02 maio 2008

Frutas & Vento

A hélice verde escuro de um ventilador gira.
O ventilador está no chão de uma casa cujo assoalho é de tacos.
Os cabelos pretos encaracolados de uma mulher de 25 anos esvoaçam com o vento que chega deste ventilador.
Os olhos dessa mulher estão adormecidos e os músculos da face relaxados.

Pedaços de frutas caem dentro do copo azul claro de um liquidificador.
Um copo de leite é derramado sobre essas frutas. Uma mão feminina tampa o copo do liquidificador.
A mesma mão, com unhas pintadas de ciano, aperta o botão da potência mais forte (talvez #3).
O liquidificador não funciona.
Na pia, ao lado do liquidificador, está a mulher de unhas ciano, ela tem 33 anos e está cabisbaixa com as mãos apoiadas na pia.
Essa mulher vai até a porta da cozinha, que está aberta, escora-se e ali fica parada.

Os pés da mulher de cabelos encaracolados repousam sobre uma almofada laranja.
Seus cabelos esvoaçam.

A mulher de unhas ciano tenta fazer o liquidificador funcionar na tomada do quarto.
Depois na tomada do outro quarto. Na tomada do banheiro.
Por fim numa tomada do corredor.
Sem sucesso.

A hélice verde escuro do ventilador pára de rodar.
Ouve-se o som ensurdecedor do liquidificar funcionando.
Os olhos da mulher de cabelos encaracolados se abrem.

A mulher de unhas ciano está em pé com o copo azul claro do liquidificador na mão. Ela diz:

-Essa é a única tomada que funciona na casa.

A mulher de cabelos encaracolados se levanta e vai ao banheiro.

21 abril 2008

Mudança e esperança

Há um tempo comento com meus próximos que vivemos um momento especial na América do Sul, e me preocupa talvez a pouca atenção que se dá ao que acontece nesse continente. A eleição de Lugo no Paraguai, seguida de um último grito de esperança dos paraguaios por mudança, insere o nosso vizinho no rol de governos de esquerda, eleitos democraticamente (nunca esqueçamos disso), que têm realizado novas perspectivas para um continente historicamente marginalizado e submisso às potências européias e estadunidense, submissão não somente econômica, mas também cultural.

O governo de Chavez não é igual ao Evo Morales, que não se iguala ao Rafael Corrêa, que difere dos Kirchner, estes não são semelhantes ao Lula, que muito menos se compara ao recém eleito Fernando Lugo. E essa é a principal característica, nenhum dos governos age como se existisse um modelo único de sulamerica, mas todos soltam a voz e ações para firmar uma identidade própria de seu país, uma soberania que esse continente jamais possuiu, e mais: lançam diálogos entre eles para que essa soberania se estabeleça numa harmonia justa. A Colômbia não pode lançar bombas em território vizinho, o petróleo venezuelano é extraído em território venezuelano, o gás boliviano está no solo boliviano, os brasileiros em seu próprio território não podem ler a cartilha do FMI para comprar leite, e sim, os paraguaios devem reivindicar um diálogo mais amplo para sua questão energética, pois precisará se desenvolver, criar recursos para um desenvolvimento de fato.

Aos que bravejam que esses governos, através de corrupção e desejo de poder, são iguais aos seus anteriores, pouco percebem as mudanças significativas que proprocionaram e que podemos fazer mais, começando por uma avaliação crítica desses governos principalmente para extrair das entranhas desse continente a corrupção e o poder pelo poder. Podemos fazer isso através de justa eleição dos representantes, colaborar na formação de novos quadros políticos, conscientizar que a sonegação de impostos gera mais corrupção, conscientizar nossos filhos que há um bem público, que eles não devem lutar somente pelo que é seu, que é preciso ser solidário, aceitar a diferença. Talvez assim, possamos verificar que a América do Sul entrou no século XXI dando um importante primeiro passo, e que os seguintes dependerão da nossa própria ação, espero que não se perceba isso tarde demais.

14 abril 2008

Para o alto e avante!

Pois é, o Clube de Regatas Flamengo foi a Cuzco e não sofreu nenhum avaria de oxigênio e ainda saiu de lá classificado para a próxima fase da Libertadores com uma vitória espetacular de 3x0 sobre o time local Cienciano.

Nem o mais otimista dos rubro-negros poderia imaginar isso, todos estávamos cientes de que tudo que se deveria conseguir ali era um empate, mas enfim saímos de alma lavada, inclusive o Toró, autor do segundo gol, e que na última partida do Mengão fora do Maracanã foi protagonista de uma inútil violência contra um gandula uruguaio, e com justiça fora expulso.

Mais uma vez o meu time do coração é só alegria e não deixo de imaginar os pobres vascaínos, sem essas gratas felicidades futebolísticas.

28 março 2008

Chão de pedras

Correu e caiu.
O braço ficou machucado e sangrava.
Ele se levantou e ficou olhando o ferimento, não sabia o que fazer.

Continuou correndo, suor e sangue escorriam pelo braço. Nos seus pensamentos uma dúvida: por que mudaram o horário?

45 anos de idade, e tudo que ele fazia agora era correr. Uma estrada de terra, poucas árvores, chão cheio de pedras.

Ele cansou, parou e decidiu não mais correr, o sangue escorria e coagulava. Enxugou o suor do rosto com a própria camisa.

Um velho empurrando uma bicicleta vinha em sua direção bem lentamente quando viu o seu braço machucado e perguntou se ele precisava de ajuda. A resposta foi que estava tudo bem, mas que ele precisava de água. O velho disse que sua água acabou há 5 quilômetros, e que se a sede fosse grande, era melhor voltar.

Voltar?

Aquele sangue coagulado era o seu orgulho. Parou para desprezar o tempo, mas ferir seu próprio orgulho seria algo demais.

O velho observava com olhos tristes e depois de um tempo se aproximou. O homem do braço machucado se afastou para sentar numa pedra, visivelmente ele não estava bem. O velho deixou a bicicleta ao lado do homem e seguiu seu caminho.

Horas se passaram.
Um homem com sede ao lado de uma bicicleta deitada no chão de pedras.
A noite parecia longe e mais longe ficou quando seu braço voltou a sangrar.

17 março 2008

Esquina






































Eu tinha 10 anos. Quinta série, período da tarde, Manaus.

Pouco antes de chegar no colégio, na esquina da avenida Eduardo Ribeiro com a rua Saldanha Marinho, a Kombi que me levava estava parada no sinal.

Eu era o último e o único a ser entregue naquela escola, portanto ali estava eu sozinho com o motorista,que do nada virou pra mim e disse:

"Se eu tivesse a tua idade, faria tudo diferente."

O sinal abriu, fui pra aula e essa imagem nunca mais saiu da minha cabeça.

Pequeno bilhete

E o correio havia chegado, com uma carta apenas.
O carimbo indicava uma agência do Amapá.
Dentro do envelope havia apenas um pequeno bilhete:

Ontem choveu, fiquei sem o carro, mas a viagem está confirmada.

Como é bom esperar por alguém que se expressa com poucas palavras.

(Início de uma história amazônica de 1986, autor desconhecido)

10 março 2008

Enveredar

Era ela, que estava numa parada de ônibus às seis da tarde não tão longe de onde eu estava, e começou a me dizer como estava frustrada.
Eu disse: Mas você sabe muito bem que eu não posso te ajudar.

A voz dela ficou mais grave, e então fiquei sabendo que ela estava cheia de sacolas do supermercado e impaciente com a espera do ônibus, que não parava de passar, mas sempre lotado. Mencionou novamente a sua frustração.

Propus que ela me esperasse na parada de ônibus, eu chegaria em 10 minutos.
Ela disse: Não!

Desligou dizendo que o ônibus havia chegado.

Eu disse: Alô.
Ele estava na casa da mãe dele, a dez minutos da parada de ônibus onde eu estava com várias sacolas de supermercado na mão.

Procurei entender porque eu estava com aquele sentimento horrível de frustração e ele seria uma pessoa ideal pra me ajudar nisso.
Mas por que a gente sempre acha que tem que ser ajudada? Aquele telefonema me trouxe outra frustração.
Pensei: Caralho!

Ele disse: Chego aí em dez minutos.
Desliguei com a desculpa que o ônibus havia chegado, e o coletivo realmente estava ali parado, mas muito lotado, vou esperar o próximo.

Eu pensei: Por que será que ela fala tanto no celular?
É a terceira vez desde que estou aqui esperando por um ônibus vazio, quero ir sentado e pronto!
Ela parecia aflita com alguma coisa, loira tingida, bonita, com uma sandália de plataforma que lhe dava mais uns 7 cm.
Ela estava suada e isso me atraía, tomara que peguemos o mesmo ônibus!

Virtude em Cícero

E, assim como cada espécie tem alguma propriedade que a distingue essencialmente, assim o homem tem uma, mas muito mais excelente: se assim se pode falar com propriedade da nossa alma, que, sendo uma emanação da mente divina, é de ordem superior, ela não pode ser comparada, ousamos dizer, senão com a mesma divindade. Esta alma, pois, quando a cultivamos, e quando a curamos das ilusões capazes de cegá-la, alcança este alto grau de inteligência que é a razão perfeita, e à qual damos o nome de virtude. Ora, se a felicidade de cada espécie consiste no modo de perfeição que lhe é próprio, a felicidade do homem consiste na virtude, uma vez que a virtude é a sua perfeição.

(Cícero, Tusculanas Livro V, XIII)

08 março 2008

Neblina Vermelha

Minhas pernas tremiam levemente.
Tudo o que meus olhos enxergavam era um abismo preenchido de neblina vermelha.

Os pensamentos apenas imaginavam aquela viagem, o corpo em queda livre e a neblina tocando a minha pele, um frio que me faria rever um passado, onde eu conhecia todas as minhas decisões e opções, escolhas feitas para viver até chegar na última das tentações.

Não, isto não podia ser um fim.

Quis acreditar que o abismo se tornaria um imenso túnel, uma travessia. O novo e o desconhecido estariam ali, do outro lado daquela atmosfera vermelha. Tempo? Sempre fiz minhas escolhas baseadas no tempo, agora o tempo seria o meu controlador, ele me forneceria essa nova experiência, não desejava pensar nele. E um frio atravessou minhas costas...

O concreto estava liso e os meus pés estavam prontos para escorregar para o mergulho. Aquele momento estava silencioso e a neblina parecia cada vez mais densa. Vermelho sempre foi a minha cor preferida, seria por acaso? Busquei o significado do vermelho pra mim, talvez representasse tudo o que eu acredito. Listei um a um até chegar no sangue.

Minhas pernas pararam de tremer.

03 março 2008

O passo em falso de Uribe

A Colômbia vai ferver.

A ação militar colombiana na fronteira do Equador foi um erro diplomático delicadíssimo, recentemente as FARC libertaram reféns de forma unliateral e o diálogos começavam a ter bons resultado. Mas de repente, Uribe acende o fósforo e despeja suas bombas em acampamento das FARC, como se dá isso?

A resposta é difícil e sem dúvida não se pode prever quais os resultados, Chavez e Correa reagiram de forma enérgica, mas são discursos de chefes de Estado, eleitos democraticamente, e foram vozes para dizer a Uribe que seus vizinhos não estão de acordo com ações "texanas", acampamento das FARC não é Iraque nem Afeganistão. E considero remota a possibilidade de uma guerra na América do Sul como profetiza Chavez, mas o que temo é a reação das FARC, acredito que não será com discursos inflamados na TV, e sim com as suas próprias armas e sequestros.

Uribe deu um passo em falso, e tomara que não tenha como resposta mais colombianos mortos por uma violência histórica e que deve ser interrompida não com bombas caindo do céu em território equatoriano, e sim com a flexibilidade do diálogo, ação esta que seu vizinho venezuelano, cheio de bravatas, petróleo e armas, se mostrou disposto a realizar.

Lembremos mais do sonho unificador de Bolívar do que da violência de suas batalhas, para nos unirmos temos armas que não matam.

29 fevereiro 2008

Tudo Era Macedônia

I

Rosa traz para a cozinha uma bandeja com vários copos.
Um deles está quebrado.
Rosa pega esse copo quebrado, lava ele com todo o cuidado. Depois de enxugá-lo ela ensaia movimentos de esgrima como se o copo fosse a espada.

Rosa: Eu ainda te mato, sua puta!


II

Rosa tomando um sorvete em um estacionamento, ela passeia entre os carros. De repente ela avista Gabriel, vai em sua direção, dá um beijo na boca dele, ele parece bastante cansado. Eles entram no carro, Rosa na direção. Ela liga o carro e depois joga o sorvete na cara de Gabriel.


III

Rosa na cozinha segura o copo quebrado. Surgem na porta Sueli e Rafael.

Sueli: Estamos indo.

Rosa esconde o copo atrás de si. Sueli se aproxima para beijar Rosa. Gabriel entra na cozinha.


IV

Rosa e Sueli estão na parada de ônibus, que está bem lotada.

Sueli: Desde quando você também pega esse ônibus?
Rosa: Desde a semana passada, por quê?
Sueli: É que talvez ele não seja o melhor para você.
Rosa: Você tem alguma outra sugestão?
Sueli: Tenho, mas aí você vai ter que ir para outra parada.


V

Rosa no banheiro lavando sua mão, que está toda cortada. Jorra muito sangue. Gabriel está ao seu lado.

Minutos antes na cozinha:
Sueli abraça Rosa. Escuta-se o som de vidro quebrando. Rosa solta um forte grito de dor.


VI

Rosa está numa parada de ônibus sozinha.


VII

Rafael está varrendo o chão da cozinha e catando os pedaços de vidro do chão. Sueli está sozinha na sala. De repente Sueli começa a rir. Rafael surge e pergunta do que ela ri. Sueli não consegue responder, pois o riso é incontrolável.


VIII

Rosa fecha a torneira, Gabriel começa a fazer um curativo.

Sueli não consegue parar de rir.
Rosa aparece na sala com metade da mão enfaixada, ainda sangra um pouco.
Rafael e Gabriel ficam constrangidos com a situação: Sueli às gargalhadas e Rosa ali parada, apenas observando e com sangue escorrendo pelo curativo.


IX

Rosa e Gabriel deitados na cama de um hotel barato. Ele está deitado de barriga pra cima. Ela está de bruços e folheando uma agenda.
Rosa folhea os mapas no final da agenda.

Gabriel: Em que país você está?
Rosa: Na Macedônia.
Gabriel: Você sabia que um dia tudo foi Macedônia?
Rosa: Tudo o quê?
Gabriel: Tudo ué, tudo isso que você tá olhando aí.

Rosa rasga a página que tem o mapa da Macedônia. Gabriel observa espantado.
Rosa se levanta e entra no banheiro.


X

Gabriel está na porta do banheiro de sua casa.
Do outro lado da porta escuta-se o choro contido de Rosa.
Pingos de sangue estão espalhados pelo chão.


XI

No quarto de hotel Rosa está junto à janela olhando a rua pelas frestas da veneziana. Gabriel dorme de barriga pra cima.
No cesto do banheiro está o mapa arrancado por Rosa.
Ao lado da Macedônia está escrito a lápis:

“Sueli”


XII

Sueli e Rosa estão na parada de ônibus, que está lotada.
Rosa está com a mão enfaixada.

25 fevereiro 2008

Águas no Maracanã

O segundo tempo da final da Taça Guanabara (primeiro turno do campeonato carioca) fez chover água do céu e o Fogão, que esquentou o gramado e a cabeça do Mengão no primeiro tempo, se apagou nas próprias lágrimas.

Mengão vitorioso e Botafogo chora, isso mesmo, de novo! Chora jogador, técnico, presidente e todos com a mesma história: passaram a mão no glorioso.

Como rubro-negro de coração, estou longe de chorar, só alegria, ainda mais ver o que o Joel (técnico do Flamengo) fez, as alterações no segundo tempo simplesmente acuaram o Botafogo, que então vencia por 1x0. Cuca (técnico do Botafogo) simplesmente não acreditou no que viu e fez uma alteração aos 12 minutos, porque sentiu que a coisa ir ferver para o fogão.

15 minutos/segundo tempo. Penalti para o flamengo. Pensei: Otimo, mas vai ser um saco ouvir botafoguense reclamando da arbitragem, mais uma vez!

O zaguerio do Botafogo praticamente arrancou a camisa do zagueiro flamenguista Fábio Luciano, e o pior, na cara do juiz, que ao ver um jogador quase sem camisa e arremessado ao chão não teve dúvida, era dentro da área e era penalti!

Ibson, o craque, bate com perfeição e o Mengão empata!

Daí em diante teve expulsões, brigas, chuva, emoção atrás de emoção. E eu ali na frente da tela de um computador ouvindo o jogo pela Rádio Globo, nenhuma TV transmitiu em São Paulo, absurdo! Sem contar que o pay per view custa 60,00!!! Mas enfim, meu coração bate por ti mengão, vamos ouvir na rádio!

E pra completar a emoção, Joel, vou me permitir a liberdade e o exagero de chamá-lo de gênio Joel, colocou mais um atacante em campo: Diego Tardelli. Não deu outra, gol de Tardelli nos acréscimos! Mengão 2x1, de virada.

Flamengo campeão da Taça Guanabara e está na final do campeonato.

Jogo emocionante, nada daquelas coisas patéticas dos campeonatos europeus, onde tudo é muito certinho e vemos apenas milionários exercitando suas habilidades. Acredito no futebol da raça, do choro, da emoção, dos cartões vermelhos, dos erros do juiz, assim a gente sente o coração mais de perto e tem a certeza de estar vivo!

24 fevereiro 2008

Seja bem vindo ao encontro das águas



O encontro das águas é uma das principais atrações turísticas do Amazonas, onde o rio Negro, de águas escuras, encontra o rio Solimões, de águas barrentas.

O rio Solimões é nome do rio Amazonas desde que entra no estado do Amazonas, vindo do Peru, até o encontro das águas, em Manaus, a partir desse ponto até o oceano Atlântico ele passa a ser denominado rio Amazonas.

Para saber mais:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Encontro_das_águas
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Solimões
http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_amazonas

23 fevereiro 2008

Cícero - envelhecer

Os frutos da velhice, tenho dito e repetido, são todas as lembranças do que anteriormente se adquiriu. Ora, tudo o que é conforme à natureza deve se considerar como bom. Que há de mais natural para um velho que a perspectiva de morrer? Quando a morte golpeia a juventude, a natureza resiste e se rebela. Assim como a morte de um adolescente me faz pensar numa chama viva apagada sob um jato d'água, a de um velho se assemelha a um fogo que suavemente se extingue. Os frutos verdes devem ser arrancados à força da árvore que os carrega; quando estão maduros, ao contrário, eles caem naturalmente. Do mesmo modo, a vida é arrancada à força aos adolescentes, enquanto deixa aos poucos os velhos quando chega sua hora. Consinto de tão boa vontade tudo isso que, quanto mais me aproximo da morte, parece que vou me aproximando da terra como quem chega ao porto após uma longa travessia.

(Cícero, "Saber Envelhecer")

21 fevereiro 2008

Questionabilidade

Ela preparava o recheio.
Na janela um pequeno vaso a observava.
Sua dúvida estava não mais no modo de preparo, mas se a ocasião era realmente a mais apropriada para mostrar a sua grande invenção culinária.
O tormento da incerteza lhe consumia e num repente ela parou tudo. Ela não podia se dar ao luxo de um intervalo, os minutos consumiam o desgaste no relógio de parede. Mas era preciso pensar!

Após contar e nomear todos os presentes à mesa na hora do jantar, ela se deu conta de uma coisa: uma pessoa em especial merecia provar aquela nova receita. O motivo? Esperemos um pouco.

Volta à cozinha, recomeça o trabalho com dedicação espartana.

Pronto, está pronto. 20h.

Um banho bem tomado, perfume no corpo, roupas leves.

Dia seguinte.
Sentada no sofá vermelho de sua sala, tudo que ela investiga em sua memória é onde havia errado. Todos os ingredientes estavam certos, o modo de preparo poderia até ser diferente, mas com toda a sua experiência era impossível errar, mas ela errou.

Foram somente duas vozes que citaram a estranheza, a primeira ficou incomodada com a pimenta. Pimenta? Sim, isso mesmo, a pimenta. Mas enfim, era um prato de inspiração indiana...
A segunda pessoa disse que... Ah, esta segunda pesssoa era quem realmente deveria provar o novo prato, o motivo? Ela com certeza não iria gostar, qualquer que fosse o cardápio. Elas se odiavam, e tudo por causa de um cabelereiro. Raios! Mas por que ela estava naquele jantar? Sabe aquelas coisas de grandes amigos em comum? Pois é...
Voltando, o comentário foi que tudo estava aguado.
Se havia sinceridade nesse comentário? Sem dúvida! Ali sentada em seu sofá vermelho ela lembrava o olhar de sua inimiga na noite anterior, pura sinceridade.
Esse foi o maior tormento, ela queria ouvir uma única reclamação, e sentir falsidade, mas aconteceu o contrário. Além de uma pessoa neutra ter reclamado da pimenta, a sincera crítica de uma rival a fez desmoronar.

E agora? Pimenta e água, como isso estava em exagero?

Tudo que ela podia crer era que a TPM a afetava com toda a sua força naquele mês, perdera a medida das coisas.

(e foi tudo o que ela disse ao caixa do banco)

20 fevereiro 2008

Coletor e cobrador

Av. Paulista, manhã.
O ônibus pára no sinal. Eu estou sentado dentro desse ônibus, dois bancos para trás do cobrador.
Ao lado do ônibus está um caminhão de lixo.
O cobrador lê um jornal (que parece ser um daqueles distribuídos no metrô).
O coletor de lixo, pendurado na traseira do caminhão ao lado, se aproxima da janela do ônibus e fala ao cobrador:
- Que emprego bom esse hein!
O cobrador responde algo meio desconcertado. O coletor continua:
- Sai de casa e fala pra mulher que vai trabalhar e passa o dia passeando de ônibus.
O coletor solta uma risada. Um outro coletor, pele bem clara, olhos pequenos e pendurado na outra barra de ferro da traseira do caminhão, também sorri.
O cobrador ri e novamente responde algo meio desconcertado.
O coletor então diz que sabe que o trabalho do cobrador parece fácil, mas tem hora que a coisa aperta, fica difícil, com muita tensão. Em seguida forma na sua mão um revólver com os dedos. Na seuqencia ele completa:
- Deus é maior!
O cobrador responde que o trabalho do coletor também parece difícil. O coletor confirma dizendo que é bom por passear também, mas o cheiro, andar pendurado, risco de tontura na cabeça, e muitas outras coisas fazem o serviço mais duro, mas "Deus é maior".
O sinal abre.
Os dois trabalhadores se despedem, risos em seus rostos.
O ônibus vai mais rápido que o caminhão de lixo.
Penso: e o motrista do caminhão, como será?
Espero passar pela janela e quando vejo, lá está ele, um homem de meia idade manipulando um jornal (que parece ser um daqueles distribuídos no metrô) e o voltante de seu caminhão.

Futebol pela manhã

Futebol.
O brasileiro Mancini fez gol pela Roma na vitória contra o Real Madrid pela liga dos campeões.
Vi essa notícia em dois noticiários pela manhã, ambas narradas com um entiusiasmo pelo sucesso do futebol brasileiro.
Argh.

There will be blood

There will be blood é there will be blood.

A tradução não foi feliz para o recente filme de Paul Thomas Anderson, a expressão 'Sangue Negro' é até compreensível no filme, mas o título original é o tom do filme.

Filmaço, ele exploode na tela, um verdadeiro filme de cinema em tempos que muitos consideram que ver em casa ou no computador não faz a menor diferença. Os enquadramentos são cuidadosos para expor uma narrativa linear mas perpendicularizada com os elementos que compõem a vida ebuliçada do personagem interpretado por Daniel Day Lewis. O desenho de som do filme constrói um envolvimento perturbador, uma concepção rara de ser ver.

No início do século XXI trazer um enredo que se passa no início do século XX e sobre o petróleo, é por si só uma reflexão importante para pensarmos quais valores construíram o século passado e que herdamos numa selvageria individualista.