hoje o porquê do meu desejo, talvez ali, há 13 anos atrás, ela reunisse todas as qualidades blá blá blá. Me aproximei novamente dela e perguntei se os caras ainda estavam pagando, sem parar de dançar e balançando freneticamente a cabeça, ela me respondeu que não e me deu o seu telefone dizendo: "me liga amanhã".

Treze horas depois eu liguei e ela atendeu, seu nome era Cláudia. Percebi que ela não lembrava de mim, mas conversamos por quase trinta minutos, marcamos um encontro no dia seguinte.

Passei na casa dela, Cláudia saiu eufórica e me arrastou para um restaurante japonês, onde ela pediu um prato e sugeriu que tomássemos saquê. Resolvi provar, nunca havia tomado. Veio a segunda dose. Conversamos, terceira dose, risadas. Pagamos a conta e na saída pegamos um táxi. Dentro do carro ela conseguiu falar muita coisa de sua vida, que hoje não lembro nada.

Chegamos num pequeno bar muito lotado, ela se sentou junto ao balcão e permaneceu calada, puxei alguns assuntos e apenas monossílabos da parte dela. O saquê me deixou um pouco alto e junto com a cerveja daquele apertado bar a vista começou a ficar turva. O silêncio de Cláudia me angustiou.

Nos despedimos às três da manhã. A lembrança que tenho são suas franzinas pernas descendo a calçada. Cláudia virou na esquina e sumiu.

05 setembro 2010

Disforme

No meio do salão de festas estava a última cadeira de um prédio abandonado. A jovem mulher de cabelos castanhos sabia que o seu vazio se encontrava muito além daquelas paredes frias e destruídas pelo tempo. A visita durou pouco menos de cinco minutos. Ela foi embora.

A incompreensão do próprio passado distorceu todas as lembranças. Uma confusão de todos os seus atos percorreu sua mente, parecia que nada lhe escapava e todos os seus erros mergulharam sua alma num poço de desespero.

Era preciso resistir.

Numa ilha distante ela se isolou e escreveu suas memórias.

Num sonho encontrou o beijo que sempre quis.

28 junho 2010

Herdeiro de escombros manauaras

Faz pouco mais de uma semana que terminei de ler o livo "Cinzas do Norte", de Milton Hatoum e somente agora tomei fôlego para iniciar uma nova leitura, o romance de Tolstoi chamado "A Sonata a Kreutzer".

Eu disse fôlego porque desde "O Lobo da Estepe", de Herman Hesse, um livro não me tocava tão profudamente quanto esse do Hatoum. A Manaus descrita ao longo das páginas me parecia tão próxima, apesar de que o livro termina exatamente quando eu comecei a ter a percepção do mundo ao redor, no início da minha infância. A sensação que me causou foi que herdei os escombros de uma cidade que foi definhando junto com o seu acelerado desenvolvimento. Foi uma sensação estranha, sem dúvida.

Quando eu era criança, no início dos anos 80, a cidade de Manaus quase parecia um lugar sem passado, se não fosse pelas histórias que minha mãe e minha vó me contavam, ou pelo que descobríamos a respeito da época da borracha, Manaus parecia estar começando do zero. Nesse período, a cidade não era nenhum exemplo de modernidade, mas através da Zona Franca e do seu extenso parque industrial, estava antenada com a tecnologia e as informações do mundo. Lembro que era uma época de esperanças.

Mas ao ler o livro de Hatoum, hoje enxergo que eram falsas esperanças, vivíamos nos escombros de um passado recente. A demolição do Cine Guarany em 1984 para a construção de um banco em formato de caixote simbolizou a limpeza completa desses escombros. Um tiro de misericórdia à memória da cidade. Ali Manaus e sua história capitulavam tal qual o trágico fim do personagem Mundo de "Cinzas do Norte".

Sem a consciência do próprio passado, acredito que não há espaço para esperanças, abre-se uma clareira para o aventureiro mais atroz, aquele sem vínculos com a própria cultura, e também para o forasteiro sem compromissos com a preservação mínima de uma terra que ele deseja dominar para prevalecer seu sucesso pessoal e financeiro. Assim enxergo a Manaus que herdei, onde morei até os 17 anos e visito quase todos os anos.

A luta de Mundo por sua arte e sua liberdade foi a batalha que a memória de Manaus não venceu. A derrota se disfarçou de progresso e riquezas, que realmente vieram, mas não mostraram nenhum humanismo e respeito ao mais simples: sensibilidade e identificação com o próprio chão que está cravado no coração da Amazônia.

(Sugestão de leitura: http://catadordepapeis.blogspot.com)

03 junho 2010

A partir da filosofia

Que filosofia é essa?
Ele se pergunta, apesar de que seus olhos não conseguem se desviar daqueles lábios que cospem a palavra “Platão” em diversas frases.
De repente, ele lembra de uma história platônica, mas fica sem graça de contá-la perante todos. Enquanto ele navega pelos lábios daquela filósofa moça, vamos mergulhar nessa lembrança.

Imagine um homem de meia idade, extremamente corcunda e com olhos caídos. Esse homem caminhava ao redor de uma lagoa, com um semblante concentrado em algum pensamento. O nosso admirador dos lábios da moça que conhece filosofia estava sentado num banco aguardando o intervalo de almoço se acabar e testemunhou a fenomenal queda do homem corcunda. Uma fina e estreita faixa de sangue escorreu pelo chão, o homem havia quebrado o nariz e com muita dificuldade conseguiu se sentar e tirar do bolso um pequeno lenço de pano que o usou para estancar o sangue.

Logo surgiu uma mulher para ajudar o homem corcunda e eis que entra a filosofia. Ela perguntou ao pobre homem de nariz quebrado se ele desejava ir para um pronto-socorro, ele respondeu que preferia ficar ali sangrando. Assustada, ela tentou levantá-lo, o corcunda forçou o próprio corpo para baixo, e o pequeno lenço de pano não dava mais conta do sangue que não parava de jorrar.

Depois de fazer muita força, a mulher, usando o bom senso, desistiu. Pareceu preparar um xingamento, mas evitou desperdiçá-lo naquela bizarra situação. Ela se afastou e ao passar ao lado do nosso admirador de mulheres que falam de filosofia, este lhe chamou a atenção sobre uma mancha de sangue na sua calça. Ela parou, observou e seus olhos visivelmente transmitiram todo o ódio do mundo.

O rosto do corcunda é uma máscara de sangue. A mulher da calça banhada de sangue se aproximou e começou a bater na corcunda do homem com a sua bolsa tiracolo. O homem rolava pelo chão, não tentava se defender, estranhamente. Sadismo e masoquismo à beira de uma lagoa.

E o que tem de platônico nisso tudo? A solidariedade daquela violenta mulher. Uma simples e fútil solidariedade, que no seu reino das idéias, uma ferida precisava ser curada. Para aquele homem rolando sob bolsadas estúpidas, a ferida precisava sangrar e não precisava de nenhum motivo para isso, era o Sangue em si. A mulher, com a sua ira, não compreendia, pelo menos naquele momento, o Bom nem o Justo.

Após alguns minutos, uns transeuntes afastaram a mulher de perto do homem sangrando, que preferiu continuar parado, dessa vez um pouco mais perto da margem da lagoa. Com um celular, o nosso admirador de lábios filosóficos tirou uma foto da mancha de sangue no chão.

No dia seguinte essa foto estava no seu blog com o título “Sangue Platônico”.

Pela moça que fala de filosofia, logo o fotógrafo de sangue se apaixona e se indaga se aquilo está no sinuoso terreno das idéias. Claro que não, aqueles lábios estão sorrindo e é impossível haver algo mais ideal e perfeito.

24 abril 2010

Cardápio abraçado

Os óculos poussuíam uma leve armação, e atrás deles se encontravam os olhos pequeninos e atentos de uma jovem franzina mulher abraçada com um cardápio.

Em frente ao restaurante onde trabalha, numa movimentada praça de alimentação, ela abordava os mais variados clientes, sempre com um discreto sorriso. Mas entre um cliente e outro ela parecia entrar num mundo próprio, seu olhar se perdia na multidão daquele lugar e em raras ocasiões seus lábios faziam um movimento como se desejasse narrar alguma coisa.

Mas qual mundo lhe pertencia?

Uma pequena trilha. O sol escaldante desce pelas copas das árvores. Um barulho de mar ao longe. Os ombros suados brilham e um suave perfume está na pele. Ela olha para os pés, um chinelinho barato e desgastado, mas incrivelmente confortável. O caminho parecia longo, mas agora falta pouco.

Um banho de mar. Águas calmas e vento no rosto. Sol forte, pele segura por um bronzeador na promoção. Ela olha para a praia e sua miopia desfoca um paraíso, ela sorri pois imagina que toda sua vida está atrás daquelas areias embaçadas.

As costas na areia. Ela fecha os olhos para adormecer, talvez sinta o desejo de um beijo, mas ela quer sonhar.

29 janeiro 2010

Tiradentes 27

Que dia lindo!
Sol, céu azul, sem chuva e uma noite de lua cheia que reverberou boas energias para a sessão ao ar livre de Tiradentes.

Senti que o mundo sorriu para a minha última jornada na cidade.

Antes de entrar nas profundezas dos curtas-metragens, o 27 foi aproveitado na companhia de bons amigos. A ótima oportunidade de reunir pessoas que a Mostra oferece nos traz a gratificação de bons papos com pessoas muito queridas.

Pouco antes do almoço, a minha vizinha Flávia, sua amiga e eu, ficamos conversando, entre muitos assuntos, sobre a Escola de San Antonio de Los Baños, em Cuba, onde elas se conheceram quando fizeram por lá um curso de dois meses. Elas comentaram as inúmeras dificuldades da escola e do país, que contrasta com a riqueza de conhecimento que ali se produz. Um conhecimento que, tanto para os cubanos, quanto para alguns alunos estrangeiros, se perde na vida prática, onde a difícil inserção no meio de trabalho audiovisual gera frustrações e joga por água abaixo fortes expectativas.

Contraste foi a palavra que me levou a refletir sobre o quanto ela é determinante e que nunca se ausenta, a essência de algo consistente pode sempre partir de um cruel contraste.

E de contrastes o Nordeste entende, Pernambuco e Ceará talvez estejam contrastando coisas bem interessantes nos curtas. Mais abaixo esse assunto voltará.

Naquele mesmo momento, a poucos metros da nossa mesa, subindo as escadas e entrando no auditório, era possível presenciar Gilberto Scarpa justificando sua não participação na mesa de debate que estava começando. Vestido com roupão branco, ali ele comenta que gravará uma entrevista para o seu programa de TV e se despede da platéia abrindo o seu roupão. Sunga de oncinha, eis a única peça de roupa por debaixo do roupão.

Almoço. Comida mineira, tutu na mesa. Ao redor da farta refeição estavam Marcio, Lara, Felipe Barros e eu. Barros expõe sua discussão interna sobre o contraste entre artes plásticas e cinema. Ele vem da primeira e tem circulado no segundo com seus vídeos e adquirindo seu espaço. Foi um papo agradável onde foi possível novamente perceber que certas diferenças poderiam ser diluídas a partir da aceitação delas.

Nem almoço, nem jantar. Nem noite, nem dia.
A roda de conversa é composta por um mineiro (Dellani, que pode ser também paraibano e cearense), uma mineira (Ana), um alagoano (Felipe), um cearense (Salomão), um amazonense (Diego) e um paulista (eu, mas dependendo do teu referencial podes me considerar amazonense ou colombiano). Contrastes expostos. Assuntos variados de cinema, artes plásticas e novos projetos. Percebi o quanto é bom questionarmos nossos papéis e funções nesse mundo.

Noite. Sessão ao ar livre. Lua cheia. Praça lotada.
Contrastes culturais, sociais, econômicos e atmosféricos tomaram conta da tela, o público se entusiasmou a cada filme. Após “Recife Frio”, último curta da praça, algumas pessoas à minha frente aplaudiram de pé, significativo pela força do encontro do curta-metragem com o público, fato que muitos já consideraram contraditório e hoje a única contradição é não levar esse formato ao maior número de pessoas possíveis.

No cinema da tenda, após as 23h, os contrastes em relacionamentos diversos. Era a última sessão de curtas que eu acompanharia na Mostra, o fim da jornada, e foi bem simbólico verificar que todos aqueles filmes de certa forma questionavam a tristeza de um fim. As coisas acabam. O mais importante é apreendermos a essência de cada uma delas, buscar nas diferenças e contrastes o que é capaz de amadurecermos nas nossas próximas relações. Pensamentos assim surgiram daqueles derradeiros curtas.

Ia comentar sobre o assunto em que Pernambuco e Ceará contrastam, mas sabe de uma coisa? Na verdade ali existem ótimos fazedores de filmes e que continuem tão diferentes como sempre foram.

Curtas vistos no dia 27:

DOIS MUNDOS (RJ)
Direção: THEREZA JESSOUROUN

C.E.A.S.A (PR)
Direção: Arnaldo Belotto

Os Inocentes (RJ)
Direção: Davi Kolb

AVACA (RJ)
Direção: Gustavo Rosa de Moura

Reverso (MA)
Direção: Francisco Colombo

O plano do cachorro (PB)
Direção: Arthur Lins e Ely Marques

Quarto de espera (RS)
Direção: Bruno Carboni e Davi Pretto

Bailão (SP)
Direção: Marcelo Caetano

Faço de mim o que quero (PE)
Direção: Sergio Oliveira, Petronio Lorena

Recife Frio (PE)
Direção: Kleber Mendonça Filho

Ensaio de Cinema (RJ)
Direção: Allan Ribeiro

Manassés (CE)
Direção: Luisa Marques

Lembro-me ainda de quando comíamos pão de mel toda manhã mas hoje acordei de ressaca (MG)
Direção: João Toledo

Pedra Bruta (SP)
Direção: Julia Zakia

O menino japonês (SP)
Direção: Caetano Gotardo

Ressaca (SP)
Direção: Rene Brasil

Um Par (SP)
Direção: Lara Lima

27 janeiro 2010

Tiradentes 26/27

O assunto era futebol. Em frente à sala de cinema, Tetê Mattos, Diego e eu conversávamos sobre o futebol carioca e a emocionante rodada final do brasileirão 2009. De repente um homem que bebia um guaraná pelo canudinho foi abordado por três policiais. Os guardas o revistaram por inteiro e quando terminaram o rosto do homem estava assustado e tentando compreender o que se passava ali. Depois foram todos para fora e depois de muita conversa dispersaram, o suspeito não era suspeito.

Enquanto observávamos esse acontecimento vozes mais altas ecoaram pelo local. Uma forte discussão acontecia entre dois homens com o pessoal do deixa disso apartando os furiosos para que não chegasse a nenhuma via de fato. Faltou pouco. O conteúdo do caloroso bate boca entre um diretor e um crítico foi que o primeiro ficou incomodado com o texto publicado pelo segundo num site, e aí foi aquele jogo de argumentações que traziam xingamentos de todos os lados.

Acalmaram-se os ânimos.

Não retornei ao assunto de futebol e o resto do dia foi tomado por mais curtas.

O dia 26 foi pulsante não somente entre policia, suspeitos, não suspeitos, diretores e críticos. A tela recebeu filmes que invadiram, no melhor dos sentidos, aspectos inquietantes e até perversos de um ser humano. Obviamente que não foram filmes monotemáticos, mas se aproximaram de uma coisa que me deixou curioso: somos de fato muito violentos?

A violência e a crueldade podem se manifestar de formas diversas, isso é um ponto pacífico, mas quando vejo que a criatividade de um diretor produz essas possibilidades violentas em pequenas coisas, como por exemplo uma chave jogada por debaixo da porta, aí percebo que o charme da violência não é produzir o choque e sim a sensação de que somos muito vulneráveis.

Violência e vulnerabilidade. Espero que não sejam as nossas características mais marcantes, mas espero que nunca possamos esquecê-las, principalmente para evitar que elas se manifestem da pior forma.

Primeiras horas do dia 27.
Festa, cerveja e amigos. Muito papo sobre cinema numa casa agradável no alto de uma ladeira.

Do lado de fora fiquei admirando o céu estelado ao som de Roberto Carlos.

Foi fácil esquecer de toda a nossa violência.


Os curtas do dia 26 que vi:

Coração (RJ)
Direção: Pedro Faissol

Valparaíso (RJ)
Direção: Diego Hoefel

Verão (CE)
Direção: Thiago Pedroso e Hiro Ishikawa

1976 (MG)
Direção: Carlosmagno Rodrigues e ALONSO PAFYEZE

Princípio da Incerteza (GO)
Direção: Cauê Brandão

EPOX (PE)
Direção: Sergio Oliveira

vista mar (CE)
Direção: pedro diogenes, rubioa mercia, rodrigo capistrano, glaugeane costa, henrique leão e victor furtado

Nego Fugido (BA)
Direção: Cláudio Marques e Marília Hughes Guerreiro

O FILME MAIS VIOLENTO DO MUNDO (MG)
Direção: Gilberto Scarpa

Laurita (SP)
Direção: Roney Freitas

Handebol (RJ)
Direção: Anita Rocha da Silveira

Sangre (MG)
Direção: Cris Ventura

Tauri (SP)
Direção: Marcio Miranda Perez

Tchau e Benção (PE)
Direção: Daniel Bandeira

Não me deixe em casa (PE)
Direção: Daniel Aragão

AS SOMBRAS (SP)
Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra

26 janeiro 2010

Tiradentes 25/26

Cheguei em Tiradentes sob uma chuva extremamente torrencial no dia 25 de janeiro. No dia seguinte, Ana Bárbara, uma amiga paraibana, me informa que o janeiro de João Pessoa também está sob chuvas, fato muito raro. Há mais de um mês os noticiários mostram as diversas consequencias do aguaceiro sobre o país. Eis a lavagem do Brasil.

Pela luz dos curtas, o Brasil tem sido lavado de uma forma muito menos estranha e trágica. O muito bom da Mostra de Tiradentes é o encontro dos fazedores de curtas. As sessões do dia 25 trouxeram algumas experiências pertinentes, não somente pela abordagem dos temas e propostas, mas muito em função de uma aproximação dos realizadores com a vontade de filmar.

Ter vontade às vezes é frustrante pela ansiedade que gera, e acredito que ter a vontade de fazer um filme é muito encontrar uma relação intima com o seu objeto. Talvez isso se torne mais visível em documentários, mas considero que isso valha para qualquer filme. Daí passei quase todas as sessões buscando compreender quais relações íntimas estavam naqueles filmes e se houve em algum ponto do processo em que as frustrações poderiam jogar todo projeto fora.

Assisti a duas sessões e ambas traziam à tela filmes de aproximação com seus personagens, quase que forçando o espectador a participar de suas narrativas. E o movimento mais interessante de tudo isso me pareceu uma fuga do esquema "contar uma história" e mais próxima do "viver uma história". Não foram usados persoangens em situaçõs extremas, de vida ou morte, e sim de dúvidas e combate com suas próprias emoções.

Apesar de encontrar todos os fazedores fora da sala de cinema, nas ruas e bares, optei por não abordá-los com essas minhas questões. Prefiro conhecê-los através de papos de botequim. Nada melhor que uma noite de sono para amadurecer idéias.

O dia 26 trouxe o debate desses fazedores com o público, e ali cada um expos suas motivações e os conceitos norteadores dos seus filmes. Foi notório perceber que os processos foram vivenciar experiências de vida, alguns mais planejados e outros menos. O que me faz refletir que as relações intimas que eu buscava na verdade eram suas próprias dúvidas.

Os curtas eram dissertações que cada um encontrou para narrar um discurso cheio dessas dúvidas. Pude perceber que nenhum dos fazedores entrou no filme com a visão exata do seu resultado, porém com muita convicção e vontade para que esse resultado abrisse possibilidades acerca dos sentimentos e experiências de seus personagens.

O dia 26 está na metade e aguardo mais chuva. Chuva de dúvidas e incertezas.
Isso é muito emocionante.


filmes vistos do dia 25:

Bem-Vindo Guilherme
Direção: Dellani Lima & Rodrigo Lacerda, Jr

Perto de Casa
Direção: Sérgio Borges

sweet karolynne
Direção: Ana Bárbara Ramos

O Divino, De Repente
Direção: Fábio Yamaji

Guilherme de Brito
Direção: André Sampaio

As Corujas
Direção: Fred Benevides

98001075056
Direção: Felipe Barros

Fantasmas
Direção: André Novais Oliveira

MATRYOSHKA
Direção: SALOMÃO SANTANA

24º Domingo do Tempo Comum
Direção: daniel lentini

cadernos de viagem
Direção: Alex Lindolfo

Chapa
Direção: Thiago Ricarte

15 janeiro 2010

Psicodelia nas areias de Tamandaré


Janeiro de 2008, com o livro Ana Terra na mão, sento em uma das mesas do quiosque. Noite agradável, poucas pessoas em volta, céu estrelado, pé na areia e o barulho do mar relaxando a mente.

Era o meu primeiro dia em Tamandaré, uma pequena cidade com lindas praias no litoral pernambucano. Verifique um pouco nessas fotos: http://whinestrosa.blogspot.com/2008/04/ambulantemente.html

Eu estava viajando sozinho, descansando o corpo e refletindo sobre diversos assuntos e planejamentos para aquele ano que iniciava. Nesse espírito pedi um guaraná e depois uma Pitu, esta foi servida pelo dono do estabelecimento, chamado Marcos. Carioca de nascença, ele cresceu e morou em Jaguariúna, interior de São Paulo, onde recebeu o apelido de... carioca. Não muito antes de 2008, Marcos estava desgostoso com seu trabalho e nos rincões da Amazônia conheceu um cara que trabalhava no Ibama em Tamandaré, e após algumas palavras Marcos decidiu seu novo rumo. Juntou a família numa Kombi, saiu de Jaguariúna, subiu o país pelas estradas e montou o quiosque Submarino Amarelo nesse paraíso chamado Tamandaré.

Na conversa iniciada com a entrega da Pitu descobrimos um amigo em comum, Sidney Rodrigues, ator e que foi amigo de infância de Marcos. Não fico surpreso com coincidências, pois está mais do que provado que elas realmente acontecem, mas fquei feliz porque o Sidney é um camarada bem legal. Assim como o Marcos, que nos três dias que passei em Tamandaré trocava uma idéia com ele sobre assuntos diversos.

Dezembro de 2009. Volto a Tamandaré, acompanhado da Alethea, minha namorada/esposa, namorada porque nosso namoro não acabou, esposa para uma oficialidade dos 7 anos que estamos juntos. Chegamos à noite e a levo para o Submarino Amarelo, ampliado, charmosamente decorado com motivos dos Beatles, com mais funcionários, todos devidamente atenciosos, e a sempre simpatia de Marcos.

Ele ficou feliz de me ver e eu também, mais ainda em ver que o quiosque está cada vez mais agregado à beleza de Tamandaré e apesar de ser um submarino, sugiro ao leitor que embarque na mais atraente psicodelia e considere ali um porto, ancore-se com entusiasmo e desacelere seu cérebro, Marcos e sua turma são ótimos comandantes.

www.quiosquesubmarinoamarelo.com.br

23 dezembro 2009

Jacaré com pimenta

Tempo nublado em João Pessoa, a charmosa capital paraibana, e às margens de um rio o dia termina cercado por uma brisa que transmite muita paz ao mesmo tempo que vemos ao longe nuvens negras de fumaças e o laranja das colunas de fogo nas plantações de cana.

E é ao lado desse rio, cercado de barracas que servem comidinhas regionais, que encontramos Sílvio, o Sílvio da Pimenta, da pimenta Sabor da Paraíba, marca criada por ele para a sua fabricação caseira-industrial de molhos de pimenta; se não me falha a memória, são oito funcionários em sua pequena empresa, todos parentes.

Sem bigode ele veio de São Luiz, no Maranhão, se instalou em terras paraibanas e com fornecedores devidamente bem escolhidos produz pimentas que curam.

Curam por diversos motivos como pode ser visto no cartaz de sua barraca, a qual está inserida na moderindade consumista pois permite aos clientes o pagamaento com cartão. O fator antioxidante do produto é o que chama mais atenção, a força em retardar ou impedir que o envelhecimento nos chegue com antecedência é o carro chefe de sua bem humorada propaganda.

O humor e a versatilidade em contar histórias curandeiras transformam Sílvio em um cara peculiar, pois, segundo ele, serão os efeitos dos seus molhos de pimenta que o levarão a uma ascensão empreendedora.

Empreendedorismo que o Sebrae solicitou que ele expusesse após uma palestra do sempre internado vice José de Alencar, mas Sílvio cobrou o equiavelente a dois dias de seu trabalho na produção dos molhos, pois falar a futuros bem ou mal sucedidos microempresários lhe afastaria de sua principal renda. O Sebrae não topou o valor.

A sua barraca é o seu centro do mundo, ele pode enviar, por correio, para todos os cantos do país, mas atendimento pessoal, só ali, ao lado de uma estátua canhestra de um Jacaré, que não saboreia a pimenta de Sílvio mas compatilha toda sua desenvoltura em fazer convencer de que a pimenta Sabor da Paraíba pode sim levar a uma vida saudável os mais diversos organismos que se aventuram em despejá-la sobre seus alimentos.

Sílvio, apesar de ser expansivo em suas demosntrações, cada um que prova sua pimenta logo é aliviado com um refresco de cor amarela estrategicamente preparado para suavizar o paladar dos menos preparados, ainda é um coadjuvante entre as atrações das margens do Rio Jacaré, mas tem o sempre bom elemento sonhador.

Particularmente gosto de cruzar com pessoas assim pelo caminho, mesmo sem gostar de pimenta e procurar outras fontes atioxidantes.

22 dezembro 2009

Psicodelia à vista: em paz com o jacaré, Capitão Gancho sorri para o mundo

O que significa sorrir para o mundo?

Ter a causa ganha?
Levar a vida num sossego absoluto e chamá-la de mais ou menos?
Ou ainda, ser o humilde capitão de um barco em águas calmas?

Estamos de frente para um paraíso chamado Praia dos Carneiros, no litoral pernambucano, até que um moreno homem de estatura mediana e com um boné de listras azuis e brancas se aproxima e se apresenta como Capitão Gancho, o responsável por um prazeiroso passeio ao redor da praia cujo trajeto incluía piscinas naturais nos arrecifes, banhos em um banco de areia, argila para rejuvenescer a pele, visita a uma igreja do século XVIII e conhecer um jacaré.

O barco zarpa, e possuidor de duas mãos em perfeito estado, o gancho do capitão está nos dedos de seus pés, que conduzem a manivela do motor de popa.

O passeio nos faz sentir que ali é o centro do mundo, e o nosso Capitão, assim como o algoz homônimo da Terra do Nunca, amendontra seus pequenos passageiros com leves sustos ou pegadinhas, e sempre avisando que em breve veremos o jacaré sem deixar de ressaltar que não poderíamos, em hipótese alguma, passar a mão sobre o réptil.

E o sorriso do Capitão Gancho é largo, todo esticado para nos mostrar que ali a sua causa é ganha, como não cansa de nos informar. Me chamando de comandante ele faz questão de mostrar cada pedaço daquela natureza que para ele é uma dádiva, considerada por alguns outros piratas como a terceira melhor praia do Brasil, o que ele discorda com muita facilidade, pois em sua convicta percepção é a primeira, sem dúvida.

Damos a meia volta logo após o marco da batalha entre portugueses e holandeses, na qual os lusitanos levaram a melhor, e o Capitão estica a coluna e nos diz para nos prepararmos para ver o jacaré, chegou o momento.

Ele aponta e o jacaré surge diante de nossos olhos, gigantesco, como se tivesse viajado desde a Terra do Nunca para ser companheiro desse Capitão Gancho nessa nossa viagem. Ele é imenso e sua boca está aberta, não para nos engolir, mas para saudar tudo em volta.

Abrimos nossos sorrisos, pois o que parecia ser mais uma brincadeira do Gancho, era na verdade a mais séria forma de se divertir. Lembre-se de Peter Pan que fez seus amiguinhos voarem com a força da imaginação. Assim é que se descobre os centros mais belos do mundo como Carneiros.

A últiima parada na pequena igreja construída entre os coqueiros foi espiritual, uma reza de agradecimento e conciliação.

A viagem terminou, mas sorrir para o mundo sempre será uma constante, assim nos ensinou o Capitão Gancho, que pode estar longe da Terra do Nunca, mas não do seu jacaré que de boca aberta não o engole, apenas sorri junto com ele.

Psicodelia à vista: bem ali perto de Carneiros está ancorado o Submarino Amarelo.

14 dezembro 2009

Rio próximo

É necessário olhar o rio de frente!
A sensação é nítida, Manaus vira as costas para o Rio Negro.

Nos últimos dois anos visitei a cidade em cinco ocasiões e foi possível perceber que Manaus está cada vez mais abandonada, feia, suja, caótica e violenta. Sei que isso não é nenhuma novidade quando se trata de uma grande cidade brasileira, mas gostaria de falar sobre isso em torno da relação da Manaus com o Rio Negro.

Morei em Manaus até os 17 anos e o rio sempre estava associado ao lazer, na verdade aos raros lazeres, pois não frequentava a praia da Ponta Negra e os passeios de barco eram bem escassos. Com a exceção de um ano, todo esse período foi vivido em bairros afastados do rio. O meu relacionamento com as águas escuras do Rio Negro era distante.

Um outro fator curioso é que enquanto criança não fui educado para olhar para o rio, entendê-lo como parte importante da cidade e me orgulhar desse gigante espetáculo da natureza. Não lembro uma vez sequer do Rio Negro ser objeto de algum tipo de assunto. Vivi uma infância urbana em meio ao asfalto, concreto e bairros pouco arborizados, apesar de me encontrar no coração da selva amazônica.

Será que eu era uma exceção entre muitas crianças?

Não sei...

Quando se navega pelo Rio Negro margeando a cidade de Manaus, percebe-se uma ofensa. Nenhum plano urbano para a orla, são construções improvisadas, sujeira e alguns estaleiros.

É uma cidade inteira de costas.

O desenvolvimento urbano de Manaus está custando muito caro, é uma das cidades com maior movimentação de dinheiro no país, investimentos crescem a cada ano e os olhos internacionais sempre muito atentos a tudo que ali acontece, mas a noção de convívio social adequado não consta em nenhuma das pautas. A maioria das pessoas vive mal, se transporta pessimamente e não possui nenhum refresco visual, apesar das recentes iniciativas de parques e espaços culturais. Acredito que falta agregar mais valor ao sentimento do manaura por sua cidade.

Um sentimento que não parta do ufanismo e sim para valorizar o espaço público, assim como a natureza serviu de alicerce para Gaudí conceber todas as suas obras, ela também poderia ter sua harmonia respirada dentro dos limites urbanos de Manaus.

Que as obras para a copa do mundo não sejam as únicas esperanças de melhorias na urbanização da cidade, e que os olhos se voltem para o rio, pois ele é tão humano quanto nós com a riqueza de nossas nuances. Ele seca, depois enche, depois seca só um pouquinho, enche de novo...

13 dezembro 2009

Sequelas

Identifico a importância de um filme com as sequelas que ele provoca em cada espectador, principalmente quando as dubiedades e incertezas se concretizam como os elementos chave. Ontem, 12 de dezembro de 2009, vivi uma maratona Woody Allen assistindo aos filmes Desconstruindo Harry, Tiros na Boradway e Setembro, da qual saí com uma vontade de externar algumas percepções.

Longe de buscar uma unidade entre os três filmes, refleti sobre a participação de nós mesmos em nossos objetivos pessoais. O desejo de ser único e ter a sua personalidade reconhecida é comum no mais comum dos homens, a partir daí podem surgir verdadeiras sagas em busca do mais nobre reconhecimento. Em função de que?

Quando ao fim de sua trajetória, o personagem principal de Tiros na Broadway conclui que não é um artista após tentar se firmar como tal ao longo de todo o filme, talvez ele lance um desafio presente nas duas outras obras de Allen, até que ponto devemos insistir em ciar algo ou superar certos limites?

A busca por certezas e afirmações consome uma energia considerável e acredito que talvez seja mais desafiador pisar em terrenos mais misteriosos. Os três filmes me fizeram pensar sobre isso, pois apesar de personagens bem desenhados e extremamente consistentes dentro das narrativas dos filmes, todas suas histórias de vida parecem ricas em incertezas.

Quando a dificuldade do escritor Harry, em Desconstruindo Harry, se concentra na sua relação com os próprios personagens, pois todos têm sua gênese na realidade, os significados da criação parecem se perder completamente, pois as complexidades das pessoas não conseguem ultrapassar os limites entre ficção e realidade. E são essas complexidades que Allen nos apresenta sem julgá-las ou defini-las, cada personagem é para cada espectador um poço de questões.

Em 2009, tive duas idéias para a realização de documentário, porém não levei a cabo nenhuma delas, apesar de um envolvimento intenso com cada assunto, um deles, inclusive, faz parte de leituras quase diárias. Não acredito que são projetos totalmente arquivados, mas hoje os vejo como assuntos pessoais e que a minha própria investigação em cima de cada um deles me favorece para amadurecer as minhas concepções sobre os mesmos.

Um amdurecimento que pude apreender ao assistir Setembro, pois as complexas relações entre os personagens e suas dificuldades de superação exemplificam de forma mais crua as peripécias pelas quais passam os personagens de Harry e Tiros na Broadway. A casa de campo representa um confinamento pessoal que exige de cada um a verdade sobre si mesmo. Eis aí a minha sequela.

Não sou exigente comigo mesmo, mas às vezes caio num terreno murado por todos os lados e fico horas e dias na tentativa de pular esse muro. Descobri então que tenho que evitar a queda nesse terreno, pois a criação e a satisfação pessoal se encontram num terreno superior, sem muros e limites, mas precisamos ter cuidado para não dar o passo em falso.

05 dezembro 2009

Londrina, meia-noite

Estava no banco ao fundo do ônibus, desceria no metrô Clínicas e do lado de fora, após uma gigantesca nuvem negra cobrir o céu paulistano, despencava uma torrencial chuva que não somente iria fazer a metrópole parar com engarrafamentos colossais como também deixaria um saldo de 6 mortos nas manchetes dos jornais do dia seguinte.

Meu destino: A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, com projeção em 35mm no CCBB.

Desci do ônibus numa parada próxima à entrada do metrô. Apertado entre outros cidadãos que esperavam seus coletivos divaguei se corria ou não à estação. O relógio do celular me informou que eu deveria correr.

Corri.

Resultado: Encharcado.

Naveguei pelos túneis do metropolitano com a camisa grudada no corpo, mas com a certeza de que em minutos estaria frente a frente com um dos meus top 5 de Allen. Desembarquei no metrô São Bento e com um guarda-chuva de cinco reais comprado ali mesmo, percorri as calçadas do centro de São Paulo e com a úmida roupa me sentei na poltrona do cinema. A sessão atrasara e o meu atraso não me fez perder nenhum fotograma.

A Rosa Púpura do Cairo tem pra mim um valor sentimental muito forte por dois motivos, o primeiro pela sua esplêndida valorização dessa relação do cinema com nossos imaginários, a imersão em mundos que nos completam de certa forma. Quando criança, por tantas vezes desejei que a princesa Leia saisse das telas para os meus braços e por outras tantas desejei que eu entrasse na tela para ser um jedi nos braços dela. Woody Allen soube com maestria traduzir tudo isso. O segundo motivo tem a ver com Sigourney Weaver, mas aí o relato será num texto em breve, visite sempre o Tyler Durden Fora do Caos.

Assistir ao filme pela primeira vez em película me fez perceber algo muito interessante, as cenas em preto e branco que se referem ao filme do personagem rebelde são extremamente vivas, um nítido contraponto à realidade marrom e escura da protagonista chamada Cecília (Mia Farrow). É uma luz que talvez nosso mundo real não consegue apreender. É poeticamente rica a cena final em que Cecília ressuscita seus ânimos com essa luz que vem da tela.

Guarda-chuva aberto, cidade parada, e caminhei até minha casa atravessando a Sé e o bairro da Liberdade refletindo sobre o filme e outras coisas, foi bem agradável.

Deixei a mochila em casa e resolvi também deixar o guarda-chuva, parti para mais uma missão cinematográfica e novamente molhei a camisa no trajeto até o metrô.

Cheguei sem muitos problemas na abertura da Retrospectiva do Cinema Brasileiro no CineSESC e assisti ao doc Crítico, de Kleber Mendonça Filho. Bons depoimentos, edição eficiente e o filme traz uma curiosa investigação em torno do universo de crítica cinematográfica.

Foi um dia de caos urbano em São Paulo e fui dormir com vários pensamentos, busquei reuni-los no que costumo expressar como experiência cinematográfica. A sala escura e a luz rebatida te envolvem de um tal modo que a duração de um filme é o espaço dessa experiência única de absorver um universo que não nos pertence e que conseguimos, na maioria das vezes, digerir toda sua lógica. E o resultado obviamente depende de cada um.

O filme de Kleber apresenta isso através do que é possível produzir com reflexões e opiniões em torno de um filme e suas possíveis conseqüências, enquanto Woody Allen me mostrou o poder da luz revigorando uma Cecília imersa num poço de frustrações.

Dia seguinte. Londrina, meia noite.

Dentro da programação da Mostra Londrina de Cinema um filme surpresa, Death Proof, de Quentin Tarantino.

A medida que o filme avançava, a minha sensação era de vivenciar uma epifania, o cinema parecia estar se reinventando, mas não estava, dessa vez não eram as águas das nuvens de São Paulo que me encharcavam, eu estava mergulhado num mar de possibilidades para o meu imaginário, aquela frágil Cecília não é parte de uma ficção, ela existe, e o cinema se revela não mais como limite de nossas inundadas realidades, ele rompe todas as fronteiras, amplia o possível.

Não somente os dublês estão à prova da morte.

12 outubro 2009

Sem braços em Paraty

Viagem.
O que pode siginifcar uma viagem?
Marcelo Gomes e Karim Ainouz nos respondem a essa pergunta com um poético filme cuja narrativa é capaz de jogar intensamente com as mais inquietantes reminiscências.

Desse jogo eu participei sentado numa escada de madeira numa chuvosa noite de sábado. Cheguei atrasado e o Cine Teatro Paraty estava tomado para a experiência de "Viajo porque preciso, volto porque te amo". Cada estrada, cada pensamento e personagem iluminava não somente um pedaço da consciência mas trazia um balde de água para ser derramado sobre as minhas incertezas acerca do que se é capaz de elaborar com a narrativa cinematográfica.

O assento duro da escada incomodava, mas a tela do cinema utilizava toda sua gravidade para me deixar cada vez mais sentado. O filme termina e a perceção mais imediata é que o fim sempre se aproxima.

Eis que chega ao fim também o Festival de Cinema de Paraty, que na sua segunda edição fez de sua programação algo muito único pela sua variedade mas também por abrir um diálogo com o cinema que se faz tão próximo. Recentemente questiono muito se existe um esgotamento das narrativas nos filmes, mas cada vez mais percebo que preciso realmente definir a palavra esgotamento, pois o fim da linha surge e a reação mais necessária é fazer surgir um novo começo.

Longe desses pensamentos sentei para assistir ao City Island na sessão de abertura, na qual minha observação mais contundente era a ausência de braços nas poltronas do Cine Teatro Paraty, uma charmosa sala de exibição à espera de uma revitalização completa. Muito próximo dessas e de outras reflexões deixarei Paraty, gostei da visita.

Preciso viajar porque o cinema está ao redor, volto porque amo tudo ao redor.

30 setembro 2009

O dia em que os feriados acabaram

Com mochila nas costas e sentado num banco de plástico vermelho. Era assim que eu estava comendo um delicioso pastel no Pastel da Maria.

Estádio do Pacaembu ao fundo, garoa fina e clima frio.
Curioso para quem poucos dias antes desfrutava do calor e sol potiguares, mas nada de reclamar, pois com certeza essa terça-feira ficará guardada de forma feliz junto com outras boas lembranças.

Finalizei meu gelado suco de uva, paguei e deixei para trás a barraca da Maria, que naquele momento estava nos preparativos para uma entrevista ao vivo na Band. Me dirigi ao estádio, mais especificamente ao Museu do Futebol para falar com Luciano, responsável pelos eventos no museu, sobre as sessões do programa "Unidos na Paixão" dentro da programação de aniversário de um ano desse local que se tornou uma parada obrigatória a todos que visitam nossa cidade.

Após acertar os detalhes fui conhecer o museu.
Pois é, declaradamente fã de futebol, morador de São Paulo, o Pacaembu é perto tanto da minha casa quando do meu trabalho, e ao longo de um ano eu nunca havia entrado ali. Mas enfim, essas coisas acontecem. Obviedades e pragmatismos são assuntos do século passado (aquele chamado vinte).

Da entrada ao final, a experiência no museu é muito particular.

E a terça-feira se tornou única pelo momento que vivi à frente de uma tela na qual o visitante pode escolher um gol para ver ou rever, sempre comentado por alguma figura do meio boleiro. De primeira escolhi Flamengo 1 x 0 Vasco na final do carioca de 1978, que deu início a um dos períodos mais cheios de glórias do meu mengão, e é sempre bom ver o vicevasquinho tomar gol. Em seguida o gol do Nunes na conquista do primeiro brasileiro em 1980 (Flamengo 3 x 2 Atlético/MG). Por fim resolvi ver o gol do italiano Paolo Rossi na derrota brasileira na Copa da Espanha.

Segundos depois meus olhos estavam úmidos.

Se existe uma recordação de infância marcante, sem dúvida foi aquela segunda-feira 5 de julho de 1982. A partir do ponto de vista de um garoto de 7 anos, tudo em volta era euforia naquela copa, a primeira da qual me lembro. A festa havia começado bem antes do mundial, todos falavam da seleção e a minha ansiedade em saber como era uma copa crescia a cada dia. Começa o torneio, ruas pintadas, tudo colorido e os dias de jogos da seleção eram feriados na essência.

Até que chega o jogo contra a Itália.

Ver novamente aquelas cenas no museu me jogou diretamente para a casa no bairro do Vieralves em Manaus, onde eu estava com a minha mãe e outros amigos dela. O Brasil passava sufoco, mas era o Brasil de Falcão, cuja comemoração do gol de empate é a imagem mais marcante que tenho, com ele eu gritei e pulei assim como todos em minha volta, a seleção chegaria lá. Não chegou.

O gol de Paolo Rossi era inaceitável. Um silêncio estranho.

Terminou o jogo e tudo era esquisito, não parecia real. Eu não conseguia me acostumar com a idéia que não haveria outro jogo do Brasil naquela copa.
Os feriados acabaram!

O vídeo também acabou e eu fiquei parado por um breve momento, era minha infância revisitada de uma forma diferente. Uma época distante, que pertence ao século chamado vinte, assim como aquela copa.

E na ansiedade de ter uma copa muito mais perto de mim em 2014, saí do museu com a plena convicção de que muita coisa vale a pena nessa existência, não importa o século.